ARTIGOS DO EDITOR
Ídolos nus e humanos!
Em alguns casos a gente é obrigado a recorrer a um código moral temporário.
Jean Paul Sartre.
Não é só a frase acima que Tête-à-Tête, de Hazel Rowley (Objetiva, 436 págs), nos revela sobre a intimidade não tão íntima de Sartre e Beauvoir, um casal único, talvez o mais falado do século XX, com certeza o mais ousado. O livro mostra que é preciso mais do que coragem para enfrentar a moral vigente, é preciso mais do que desapego para compartilhar os casos com os outros, é preciso um pouco de sacanice para incluir pessoas em suas aventuras, é preciso desprendimento para sustentar atuais e ex-amantes e no final da vida não ter pago a conta telefônica por falta de grana e isso impedir que se chame um médico.
Sartre e Beauvoir tinham um pacto entre si, de um para o outro, somente a verdade. Podiam e usufruíam do direito de ter envolvimentos emocionais e sexuais conforme o desejo. Simone várias vezes fez o papel de alcoviteira de Sartre, 1,58 m, tido e aceito por si mesmo com muito feio, a ponto de, filósofo conhecido e importante, ainda ter vergonha de abordar um estranho na rua para pedir informações. Mas essa feiúra não o impediu de atrair belas mulheres, desde a adolescência, sabia que sua sedução seria por meio de palavras. Sartre confidenciava a Beauvoir a prática um tanto diferente da teoria pregada. Para ele existiam tipos de pessoas para quem a mentira era a única resposta, então amantes não sabiam da existência de outras, ia além, ao chocar agora seus admiradores quando assume o inevitável “código moral temporário”. Tudo quase sempre em nome do amor, ou melhor de uma mulher.
Do filósofo que desprezou o prêmio Nobel de literatura e enfrentou o mundo na briga pelo existencialismo, de quem foi mais marxista que os intelectuais russos, poderia se esperar um pouco mais, principalmente em relação ao protótipo de mulheres. Beauvoir era a única mulher à sua altura, as outras apenas atraentes fisicamente ou em determinado contexto, sem muitas atitudes e posturas perante a vida. Eu esperava mais de alguém que pregava que o homem era o único responsável pelos seus atos, e ao decidir algo, assumia desde então todas as conseqüências. Mas isso mostra as incoerências de nós seres humanos, desconsiderado aí o grau de influência diante do mundo e a capacidade de pensar. Sartre vivia a base de bolinhas, eram fundamentais para que conseguisse produzir seus escritos e estimular os homens a combater o vazio da existência.
Simone, apesar de vários amores e paixões, tinha em Sartre a relação verdadeira, era com ele que se realizava, precisava dele para ser inteira. É o caso de um amor intelectual, nesse ponto nenhum traiu o outro. O único livro dela que Sartre não leu e palpitou nos manuscritos foi A Cerimônia do Adeus, exatamente o que narra a decadência dele até a morte. Foram 51 anos juntos, talvez não tão juntos quanto os que passo com a minha mulher ou você com o seu homem, mas eles tinham uma dinâmica própria.
Tête-à-Tête deixa os dois nus e ao leitor o direito de julgar. Eu já exerci o meu e agora provoco você. Descobrir que ícones e ídolos são tão passíveis de fraquejar quanto você e eu faz alguma diferença? Diminui o encanto ou o respeito pelas suas obras? Torna-o mais permissivo para aceitar as dificuldades e encruzilhadas de valores com que se depara dia-a-dia? Serve como desculpa e resposta para ir adiante quando sua consciência suplica que não? De que servem os ídolos para você? Aqui, deixo minha tentativa de aforismo para resolver o caso: Se alguém que admira se comporta na direção oposta ao que acha correto, mais uma razão para manter-se firme, é a sua retribuição, mesmo que a distância entre vocês não permita que seu exemplo chegue.
