ARTIGOS DO EDITOR

Inveja mata?

Não conhecia Márcia Denser, nada dela havia lido, talvez um conto em alguma antologia. Nada suficiente para me despertar para o seu nome. As orelhas de seu novo livro me cativaram: “Toda família tem uma imperfeição. Toda família tem uma cicatriz de lábio leporino…” lascados pelo crítico Ítalo Moriconi. Mas fui fisgado pelo marketing de seu currículo: escritora favorita de Paulo Francis e musa dark da literatura contemporânea.

Caim, não é tarefa para todos, linguagem complexa. Desenhei esquemas até conseguir montar toda a árvore genealógica das personagens. Duas irmãs discutem as origens e contrapõem visões de mundo, diferenças, mágoas e cicatrizes, tudo isso antes do trabalho de parto de uma delas. Ao ler Denser fica claro que com irmãos há duas opções: ou uma relação complexa de completude antagônica que os leva a se conhecer e se ajudar ou um distanciamento equivalente a uma proximidade vazia e superficial, daqueles que não tiveram coragem de enfrentar as disputas desleais pelo mesmo prêmio.

O paralelo bíblico com Caim e Abel serve de pano de fundo para que você reviva o relacionamento com seus irmãos ou irmãs. O que foi herança dos pais, o que vem de mais detrás ainda, o que não foi enfrentado, o que permanece obscuro. Uma das personagens é escritora, e acusada de colocar a vontade de narrar acima das relações pessoais, como se para ter uma boa história, não houvessem escrúpulos, apenas o aproveitar da desgraça alheia como material a inspiração acima dos sentimentos pessoais.

Depois de alguma confusão as peças começam a se encaixar e o leitor é brindado com frases e reflexões que devem ser anotadas e repetidas: “marido e mulher como fiador e depositário da identidade, liberdade e papel social um do outro”; “Nada entendia de sentimentos, isto era lá com Teresa, ela tinha um nome para cada um, um nome e uma explicação lógica”; “Horas e horas. Dias. Meses. Anos. Sentada sem fazer absolutamente nada. Não são as anfetaminas, não é o álcool, Amanda, é isso que enlouquece.”; “Rosa não achava graça nenhuma, teve oito crianças sob protesto. Praguejava em vêneto, não falava, não lia, não escrevia uma só palavra em português. Uma placenta perdida em terra estranha. Somos filhas do vício com a inconsciência.”; “A cicatriz te deu um álibi, uma espécie de salvo-conduto, uma indulgência plenária para se eximir da vida, para não responder pelos teus atos. Achou que escaparia?”. Releia cada uma dessas frases e conclua do que trata o livro.

Ler Caim requer um esforço, requer persistência, é um desafio, também alertado na orelha do livro. Topado a missão, além do paralelo, Caim lhe fará olhar de fato para as cicatrizes de sua família e isso já é recompensa suficiente. Não sei o quanto das células importantes ainda estão vivas, quanto mais, melhor. Maior é a capacidade de acerto de contas, vá lá, acerto de contas é forte demais. Mas com algumas aparas ajustadas é possível qualquer ser humano encarar suas cicatrizes, se orgulhar de suas marcas, estar mais em paz consigo, assim, é muito mais fácil se relacionar com os outros.

Caim
Sagrados laços frouxos
Record, 141 págs

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