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Mas aqueles autores não abriram simplesmente uma janela. Nos emprestaram para sempre uns óculos para reconhecer realidades diante das quais seríamos míopes ou teríamos algum tipo de astigmatismo.
Affonso Romano de Sant´Anna
Quem já acompanha a produção de Affonso Romano de Sant´Anna tem uma oportunidade de vê-lo mais uma vez sendo indispensável.
Quem não conhece, tem nesse novo livro uma porta de entrada privilegiada. Não irá apenas deglutir histórias e informações interessantes e úteis, incorporará um estilo claro e não empolado de falar com profundidade e conteúdo.
Se quisesse poderia apenas citar frases tiradas das histórias, já seriam uma excelente amostra do todo, mas Affonso merece mais. Tive o orgulho de editar um livro onde ele foi um dos respondentes, já mergulhei em obras suas, ainda faltam muitas. Uma vez ouvindo uma entrevista sua no rádio caiu minha ficha sobre a relação com o meu pai e com o meu filho: “Só se aprende a ser filho quando se é pai, só se aprende a ser pai, quando se é avô.” Você pode discordar. Um conselho, se esforce, mas capitule.
Creio que se focar em três grandes assuntos a coluna já vale. O primeiro é extraído dos capítulos A Cegueira e o Saber. São seis e lá fica explícito que as pessoas que falam alto têm dificuldade em ver. Agora você já consegue entender aqueles interlocutores que quase gritam, parece que querem atingir o escritório todo, entenda-os, eles não conseguem enxergar direito… Mas cuidado, lá também se aprende que ver é uma ousadia. Fazer falar o que se viu ou desmistificar a cegueira alheia, é ousadia dupla, se for o seu superior, todo cuidado é pouco! Mas mais cuidado ainda é necessário: com medo da opinião dos outros, deixa-se de ver, ou seja, para não receber críticas, as pessoas deixam de criticar, pacto de mediocridade.
Para exemplificar melhor isso vamos de Andersen e a velha história do rei está nu! Se não fosse uma criança, ninguém teria coragem de desdizer os dois espertalhões que teceram uma “roupa maravilhosa” somente capaz de ser vista por pessoas especiais, quem não as visse não seria inteligente e digno de ocupar cargos de confiança. Quem será você no escritório amanhã, a inocente criança ou o político em busca de manutenção da posição e da contínua ascensão?
Outro bloco muito ilustrativo é sobre Maurício Haritoff, um nobre que perdeu tudo e descobriu algumas coisinhas sobre a vida. São também seis histórias. “Mas se Regina amanhã fosse muito rica, ela não só se transformaria em branca da noite para o dia, mas haveria pessoas que afirmariam ser eu o mulato”. Regina é a filha de escrava com quem se casou. Numa conversa com um amigo outro questionamento: “Que devo eu a esta sociedade de quem tanto falas? Que fez ela por mim? Enquanto fui rico e tive uma bela casa, ela me adulou, procurou e cumulou de atenções - e no dia em que me tornei pobre só o pontapé de um asno.(…)”
O último e a interpretação de Alberto Moravia para o embate entre Ulisses e Circe. Não há poção mágica que consiga transformar em porco quem não quer ser transformado, como diz Affonso, para quem tem vocação a pocilga, basta uma chance… Aí nos resta a constatação do autor sobre pensar: “No princípio pode dar dor de cabeça, mas depois é um alívio só!”
A Cegueira e o Saber
Affonso Romano de Sant´Anna
Rocco, 310 págs
