ARTIGOS DO EDITOR

Limão ou pêssego?

O livro de Tim Harford deve ter sido inspirado no sucesso do Freaknomics, é sem dúvida uma tentativa de falar sobre economia numa linguagem leiga e bem-humorada, e com relação a humor, não se pode esquecer que o autor é britânico, então, temos muito de um humor britânico, em alguns momentos não tão óbvio para brasileiros, pode demorar, mas as fichas caem.

O título desse artigo é ilustrativo dos esforços do autor, diz respeito ao exemplo didático para descrever o conceito de informação assimétrica. Ou seja, nos casos de carros usados ou apólices de seguros, as duas pontas não têm efetivamente conhecimento da outra, sabem apenas a respeito das suas condições. O vendedor de um carro usado sabe o real estado dele, o comprador não. O contratante de um seguro de saúde sabe de seu histórico familiar, a seguradora não. Ou seja, um lado sabe se se trata de um limão ou de um pêssego, o outro precisa encontrar uma fórmula para precificar o produto. O resultado nem sempre é perfeito, mas as alternativas que são tentadas são bem demonstradas pelo autor não só nesses setores como em outros.

Outros aspectos interessantes do que está por trás de várias situações práticas de nossas vidas são traduzidos de forma e linguagem acessível, conceitos são assimilados, questionamentos e conexões novas aparecem. Um leitor comum pode passar a ir a um supermercado, a um café com outros olhos, entender o que se passa do outro lado do balcão. Já um profissional pode utilizar o livro para avaliar o posicionamento de seu produto ou negócio, os dois podem ter uma melhor consciência macroeconômica. Ou seja, todos podem palpitar mais e melhor no cenário econômico, é lógico que nenhum economista entrega tudo de mão beijada, resta sempre um corporativismo, uma defesa de classe. Harford assume a antiga definição de Oscar Wilde para um cínico, como a atual para um economista: alguém que sabre o preço de tudo e o valor de nada. Mas é inegável que economia é algo complexo, onde matizes ideológicas se confrontam com resultados práticos, esse livro tenta mostrar que no fundo, economia é algo que diz respeito apenas às escolhas individuais, por mais elaborados que sejam os sistemas, eles representam as escolhas de pessoas em relação às suas vidas, mais dia ou menos dia, habitantes dos mais diversos países, acabam tendo uma oportunidade de escolher. Há ditaduras e países pobres para contradizer o autor, mas ele insiste que tem uma visão geral.

A história dos leilões e a sua decorrência da teoria dos jogos faz as pessoas reverem processos de privatização em vários países e deixa claro que quando se trata de uma base tão sofisticada, não é tão simples unir técnicos e políticos, nem sempre os objetivos e ideais são perceptíveis para a coletividade. Há também o caso do analista que previu o crash da bolha da internet. Fez isso antes e de maneira isolada, ganhou o que com isso já que todos os outros que estavam errados erraram em conjunto? Uma demissão, conselho do autor: o mais seguro é caminhar com a manada. Para mim, uma observação verdadeira, mas o momento mais baixo do livro, tomará que nem todos os leitores sigam o conselho, que alguns insistam em criar e não se contentar com o rastro dos que lhe antecederam, a humanidade clama!

O terço final do livro é bastante útil para brasileiros preocupados em entender as opções que restam a esse país. Pobreza x Riqueza. República dos Camarões x República Popular da China.

Uma advertência das mais sérias para nós. A descrição do aeroporto de Duala em muitos momentos se assemelham ao que vemos nos nossos aeroportos ultimamente. A corrupção é o grande mal da pobreza de Camarões. Não seria ela ainda uma grande questão no Brasil de hoje? Não seria ela o que ainda impede a solução em vários setores? O autor sabe que ela existe na China, mas ele celebra o pacto que a China fez com o mundo, dá sua visão sobre os benefícios da ação de Deng Xiaoping após os travamentos que a ação de Mao Tse Tung causou. Em 1978, a economia da China era menor do que a da Bélgica, os reformistas acreditavam que uma abertura para uma economia mundial poderia ser valiosa, que haveriam três vantagens: a China seria competitiva em setores intensivos em mão-de-obra, como brinquedos, calçados e vestuário; a receita gerada pelas exportações, em moeda forte, poderia ser usada para adquirir matérias-primas e tecnologia; e ao convidar investidores estrangeiros, a China poderia eliminar o déficit de gestão decorrente da economia de comando.

Isso pode não ser a solução total dos problemas da China, mas quem já esteve lá nos últimos anos é capaz de descrever o que é ter a sensação de uma economia pulsando nas ruas, algo muito distante e diferente do espetáculo do crescimento a que ainda parecemos estar condenamos. Mais Xangai e menos Duala, governo federal!

O economista clandestino
Tim Harford, Editora Record
336 pgs.

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