ARTIGOS DO EDITOR
Mais uma na lista?
Um velho professor de literatura que tem seu potencial de sedução catalizado por aparições na televisão e no rádio falando sobre livros e cultura nem precisaria se preocupar com o seu poder de atrair mulheres. David Kepesh, um esteta por convicção e alguém determinado a levar uma vida verdadeira e livre, infalivelmente sucumbe à uma de suas alunas na festa de encerramento do curso promovida ano após ano em seu apartamento.
São finais de noite de enorme prazer e diversão quase sempre repetidos a um reencontro ou a conveniência, quase nunca como comprovação de um envolvimento maior. Mas, acho que você já sabe leitor, cuidado ao se envolver com pessoas, nunca se está no controle absoluto. E nesse caso não era para estar mesmo, é seguir a pena de Philip Roth, um dos principais escritores americanos de todos os tempos, um dos grandes, que em Animal agonizante (Companhia das Letras, 128 págs), descreve as reflexões e inquietudes desse velho professor ao se enlaçar com alguém quase 40 anos mais nova, vinda de uma cultura muito diferente, ao encarar e descrever o seu envelhecimento e a proximidade da morte, dos amigos, das mulheres e sua própria.
Roth aprofunda um pouco mais porque esses encontros se repetem, desmistifica a questão do homem se sentir garotão, deixemo-no explicar: “… a distância que separa você da juventude fica mais evidente do que nunca. Na energia dela, no seu entusiasmo, sua ignorância juvenil, sua sapiência juvenil, a diferença é enfatizada a cada momento. Você nunca tem a menor dúvida de quem tem vinte e quatro anos é ela. Se você se sentisse jovem, seria fácil. Mas, longe de se sentir jovem, o que você sente é o contraste doloroso entre o futuro ilimitado dela e os limites do seu futuro, você sente mais até do que já costuma sentir a dor da perda de todos os seus dons que já foram embora. É como jogar beisebol com um grupo de rapazes de vinte e poucos anos. Você não se sente jovem por estar jogando com eles. Você nota a diferença a cada segundo do jogo. Mas pelo menos você não está sentado, de fora, assistindo.”
As histórias que vêem a mente do personagem quase só servem para alimentar a insegurança da perda. Ele sabe que alguém um dia vai levá-la mas não consegue evitar. Discute com um amigo a inevitabilidade da entrega, relata o quanto se distanciou do filho ao abandonar a mulher e como as relações podem ser armadilhas intransponíveis. Seu filho resolveu ficar preso ao casamento porque o pai fugira do seu. O pai via-o agora transformar sua vida num protesto contra a dele, e distante acompanhava a reaproximação do filho, incapaz de perdoar a traição do pai, inseguro em por um fim ao seu casamento, inábil em evitar também seus escorregões, “mas sempre de posse daquele instinto filial que nos leva a achar que o pai é o responsável por todas as nossas limitações”.
Consuela, a jovem, era acima de tudo a aceitação de que a liberdade outrora tão defendida já não significava tanto. Assim ele apesar dos sentimentos contraditórios dispunha-se a trocar a liberdade pelo amor, mas quem ira aprová-lo? Ai surge a vida com sua imprevisibilidade a insinuar uma mudança de destino, um ritmo mais forte no improvável a unir novamente o que já se tinha separado. David vê Consuela encarar a decadência estética e a ameaça, apegar-se as suas raízes, a questionar a realização com o abandono de sua essência, teria valido chamar seu pai de dad apenas para se sentir mais americana se o papi espanhol o deixava tão mais feliz? Consuela se agarra ao vivido com David, assustada com o que pode vir ou não vir pela frente e Roth nos mostra que na sua literatura as fortes emoções são mais próximas à vida do que ao ideal hollywoodiano.
