ARTIGOS DO EDITOR
Tem-se sido
A promessa é surpreender o leitor, não é assustar, eletrizar. Se assim, promessa cumprida. João Gilberto Noll trás consigo uma prosa adulta, madura, leva o leitor para cantos desconhecidos, discute assuntos cotidianos e apresenta desfechos pouco usuais, não cede às tentações dos lugares comuns ou então do escrever para se destacar e assim se destaca.
Apesar disso, ao ler seu último livro de contos acabei com uma sensação de frustração. Corre o risco de cair na vala do comum mesmo sem se-lo. Falta algo, falta um tom a mais, empurrar o leitor para o seu ponto de vista, muito fica no subtexto, depende de extrema concentração. Um pouco mais de explicitude não faria mal. São 24 contos onde o autor assume várias facetas, encarna distintas personalidades que chegam ao leitor nas mais variadas escalas.
Tal qual o cego de um deles, a vida exige que se faça exercícios diários para rememorar sua história. Quem não se sente tentado a fugir? A conveniência do julgamento e da preservação é um inimigo dos mais fortes a corromper a consciência humana. Valores são adaptados ou relaxados, pesos e medidas relativizados, tudo para ser aceito pelos outros, na verdade para não chocar aqueles de quem se precisa a aprovação, mas no fundo, quem mais se precisa enganar é o proprietário da imagem que aparece refletida quando olha-se no espelho, e aí, como outro personagem de um conto, estar mais ou menos próximo do conteúdo genuíno pode ser a diferença entre uma vida que se expandiu e outra que foi se perdendo.
O funcionário da embaixada do conto A máquina de ser arrisca no desconhecido, parte em busca do desbravamento de uma cultura nova e se admira com a celebração de um grupo num restaurante. Ao conhecer o externo passa também a mergulhar no interno, o que está fora é muito mais fácil de ser percebido, mas para ser compreendido completamente só aos que se permitem a coragem de mergulhar fundo, resgatar sua história, aceitar suas fraquezas e ter a coragem de não parar. O sofrimento vem e é inevitável. Quantas vezes não é necessário ir longe, não é preciso ficar isolado, ou melhor, incompreendido para entrar em sintonia interior? Por que nas diferenças de uma viagem é que se valoriza o que sempre se teve acesso? Cada um deve ter a sua resposta…
Aliás, como na frase acima, o livro de João Gilberto Noll está cheio de reticências, dos 24 contos, 13 deixam essa insinuação ao leitor no seu final, ou seja, você terá mais responsabilidades, no mínimo, uma outra possibilidade de interpretação, uma nõ certeza. Pense nas pessoas com quem convive, é só no conto que alguém prefere utilizar a escada para fugir de seus vizinhos no elevador?
Mas a esse mesmo personagem, se falta disposição para encarar os vizinhos, há a felicidade da resposta ao sorriso infantil. Nada contra a pureza das crianças, apenas a ressalva de que com elas tudo é mais fácil, menos complexo. Como diria Michel de Houllebecq, o homem gosta de conviver com cachorros porque esses exigem pouco, é fácil fazê-los felizes, tem um ego limitado. As crianças, apesar do seu ego enorme, pedem muito pouco se comparadas ao humano adulto, esse sim, animal complexo de quem muitos fogem!
A máquina de ser
João Gilberto Noll, Nova Fronteira, 156 págs.
