ARTIGOS DO EDITOR

Mude sem sair!

John Wood é um daqueles americanos que nasceu classe média, teve uma boa educação, MBA de primeira linha, carreira na Microsoft. Lá, isso é suficiente para alcançar uma independência financeira aos 30 e tantos anos. Não, Wood não tinha uma super-ambição de ser um multimilionário e se viu tocado pela realidade e pobreza do Nepal, a ponto responder sim para aquelas perguntas que fazemos a nós mesmos: está na hora de parar?

Abandonou Gates e principalmente os gritos de Steve Ballmer, você já deve ter visto um videozinho no YouTube, para se dedicar a construção de escola e bibliotecas em países carentes da Ásia. A Room to Read já construiu desde o ano de 2000, 3.600 bibliotecas e auxilia mais de 1 milhão de crianças. É um impacto grande, um trabalho e dedicação notáveis e bem relatados no livro. O tom é americano, para mim, quase garantia de um puritanismo, um bom mocismo, um politicamente correto. No livro e na história de Wood isso não atrapalha, os resultados são palpáveis, os méritos de Wood, reconhecidos pelas principais publicações mundo afora e são inúmeras as fundações de peso que se aliam ao projeto. Poucos são aqueles que abandonam uma trajetória de sucesso e milionária para cuidar e se preocupar com crianças carentes e sem condições. Poucos admitem que tiveram sorte de nascer no lugar correto, que a competição para os menos privilegiados está distante de ser possível, imagine justa.

Wood enxerga tudo isso e faz a sua parte. Dedica todo o tempo para angariar fundos e administra a pressão de ver conta bancária diminuir. Não discordo disso, quantos mais John Woods existirem no mundo, mais pessoas carentes terão possibilidade de terem necessidades mínimas atendidas, mas gostaria de utilizar esse livro para levantar um outro ângulo, assumindo o risco de ser mal interpretado.

Se numa economia rica temos um John Wood, por aqui temos várias pessoas e empresas estimulando o voluntariado, investindo em responsabilidade social, aumentando a filantropia. Resolve? Se está efetivamente olhando para as causas dessa enorme disparidade entre pessoas de origem e raças diferentes? É um sentimento legítimo ou uma ação derivada daquela culpa que insiste em castigar alguns? Aceito que nessas circunstâncias os resultados tendem a ser positivos, mas não se pode fugir, que são apenas remédios, em casos extremos, placebos de consciências pesadas, insuficientes para resolver de vez as questões, para promover a autonomia de um batalhão de pessoas sem condições dignas de vida e autonomia de raciocínio.

Insisto, não quero desestimular essas ações, nas condições atuais elas são necessárias, mas longe de serem suficientes, é essa verdade que não podemos esconder. Por isso gostaria de cutucar você a refletir se é possível mudar o mundo daí, de dentro de sua empresa. Se mais eficaz do que utilizar trabalho voluntário ou mesmo verbas corporativas para uma “destinação nobre” não seria reformatar a atuação da empresa, os valores e os parâmetros reais praticados?

Uma doação de dinheiro ou de tempo é capaz de contrabalançar uma agressividade excessiva? Uma utilização de recursos não publicáveis? Sonegação, ops, planejamento tributário? Uma disputa (des)leal pelo poder? Quanto mais próximo do topo de uma organização mais fácil é de entender o verdadeiro trade-off que aquela empresa faz. É possível se buscar parâmetros capitalistas competitivos e ainda assim não contribuir para uma degradação do mundo e da espécie, mas essa não parece a tônica do nosso estágio atual e é tarefa das mais desafiadoras. O lucro é inevitável, condição imprescindível para a existência, mas erramos a mão no consumismo, e a disputa pelo cartão de crédito dos consumidores é insana e vazia, a necessidade da escala e da eficiência apertam o gatilho em direção ao próprio pé.

Nós humanos perdemos a noção do que é imprescindível, continuamos pedalando porque preferimos acreditar que somos obrigados, precisamos nos proteger de todas essas diferenças, nos distanciar para não ter que explicar, tentamos fugir, mas cuidado com os vestígios de espelho e consciência que insistem em perdurar.

Se não tiver coragem e energia para tentar mudar as coisas na empresa, compense no trabalho social, é bem melhor do que fingir que é autista. Se você for mulher, descubra no livro de Wood o quanto custa abrir um novo horizonte para uma jovem por meio da educação e pense duas vezes antes de gastar o equivalente há uma bolsa de estudo de um ano em algumas horas num desses salões de cabeleireiro que tentam maquiar e tingir muito mais do que rostos e cabelos…

Saí da Microsoft para mudar o mundo

John Wood, Editora Sextante
240 págs.

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