ARTIGOS DO EDITOR
O mal vem da raiz!
Ninguém te vai fazer o ninho, a única pessoa que fez e continuaria a fazer o ninho é a tua mãe…
Quando tudo for evidente, nenhum dos teus colegas hesitará, um momento que seja, em começar a segredar as fraquezas da sua existência e a inventar outras coisas que não ocorreram.
Gonçalo Tavares é daquelas pessoas irritantes, daqueles que te deixam morto de inveja. Como pode alguém com menos de 40 escrever tão bem e como gente grande, e tanto? É daqueles que desmente a regra de muitos livros publicados em pouco tempo é sinal de superficialidade, de baixa qualidade de produção. Esse autor da nova geração portuguesa desmente tudo, faz prosa e poesia de altíssima qualidade e vai fundo, fundo na alma humana.
Jerusalém vai sendo amarrado aos poucos, personagens vão sendo apresentados como uma colcha de retalhos e isso é elogio, dos grandes. No final fica claro na mente do leitor quem era quem, o que estava por trás de cada um, qual era a questão dos personagens e como eles se cruzam quase todos num único dia, vindos de mundos e universos distantes, mas sempre com um ponto de conexão, exatamente como é a vida, por mais que alguns insistam em não perceber, por alienação, por ignorância, por medo ou simplesmente por maldade.
Como pano de fundo da história há a loucura e o horror, é a primeira a causa deste? A sanidade resgataria a história de suas partes mais negras? Theodor, um dos protagonistas, carrega o peso de uma herança intelectual e resolve tentar a identidade própria mergulhando na crueldade do ser humano e conclui que são as forças do mal que fazem a humanidade crescer, só elas colocam a espécie em evolução. Os atos bons tem impacto reduzido. Outra provocação de Theodor que permite que mergulhemos numa análise nada superficial é sobre a natureza da dor no individual. Existe a dor boa e a dor má, a boa é por exemplo a da fome, a de certificar que estamos vivos, já a dor má é implacável, mata.
Acaba-se o livro e vem o questionamento de por que a espécie se entrega tanto ao dilaceramento, que tamanho poder têm alguns de envolver muitos outros, levando a morte e a barbárie por questões que tocam pouco no interior do indivíduo? Haja manipulação, haja alienação, haja egoísmo, haja irresponsabilidade, haja auto-indulgência! Quantos pesos? Quantas medidas?
Já que descambei para a batalha interior, Gonçalo Tavares não poupa seu leitor ao lembrar que encontros com o passado sempre refrescam a memória de conquistas incompletas. Quantas vezes uma pessoa é apenas o portador de sentimentos e emoções que estavam reprimidas, consciente ou inconscientemente, e ao se postar a sua frente, destampa um cano com ligação direta a uma outra fase, a um outro você? Isso sem nem sequer pedir licença, sem avisar. Tá bom, pode até fazer uma conexão com uma lembrança positiva gostosa, mas ainda sim, te desvia do rumo atual, serve como passatempo, distração. Cabe ao protagonista a tarefa de encaixar o passado como história, relevar a sua extensão, filtrar o positivo do negativo, negar ou assumir. São essas escolhas que formam o que se convenciona chamar de sanidade, esse mais um daqueles conceitos difíceis de definir, passíveis de manipulação e de uma guerra de poder, sempre é mais fácil ver no outro a não normalidade. O que acontece conosco é normal, vem de dentro. Está instalada a confusão!
As epígrafes extraídas do texto confirmam que não se está tão acompanhado assim, que a vida, é antes de mais nada uma experiência consigo mesmo.
Jerusalém
Gonçalo Tavares
Companhia das Letras, 228 págs
