ARTIGOS DO EDITOR

O mergulho e as bóias.

Existem aqueles que deixam os outros em paz e aqueles que perturbam e irritam, categoria à qual pertenço.

Essa frase de Thomas Bernhard fui crucial para o meu interesse pela sua obra. Como ele, acredito que não se ganha a vida para ser morno. Comprei o livro, me assustei, não só pelas mais de 400 páginas, mas pelo simples fato de que o estilo do autor é um único parágrafo do início ao fim. Iria requerer disciplina, o tempo estava escasso, e veio um novo livro. Com pouco mais de 100 páginas e uma questão bastante desafiadora, O Náufrago mostra que uma existência pode ser sempre decadente. Vale o mergulho.

Dos três personagens principais, o mais lúcido é o narrador. Ele, como os dois amigos, é um pianista excepcional e promissor, ao se encontrarem num conservatório para aperfeiçoamento, têm seus destinos alterados. Os palcos, gravações, aplausos e glória, couberam apenas à Glen Gould, mais excepcional do que os dois, obrigados a abandonarem a carreira. Eram ótimos, o outro, genial. Torça você para não cruzar com um gênio em seu caminho, não importa a área, só lhe restará à sombra, se você é exigente, como os personagens, a deserção. Depois da leitura corri comprar As variações Goldberg, de JS Bach, executadas por Gould, o maior pianista do século XX. É, Bernhard mistura ficção e realidade. Não achei, encomendei, deixo como dica.

Foi Gould quem apelidou Wertheimer de náufrago, logo num dos primeiros encontros e talvez por premonição, talvez por profecia auto-realizada a vida deste foi aos trancos e barrancos até ser definitivamente finalizada por seu principal protagonista. O narrador, há tempos já havia desistido do piano, doou o instrumento, e cumpre o papel de dirigir o leitor a reflexões bastante interessantes. Uma das minhas preferidas: professores ou treinadores auxiliam seus pupilos ou apenas descarregam toda a frustração de não terem recebido os aplausos das platéias que poderiam ter sido deles?

No mundo corporativo, quem seriam os professores e técnicos? Resposta mais óbvia: consultores. Somente eles? Não. Há também os eternos gerentes, os diretores vitalícios e os presidentes que ninguém consegue explicar como chegaram lá. Percebem que não realizam mais, que talvez nunca realizaram mas jogam o jogo, ocupam posições e ai de quem está abaixo deles, a esses, a única saída é de fato a porta da rua. Muitos mesmo assim preferem se acomodar e co-assinar um pacto de mediocridade, tão comum nas empresas.

Outra das reflexões: “O náufrago já nasceu náufrago, foi desde sempre o náufrago, e se somos precisos na contemplação do mundo à nossa volta, constatamos que esse mundo se compõe quase exclusivamente de tais náufragos…” Tendo a concordar, e, não ser incluído nesse grupo, é uma das minhas maiores motivações de vida, o que me move, o que me faz me expor além do recomendável, não me importar em perturbar como sugere a epígrafe, mesmo se em grande parte dos casos não percebo um retorno. Não aceito me acomodar, eu não caberia em mim se me acomodasse! Ler Thomas Bernhard é nadar com força num oceano de tantos náufragos…

O Náufrago
Companhia das Letras, 140 páginas.

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