ARTIGOS DO EDITOR
Sozinho, onde?
Existem momentos em que podemos erguer “torres de razões e conceitos”, e outros em que é necessário saber cavar “minas e galerias internas”.
Octávio Paz
Essa citação é uma das inúmeras contidas no texto do sociólogo e filósofo Michel Maffesoli que podem servir de importante ponto de reflexão para um executivo ou empresário. Tirada de seu contexto, ela não é uma excelente indagação sobre tomada de decisão? Não é isso que se deve considerar ao se decidir os rumos de sua empresa ou departamento? Quando se basear na teoria do entorno, quando mergulhar nas armadilhas da intuição? Não é esse um dos seus maiores dilemas?
O ritmo da vida não é leitura habitual de uma biblioteca de negócios, contém algumas das repetições típicas desses livros mas numa linguagem menos clara e óbvia, o autor não tem nenhuma intenção de ser um guru de negócios, de dar palestras e consultorias em empresas, a vaidade dele é outra, até mais ambiciosa, pretende entender a humanidade, contribuir para o seu desenvolvimento intelectual, ser um intelectual contemporâneo, livre das amarras que aponta nos outros, desafio não pequeno.
Vale a leitura? É claro que vale, primeiro como exercício do pouco habitual do entendimento que a vida, desculpe o trocadilho, tem um outro ritmo, não é apenas as pretensas decisões racionais e resultantes de planilhas que se faz crer no topo das hierarquias. Mas o principal motivo para se ler Maffesoli é estar preparado para o salto no pós-moderno e uma discussão íntima do individualismo, para o autor cada vez mais se tem menos espaço para o individualismo. Para ele a razão e mais ainda o indivíduo único e isolado foram enganos da modernidade.
Etéreo demais? Vou ser mais claro, para Maffesoli o indivíduo nada mais é do que uma relação, uma interação com um outro, com o mundo, nada se é isoladamente. Aqui uma mea-culpa, ainda luto para aceitar essa minha dependência maior do outro, a ponto de não assumir minha total dependência dos que me cercam, sozinho não consigo mover muita coisa. É difícil aceitar, mas dê-me esse crédito, vá até o final. É sempre mais fácil analisar o outro, portanto, esqueça o seu caso por alguns instantes. Você conhece altos executivos, muitíssimo bem-sucedidos que tem um discurso alinhado com as melhores práticas, irreparável do ponto de vista do politicamente correto americano, mas no íntimo, no mais profundo íntimo uma legítima rapunzel ainda não salva? Se ainda assim é difícil concordar, esqueça a sua empresa, foque na empresa do amigo com quem teve uma happy hour, lá não existe ninguém assim?
Essa é uma questão das mais delicadas e importantes. O equilíbrio entre a força interna e pessoal necessária para a liderança e a humildade de ir além de todos os rituais que cercam o poder e o fazem acreditar ser mais do que se é, simplesmente porque a maioria dos humanos tem medo de perder o que alcançou e prefere praticar uma política de preservação do que partir para a conquista de novos territórios, diante do risco, a segurança do elogio, diante da coragem da posição pessoal, o conforto da ratificação da opinião superior. Mas para quem está em condições de entender e abrir mão dos puxa-sacos, o livro serve como ressalva. São eles, sim, também os puxa-sacos os formadores da sua individualidade, por isso, atenção, escolha bem sua equipe, pois ela está determinando quem você é.
Fazer esse questionamento já terá valido a leitura, terá feito bem às empresas e seus funcionários, mas o livro de Maffesoli também tem uma utilidade conceitual, ele explica alguns dos fenômenos que estão dirigindo os mercados. Lê-lo é aprofundar os conceitos de ponta que a agência apresenta, infelizmente muitas vezes tendo apenas ouvido o galo cantar sem nem saber aonde. Uma palavra aparece bastante:tribo. É uma volta às tribos e outro enorme mérito de Maffesoli é olhar para o espectro do mundo com um mínimo de preconceito, ele mistura religião e raves e vê o que de comum têm esses dois encontros. Passa pelo bordel, pelos reality shows, as residências de elite e dos intelectuais e tenta juntar tudo como expressão de um tempo. Se chegamos até isso foi decorrência dessa interdependência. Para o autor o pós-moderno tentar religar-se com muitos conceitos que foram contestados pela modernidade. O mundo de hoje tentar abarcar evoluções tecnológicas e aberturas decorrentes retomando conceitos místicos e existenciais. Maffesoli aceita a volta de uma aventura existencial e vê numa Copa do Mundo uma releitura do espetáculo circense de antigamente, vê nos ídolos da música e os gurus, substitutos para heróis de guerra e de instituições mais formais. Em todos esses momentos reforça a necessidade de referência no outro, de religação.
O ritmo da vida
Michel Maffesoli, Record, 224 págs.
