ARTIGOS DO EDITOR

Pai, uma marca para sempre

Naturalmente, avançar é uma infidelidade - para com os outros, o passado, as antigas idéias que cada um faz de si. Quem sabe um dia não devesse conter pelo menos uma infidelidade essencial ou uma traição necessária.
Hanif Kureishi

Esta frase na abertura do livro de Michel Laub me levou ao novo livro de Hanif Kureishi. Os dois livros falam da relação entre pais e filhos, entre irmãos. Contextos absolutamente diferentes, porém complementares, seja o interessado pai, filho, irmão, ou apenas um humano curioso.

O livro de Michel é ficção, o de Kureishi não. No de Michel os irmãos são amigos, o mais velho “salva” o mais novo, no de Kureishi ele mesmo descobre como seu pai odiava o seu tio, como a inveja era algo difícil entre esses irmãos paquistaneses. Nos dos dois a comunicação entre pais e filhos não era algo muito concreto. No primeiro o pai parte na tentativa de construir uma nova vida, no segundo o pai persiste a vida toda em busca de sua vocação e a empurra para o filho.

Os dois são livros com uma presença feminina discreta, mulheres não muito fortes, mais para vítimas e passivas. O pai de Kureishi nunca perdoou a sua mãe por tamanha inclinação religiosa, não suportava perder para um deus, qualquer que fosse, cristão ou muçulmano.

Nos dois livros há um questionamento sobre o que é família, sobre sua extensão, seus conflitos internos e os papeis de seus membros.

Num o pano de fundo é um jogo de futebol e o passar do tempo não é tão elástico. O irmão mais velho se debate em como mostrar para o menor o que se passa na família e depois, se vendo obrigado a aceitar um papel que não estava nos seus planos, permanece mais um pouco como alicerce de uma estrutura que se rompe. No final parte para São Paulo e se afasta.

Já no outro o esporte é o críquete, o horizonte de tempo são quase 3 gerações e a mudança é de país, de cultura. Por ser um ensaio trás alguns questionamentos mais diretos. Existe de fato a sinuca dos pais? Ou seja, os filhos devem seguir o plano dos pais, sem fracassar nem ser bem-sucedidos? O livro de Kureishi vai fundo nessas questões e mostra como a inveja e competição existe não só entre irmãos, mas também entre pais e filhos. Ele considera a pior traição para um pai aquela do filho se unir ao tio que era o oposto do pai, seu concorrente direto.

A leitura de O Segundo Tempo é bastante fluida, me deixou com uma expressão muito forte: aleijado moral. O conceito é usado para discutir o que fazer quando os pais ficam velhos e doentes. Você já enfrentou essa situação? Discute também o que de realmente importante é dito entre irmãos. Quase liguei para o meu e propus um papo, estamos condenados a compartilhar apenas o sobrenome e a indiferença como no caso dos personagens?

Na história de Kureishi fica a insistência do pai em escrever e ser publicado para que o filho não visse sua derrota e o questionamento em saber que papel representamos na vida de nosso pai. Já está na hora de encarar que um filho é mais complexo do que simplesmente a alegria e o aprendizado de ter um herdeiro. Dois livros, dois gêneros, duas abordagens distintas e duas maneiras de se reenquadrar mais consciente e plenamente nos papeis masculinos dessa vida.

O Segundo Tempo
Michel Laub
Companhia das Letras, 112 págs

No Colo do Pai
Hanif Kureishi
Companhia das Letras, 205 págs

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