ARTIGOS DO EDITOR
Parar ou continuar, eis a questão
Se a nossa glote humana não tivesse se deslocado para o atual lugar e possibilitado a emissão de uma linguagem articulada não estaríamos aqui discutindo conceitos e possibilidades. É, essa mutação possibilitou expandir muito mais do que parece num primeiro momento a espécie humana, espécie mais complexa do que se chama planeta Terra.
É um pouco dessa complexidade do planeta e de seu habitante mais intricado que o imortal Hélio Jaguaribe aborda em seu livro. Ao me deparar com o livro logo fiz uma conexão com essa coluna, nesse jornal de negócios. Você que está lendo corre um enorme risco de focar tanto nas metas e objetivos da empresa, nas pressões dos superiores e em como destruir o concorrente e esquecer o todo do mundo e da espécie. Estes estão cada vez mais carentes de sua atenção e dedicação, é olhar para o agora, ganhar consciência do momento para não inviabilizar completamente a vida na Terra, daí de nada adianta todo o patrimônio acumulado, nem o aeroporto vai funcionar como solução. O posto do homem no cosmos ajuda a redistribuir as importâncias.
Mas para isso é preciso dedicação. A edição tem alguns descuidos de datas e de formatação. Uma edição mais profunda poderia ter sido feita, mas o panorama geral não se inviabiliza. Confesso uma enorme dificuldade na descrição dos conceitos de cosmos, talvez seja minha deficiência científica, mas acredito que o autor não conseguiu efetivamente ser claro. Aliás, é nítido o crescimento do autor nas conclusões e exposições finais, Jaguaribe se sai melhor opinando e construindo seus conceitos do que ao descrever toda a evolução do pensamento humano.
Críticas à parte, o livro serve como um grande mosaico da experiência humana e do que se passou no planeta antes desses bípedes, descendentes dos Cro-Magnon, passarem a se multiplicar, a ocupar os espaços, se apossar dos recursos e iniciar uma disputa sem fim, suicida e sem fim.
Jaguaribe aceita que pontos importantes ainda precisam ser explicitados mas conclui que a vida não tem sentido, é um mero acaso na história do universo, aliás, muito mais longevo e duradouro do que a de nossa espécie. Dependendo de sua intensidade religiosa, a discordância pode ser total. Mas já não está na hora de conhecer profundamente os pontos dos adversários?
É impossível se discordar que se vive num momento de esgotamento cultural e desse paradigma consumista dominante. Para o autor esse esgotamento conduz a dois tipos de reação: 1. imitativa, consiste em reconhecer implicitamente o esgotamento da criatividade e buscar, apenas, reproduzir e imitar modelos considerados como excelentes; ou contrariamente, 2. desconstrutiva, consiste em violar deliberadamente o modelo, como o cubismo de Picasso e o atonalismo de Shöenberg, ou em denegar validade a todas as obras precedentes como Derrida e os pós-modernos. Que opção você e sua empresa estão a adotar?
Antes da resolução final, da sua auto-sentença sobre seu lugar no cosmos, não se esqueça de considerar os pontos que merecem a atenção de todos, atenção mesmo: a. risco ecológico, decorrente de uma irrecuperável degradação da biosfera a níveis incompatíveis com a vida humana; b. crescimento exagerado da população mundial, notadamente nos países subdesenvolvidos, gerando gravíssima crise de subsistência; c. risco de não se instituir uma adequada ordem mundial, gerando um opressivo império mundial ou, diversamente, a formação de uma competição de superpotências suscetível de conduzir a um suicídio nuclear; d. agravamento do desequilíbrio Norte-Sul e, no âmbito de muitos países, entre setores superafluentes e setores miseráveis, levando a fatais conflitos sociais; e e. risco de a sociedade de massas conduzir à perda de um nível minimamente satisfatório de racionalidade pública, que, já é vista em vários países. O que você vai fazer? Que posto te interessa?
O posto do homem no cosmos
Helio Jaguaribe
Paz e Terra, 364 págs.
