ARTIGOS DO EDITOR

Por que tudo, mas tudo mesmo, precisa mudar e mudará!

Biografias de empresários e homens de negócios costumam contar grandes feitos,
conquistas e revoluções. Quase todas reconhecem o valor das pessoas e a
importância delas em suas conquistas, pelo menos no discurso. Quase todas as
revoluções são contra concorrentes ou estágios tecnológicos. Esses livros quase
nunca trazem as guerrilhas, somente as guerras oficiais. Feltrinelli, Editor, Aristocrata
e Subversivo não se encaixa nessa categoria, aliás, como definir Giangiacomo
Feltrinelli?

Herdeiros bilionários que literalmente se transformam em guerrilheiros são aves
rara. Quem você conhece coloca em risco uma herança e o conforto recebido ou
adquirido? Adicione alguns bilhões, casarões e outras demonstrações de posse e
poder e comprometa pela luta por melhores condições de vida e igualdade para a
espécie humana. Romântico demais? Ficção? Nada disso, Giangiacomo Feltrinelli.

Descendente de uma das mais tradicionais famílias industriais italianas, com
negócios esparramados por madeira, tecidos, construção e transportes, é claro que
também tinha um banco para potencializar o rendimento de todos esses setores, o
jovem Feltrinelli transformou sua verdadeira ojeriza ao fascismo numa luta por algo
que lhe parecia mais justo: o socialismo. Não viveu até os 60 anos para alcançar o
equilíbrio que a idade promete…

Antigo membro do Partido Comunista Italiano foi se desiludindo com as questões
partidárias e as políticas soviéticas. Enamorou-se por Fidel Castro, a quem pagou
inclusive um adiantamento por uma futura biografia, e queria transformar seus país na
Cuba do Mediterrâneo. Encontrou nos livros um meio de contaminar a Itália com as
idéias e conceitos mais avançados. Se o setor editorial é complicado em qualquer
lugar do mundo, invista-se na cadeia toda. Monte editora, livrarias e distribuidoras.
Considere os aportes quase como uma missão de sua luta de vida e aí sim é possível
ter uma empresa sem as tradicionais pressões da realidade, fazendo apenas o que
gosta, o que acredita.

Giangiacomo largou todo esse poder e capacidade de influir, largou o conforto da
legalidade e lutou literalmente na clandestinidade, pegou em armas, financiou lutas.
Não estou aqui para defendê-lo, o tempo foi implacável com algumas das mais
profundas convicções ideológicas do ser humano. As minhas não só foram abaladas,
mas também reviram seus rumos, não a ponto de não reconhecer e valorizar a
coragem desse homem, a intensidade que escolheu botar em sua vida, isso eu invejo,
isso ainda luto para colocar na minha.

Talvez seja esse um dos dois grandes questionamentos residuais da leitura desse
livro. Que intensidade você está colocando na sua vida, na sua carreira? Quanta
coragem está a associar e a disponibilizar ao que acredita? Em que acredita? Luta por
algo? Impõe a necessária barreira dos valores e crenças pessoais?

O autor dessa biografia é Carlo Feltrinelli, filho de Giangiacomo, órfão no início da
adolescência sem poder optar se preferia o pai em casa, ou um mundo melhor lá fora.
As implicações de tamanha proximidade por um lado impõem um tom emocional,
quem não se sensibiliza com as cartas enviadas pelo pai foragido ao garoto? Por outro
não abrem espaço para questões pragmáticas. Quem administrava a fortuna enquanto
Giangiacomo estava na guerrilha? Quanto foi literalmente utilizado para financiar
empresas e ideologias? Qual foi o custo do sonho de um mundo melhor? O quanto a
vida pessoal, principalmente um filho eram capazes de se contrapor a causa?

Esse é o outro grande questionamento da leitura. Como fica a família? Como
compatibilizar desejos pessoais, ideologias com filhos e cônjuges? Eu não me arrisco,
a solução para esses dois questionamentos é complexa, pois como dizia Giangiacomo
Feltrinelli no título dessa coluna, tudo muda. Muda para mim, muda para você, muda
entre eu e você…

Feltrinelli
Conrad, 388 págs

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