ARTIGOS DO EDITOR

Proletários de todo o Brasil, uni-vos!

Seja por uma recaída intelectual, seja por recrudescimento ideológico, se você entrar no principal site de venda de livros no Brasil, a Livraria Cultura, em busca da obra máxima de Karl Marx, vai ter um certo trabalho para encontrá-la. Ao digitar O Capital, o site te mostra mais de 500 opções, a tradução do primeiro volume do companheiro Marx está no final da 2ª. página, antes o site te oferece 26 opções, muitas delas mais capitalistas, referentes a capital de giro e detalhes do dia-a-dia de finanças. A oitava opção é o livro que é abordado hoje. Faz parte de uma interessante coleção da Jorge Zahar, Livros que mudaram o mundo. Ali, autores consagrados biografam livros fundamentais para a evolução da humanidade.

Mas quem hoje ainda se interessa por ler Marx fora dos ambientes acadêmicos, onde infelizmente milhares de jovens insistem em xerocar as páginas dos desgastados exemplares das bibliotecas desabastecidas? Se você, como eu, estudou Marx na faculdade e se lembra de muito pouco de seus conceitos, não se assuste, você faz parte da maioria, mas existem dois tipos de maioria que não entenderam completamente as idéias de Marx. A que assume e a que não assume. Esta é muito pior, além de não assumir, ainda as encampam ideologicamente e saem por aí se declarando marxistas, de esquerda. Mas note bem, são a esquerda no poder, aqueles que ideologicamente defendem uma igualdade e pragmaticamente só a vêem possível depois de um certo aparelhamento, de um certo ganho de musculatura. A grande maioria se encanta com os luxos do sistema, caem diante do fetichismo da mercadoria, como diria o velho companheiro, “é a dominação da coisa sobre o homem”. Basta olhar para Brasília, para alguns que lá estão, e para alguns que por lá passaram, mas ainda, por lá operam.

Deixemos os falsos ideólogos de lado, Francis Wheen, o autor do livro mostra que Marx não pode e não deve ser visto como o profeta da derrocada do capitalismo, isso seria uma simplificação rasa, um erro que ele até cometeu, mas um erro menor diante de todo seu pensamento. Perfeccionista ao extremo, com elevadas pretensões literárias, Marx levou uma vida das mais espartanas enquanto se dedicava a produzir sua obra. Em 1852, chegou a afirmar que: “Há uma semana atingi o ponto aprazível que me impossibilita de sair porque meus casacos estão penhorados, e não mais posso comer carne pela falta de crédito”. Seu amigo Engels já tinha outra condição econômica e foi um suporte constante, chegando até a desviar dinheiro da empresa para enviar para o amigo brilhante, mas nada que pudesse mudar efetivamente as condições da família Marx, Karl também disse: “não creio que alguém jamais tenha escrito algo sobre ‘dinheiro’ com tão pouco dele a seu dispor.”

Os petistas brasileiros não foram os únicos a não ler, não entender e se proclamar seguidores de Marx, os revolucionários russos também o fizeram e assim o marxismo foi se tornando cada vez mais uma ideologia ampla, lá no início o próprio Marx se declarou então não-marxista, isso foi em 1870, em oposição às atitudes de socialistas franceses. Deixando a política mais ao lado, virando a direção ao empresariado, para que este deveria ler Marx? Tá bom, entendo que um ocupado homem de negócios não tenha tempo para a leitura fragmentada dos vários volumes de O Capital, ainda mais que a obra não se encontra por inteiro disponível aos leitores brasileiros, então fica aqui a sugestão desse pequeno livro como aperitivo, somente os que se envolverem muito, poderão fazer um aprofundamento em Marx e entender conceitos como mais-valia, exército de reserva, valor de uso, valor de troca, capital constante, capital variável. Essa biografia do livro já deixa claro o posicionamento de um Keynes diante das idéias de Marx, mostra também como Schumpeter, o economista do empreendedorismo, coloca a destruição criativa em paralelo às previsões de Marx. Para um empresário ou executivo, tomar contato com Marx é passar a ter consciência de algumas das ferramentas que utiliza no dia-a-dia dos negócios, é poder tomar partido se efetivamente suas ações estão contribuindo com o desenvolvimento do mundo e do sistema, ou se está como dizia Marx, atuando apenas como um coveiro do capitalismo. Aqui fica a minha provocação, é melhor com consciência, ou sem consciência?

O Capital de Marx, uma biografia
Francis Wheen
Jorge Zahar, 136 págs.

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