ARTIGOS DO EDITOR

Que bicho você é?

Aqueles que renunciam à liberdade em troca de promessas de segurança acabarão sem uma nem outra.” Essa é a última conclusão do posfácio do polêmico Christopher Hitchens sobre o livro de George Orwell. Última conclusão dele, primeira reflexão sua. No Brasil de hoje não é essa a troca que você está fazendo?

Idealizado em 1937 quando o autor, ao ver um pequeno garoto chicoteando um enorme cavalo a cada diminuição de velocidade, se deu conta do quanto o cavalo não tinha noção de sua força, A Revolução dos Bichos só foi escrito anos depois e ainda levou mais um tempo até ser publicado.

Orwell mostra como os animais de uma granja, cansados de serem explorados, resolvem se rebelar e implantam um “sistema de auto-gestão”, onde todos passam a ser iguais, proprietários dos frutos de seus esforços, não mais explorados por nenhum ser humano. O final você já deve saber, vem de lá a célebre “Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais do que outros”.

Escrito para combater o regime totalitário, resultante da Revolução Russa o livro correu sérios riscos de não ser publicado. Naquele momento, mesmo não concordando com o que se passava em terras soviéticas, ingleses e americanos tinham na União Soviética um importante aliado para a Segunda Guerra Mundial. Os mais otimistas podem imaginar que o combate ao nazismo era primordial, verdade, mas os mais moderados também enxergam uma tendência humana a compor de acordo com seus interesses, esquecendo ideologias em função da busca do “possível.”

Em alguns momentos da leitura corre-se o risco de levá-la apenas ao pé da letra, não são os melhores. Avance atento aos detalhes da transformação dos bichos e veja se algo muitas vezes parecido não se passa também na sua empresa, ou em qualquer espaço onde haja mais do que duas pessoas com algum tipo de interesse. Esse é o lugar perfeito para o chavão: o homem é um animal político. Como tal, é capaz de muito para chegar ao poder.

E você, que armas ou ferramentas utiliza para se aproximar do poder? Está preparado para isso? Como os porcos da Granja dos Bichos ainda não está imune a todo o deslumbramento que os acessórios que rodeiam os poderosos lhes impingem? Não é isso que acomete quem chega ao poder? Para ficar na esfera pública, não é disso que os ocupantes dos palácios federal e estaduais são acusados? Essas seduções são poderosas, corroem as mais fortes das crenças, pergunte aos antigos guerrilheiros o que preferem, armas, disfarces e esconderijos ou recepções, charutos e viagens?

Nas empresas não é diferente. É mais do que comum ouvir as histórias sobre os caprichos do presidente e da diretoria nas famosas rádios peão. Atire a primeira pedra o trainee que criticava algum item da política da empresa e só ao chegar lá passou a entender a importância de tal benefício.

O final, na visão do próprio autor, gera dúvidas. Lá os porcos fazem um conchavo com os humanos, ex-inimigos, em torno de interesses econômicos em comum, é claro que sem informar os companheiros. Foi inspirado na Conferência de Teerã, acordo ocidente-soviéticos que acabou desandando e resultando na Guerra Fria, termo também cunhado por Orwell em outro livro que que ficou bastante conhecido: 1984.

Ler A Revolução dos Bichos é questionar qual o jogo de poder se está disposto a jogar, é se defrontar com o sórdido para atingir os objetivos e como você irá reagir diante de tudo isso. Convenhamos, já é algo bastante interessante. Sou adversário de ir vivendo conforme a música, responder ao que aparece, somente e se aparece. Os planos dificilmente serão seguidos à risca, mas questionar os valores e entender a selva aí fora é meio caminho andado para se decidir onde ficar, se na pocilga ou num lugar mais aceitável…

A Revolução dos Bichos
George Orwell
Companhia das Letras, 147 págs

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