ARTIGOS DO EDITOR
Quem precisa de legenda?
Por que é que vocês são tão infelizes mãe? Por que é que são tão
iguais aos outros todos, mãe?
Meus dois filhos ainda são crianças, portanto, incapazes de soltar essa bomba nas nossas discussões familiares. Só nos resta então, eu e mulher, continuarmos fazendo para que ao chegarem a adolescência e se verem encantados pela descoberta do amor constatem que em casa há um belo exemplo de prosseguimento para as paixões que a idade trás ao ser humano. Isso é o melhor a fazer por eles, mas antes de tudo, isso é o melhor a fazer por mim e por ela.
Cláudia, a adolescente linda e atraente, namoradinha do chefe do grupo, descobre um sentimento mais forte por outro garoto, um pouco mais velho, menos enturmado, irmão da amiga de quem se aproxima ainda mais. Ao comparar essa força e desejo que sente com o ambiente de sua família tem sérias dificuldades em aceitar os rumos que tomaram as mulheres mais velhas, principalmente a avó, senhora contida, amargurada, sempre com dores de cabeça e de mal com o mundo. É difícil compreender a redenção da mãe ao “é assim que são as coisas”, como expresso na frase de abertura desse texto. Mas não é só Cláudia quem descarrega no leitor uma das faces mais óbvias da vida, outros jovens, seus pais e avós também assumem as idéias de Inês Pedrosa e nos fazem refletir sobre amor e paixões, relacionamentos e disputas amorosas e sexuais que começam a se aproximar de nós no final da adolescência e se não soubermos como tratar, nos amedrontarão pelo resto de nossos dias e não haverá sucesso profissional a compensar.
Em A instrução dos amantes (Editora Planeta, 168 págs), estréia na literatura dessa jornalista portuguesa em 1992 e somente agora lançado no Brasil um grupo de jovens vive, apronta e se questiona. Discutem o amor como gente grande ou você acredita que fora da literatura jovens chegam a essa conclusão: “Cláudia, a bela, sabia que na velhice como na adolescência a alma sobra-nos de um corpo demasiado pesado, destrambelhado, horrivelmente nosso. Um corpo assustadoramente estranho, inútil como um relógio avariado. Um corpo fora do tempo, porque a data que nele marcam os olhares dos outros não coincide com a data que nele marcam os desejos que o animam. Os velhos estão tão perto da morte como os adolescentes do suicídio - por excesso de idade. Aos adolescentes salva-os o sonho como aos velhos a memória.”
Mas já aviso, não se iluda com o tamanho do texto. Tudo o que ele tem de curto, tem de denso. Isso não é negativo, não compromete. Confesso que me perdi algumas vezes, menos por culpa de Inês, mas pelo meu deslumbramento por algumas frases e falas primorosas, profundas, verdadeiras lições que eu faço questão de grifar à caneta, ler para minha mulher e refletir. Não perdi o fluxo da leitura, no final tudo se encaixa e resolvi incorporar a autora no rol daqueles que estão a me atormentar pedindo para serem mais lidos, ah leitor, se alguém já descobriu como aplacar essa angústia do quanto ainda falta para se ler, envie-me um e-mail. Eu já pertenço ao grupo dos que anotam suas impressões, além dos grifos caso parta para uma releitura.
Esse livro fala de amor, da necessidade e da beleza da descoberta desse sentimento nas nossas vidas. Descreve a paixão chegando e se esvaindo. Fala dos desencontros forçados e dos encontros casuais. Fala de desejo, mostra como os avós e pais influenciam a vida de seus descendentes, mostra como as relações amorosas são o verdadeiro centro do ser humano. “Eu te amo” é a frase que Cláudia mais gostaria de ouvir de Dinis e esse dissimula dizendo que sentimentos não precisam de legendas. O livro acaba e não toca na carreira sonhada por aqueles jovens…
