ARTIGOS DO EDITOR

Servo quem?

Não se trata, no entanto, de uma servidão qualquer, mas daquela na qual se evidencia a marca da vontade humana. Enfim, somos servos e assujeitados porque queremos, por algo decidido pela deliberação humana, já que é da servidão voluntária que se fala agora.

Ser saudável, belo e não envelhecer se transformaram hoje nos nossos imperativos, moral e estético.

Hoje não se pode perder nada, foge-se do vazio. Se enche, mas não se preenche.

As frases acima são do último livro de Joel Birman. Leitura difícil, não intransponível. Aos leigos, mais do que vale o esforço, na verdade, dedicação. É necessário passar pelos conceitos, se ainda existe alguma saída para essa pós-modernidade, alguns terão que encarar o real e decidir romper com esse arrasto.

Todos nós em maior ou menor grau estamos condenados a sofrer mal-estares e vazios, todos nós de uma forma ou outra gostamos mais quando alguém nos diz o que fazer, onde ir, o que comer, e é lógico, o que comprar.

Ser guiado facilita em muito tudo, mas acaba por destruir qualquer sentido de autonomia, a longo prazo é terrível. O Brasil foi o último país a abolir a escravatura e constantemente é forçado a ver casos de resistência desse ato, mas na servidão voluntária ele vem a se juntar aos outros países ocidentais, também vitimas do empirismo de poucos dominantes e da subserviência e passividade dos órfãos de deus e da figura do pai. A discussão não é religiosa, basta ficarmos na extensão de que na modernidade se abriu o espaço para o indivíduo, se confiou que a ciência iria apresentar as soluções para uma melhor qualidade de vida e que não havia mais nada pré-definido, o espaço individual não era mais dado, e sim conquistado.

Outro ponto bastante interessante é o conceito de fraternidade e sua aplicação nos dias de hoje. A fraternidade vista como a junção de duas ou mais pessoas em busca de algo comum só é possível se a precariedade individual for aceita. Diante de alguém auto-suficiente, ou, pretensamente auto-suficiente, não há meios de uma cooperação acontecer. Não é necessário ir longe para entender o quanto se faz necessário um olhar conjunto para a recuperação de valores e estados vivenciados ou, no mínimo, vítimas de um saudosismo teórico, de histórias e textos de familiares e antepassados. Não se pode viver de passado, não se pode não enfrentar as questões atuais, não se pode ignorar o país onde estamos, com suas dificuldades, muitas, mas também com suas oportunidades, ainda enormes, porém desafiadoras. Entender o momento do mundo e as particularidades do Brasil fica tarefa mais palpável depois de Joel Birman.

Às mulheres incomodadas e desgostosas com a evolução de seu papel, uma motivação adicional. Fica claro a presença reservada a elas ao longo da história, daí uma escolha: reforçar a ligação com a natureza ou uma invasão no campo da cultura e da linguagem, ainda vistos como masculinos. Não sabia que até o século XVIII perdurava o conceito de sexo único, onde as mulheres eram apenas um complemento inferior.

Se durante a leitura algumas vezes o dicionário é necessário, após, a busca é por um interlocutor interessante, para compartilhar os conceitos, consolidar e não retornar às trevas, uma segurança para enfrentar o vazio que insiste em nos perseguir.

Arquivos do mal-estar e da resistência
Joel Birman
Civilização Brasileira, 418 págs.

voltar