ARTIGOS DO EDITOR
Teatro da carreira!
Quando cerrarem-se as cortinas da peça da sua vida, quem efetivamente vai estar na platéia para aplaudir? Será uma reação automática, constrangida e mecânica, dessas que se vê nos “espetáculos” hoje em dia, mesmo que o “ator” seja um ex Big Brother (dos ruins), ou algo efusivo, profundo, tocante, um sinal de reconhecimento para alguém que deu o melhor de si?
A leitura de Executivos Sucesso e (in) Felicidade deixa claro que a resposta real para a proposição simulada acima é completamente sua. Cabe a você aceitar e continuar a relação com a empresa e a carreira atuais ou estabelecer o limite e se lá chegar, fazer a ruptura. Mais do que apontar a responsabilidade, o livro denuncia o perigo que se corre na grande maioria das empresas desse país, o ambiente está deteriorado, o preço que se exige está além da sua capacidade, tenha que formação ou background tiver.
A obra é fruto de extensa pesquisa, qualitativa e quantitativa e abrangeu os níveis gerencial, diretoria e presidência de grandes empresas, Foram no total mais de 1.000 executivos de mais de 350 companhias. Ela vem se juntar a trabalhos anteriores dos autores e, pelo menos de acordo com a minha pretensão, a conceitos que eu já intuía que acometiam o dia-a-dia dos executivos. Desconsidere a capa, faltou atenção, sensibilidade e senso estético, o conteúdo irá compensar. Leia o livro, se, ao final não pensar seriamente numa chacoalhada geral, das duas uma, leia de novo, agora com mais atenção e menos preconceito e imagem de super-homem, ou, procure um médico e não aceite outro diagnóstico que não, alteração da sanidade mental.
Espero que as cutucadas acima sejam suficientes para destruir o escuto protetor que todo executivo cria em torno de si, eu não exagerei, eu disse todo executivo, mesmo os poucos mais seguros e quase resolvidos. Se o meu tom o incomoda, você é o principal alvo, venha para o embate! Se a leitura e discussão desse assunto não são permitidas ou bem vistas dentro dos corredores, salas e cafés da empresa onde trabalha, faça um esforço no pouco tempo livre que ainda lhe resta. Sua família já acostumada com a invasão de relatórios, blackberries, celulares e notebooks, ao ver-te com um livro sobre esse assunto, irá liberar uma esperança, mesmo que já deva estar bastante escolada.
O livro comete alguns pecados, talvez impossíveis de serem eliminados. Aceita algumas respostas clichês, não encosta alguns na parede, não arranca as máscaras do teatro corporativo. Por que sinceramente falando, o executivo, quanto mais poderoso se faz sentir diante dos outros, mais precisa ser tratado como criança, mais precisa de limites e respostas firmes, como se faz necessário em casa. Aliás, muito bem apontado pelo livro, hoje em dia, é muito mais fácil mandar na empresa, do que mandar em casa. Confesse, você não se sente mais seguro indo para cima daquele subordinado que depende do salário e de te agradar do que diante do filho ou filha que pouco te vêem e já questionam de fato se você é tudo aquilo que um dia já imaginaram? Isso dói, é duro, não é para ser espalhado por todo canto, mas esse é um dos encantos da leitura, é algo reservado, pessoal. Passado o choque inicial, existem alguns apontamentos de como remediar a situação, aí sim, não deixe escapar essa chance. Não há conta bancária, bônus, presente do gerente do private bank, modelo de carro, segurança, estadia no olimpo que compensem um sentimento genuíno e verdadeiro de harmonia com a sua essência, uma essência quase sempre simples, desprovida de adereços, símbolos, gestos, cifrões e cargos.
Eu pertenço àquele grupo de pessoas que não acredita na felicidade como estágio de vida, mas sim como momentos profundos e finitos que se somam a dores e angústias de um crescimento desafiador e interessante. Perdidas as ilusões, ainda resta lutar pela vida interessante, intensa e diversificada. As conquistas da carreira acabam por pertencer a empresa, por mais que você tenha se dedicado e sido decisivo, ao lado delas, passe a fazer coisas que despertem outros interesses, outras possibilidades, se relacione com outras pessoas, por interesse sim, mas pelo puro interesse de conhecer pessoas novas, fora do círculo viciado em que vive. As cidades brasileiras não estão seguras, ainda mais se escolheu um Rolex como um dos símbolos de suas conquistas, mas as cidades brasileiras pulsam vida e são carentes de boas cabeças, idéias e ações que as transformem e ajudem a impactar a vida de seus habitantes.
Olhe também para isso, olhe para a pessoa com quem divide a sua vida emocional, ou comece a procurar alguém para ocupar esse vazio, olhe para os seus filhos, seus projetos, seus sonhos, evite olhar apenas de cima para a sua equipe ou para a tela de televisão que vai lhe fazer dormir. Escute um pouco mais de música, de poesia, da voz das pessoas, cuidado para não se isolar ainda mais no seu ipod. Veja além dos planos e powerpoints da empresa, veja filmes, não apenas de Hollywood, veja quadros e objetos de design. Fale mais do que vem de dentro, mesmo que esteja escondido e pareça que é vazio, vale mais do que os discursos manjados e supostamente motivadores que vem fazendo há tempos. Pode ser tarde, mas, como diria minha avó, antes tarde do que nunca!
Executivos Sucesso e (in) Felicidade
Betania Tanure, Antonio Carvalho Neto e Juliana Andrade
Editora Elsevier, 200 págs.
