ARTIGOS DO EDITOR

Tradutor de inconscientes?

Todo tímido é candidato a um crime sexual.

Dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro.

Não há solidão mais vil do que a do sexo sem amor.

Será que foi do buraco da fechadura, de onde dizia ser apenas um menino a observar o mundo, que Nelson Rodrigues criou as frases acima? Grande polemista, conservador, ferino, antimoralista, atingia direto a intimidade das pessoas. Via sexo, traição e sacanagem em tudo e ao transcrever para suas páginas, nos jornais, livros, revistas e teatro, chocava e atraia brasileiros de norte a sul do país. Ainda hoje não é unanimidade, demorei um tempo, mas agora o coloco junto de grandes nomes de minha biblioteca, junto de tramas e linguagens muito mais elaboradas e desenvolvidas, por mais que amigos da USP reforcem que lá ele é ignorado, os que se arriscam, quase discriminados são.

Todos os méritos à editora Agir, belíssima edição, daquelas que dá vontade de comprar, nem que seja apenas pelo fetiche, projeto gráfico ousado, diferenciado.

É verdade que as 100 histórias lidas de uma tacada só começam a determinado momento parecer ser mais do mesmo, afinal, por mais criativo e pouco tradicional que o ser humano seja na sua intimidade, as variações possíveis não são tantas. Relações com mulheres e maridos, cunhados e cunhados, sogros e sogras, amigos e amigas, colegas e familiares ou seguem o dito caminho esperado, onde a moral e os bons costumes imperam, caminho nunca adotado por Nelson Rodrigues, ou se parte para o que Tim Maia colocou numa de suas músicas, vale-tudo. E para Nelson valia tudo, o problema é o leitor conseguir aceitar que no íntimo, para ele também é assim. Não é o lado mais público das pessoas, mas é o lado mais privado.

Como Nelson chegou a isso? Não sou um especialista, um rodriguiano tradicional, mas a vida dele não foi das mais fáceis, tendeu ao trágico e aí ele transpôs para sua obra. Viveu um grande amor, com interrupções mas um grande amor que os fez optar por um final unidos. Pecou ao apoiar o movimento de 64 e pagou caro por isso. A esquerda torceu seus narizes contra ele quando ainda supunha que quando chegasse sua vez o comportamento moral seria exemplar, mas como o título de Nelson já diz: A vida como ela é…

Talvez no seu dia-a-dia os personagens não chamem Norival, Romualdo, Godofredo, Alcides, Edgardina, Abigail, Livinha, Filadelfo, mas com certeza, tenham o nome que tiverem, se deparam com as mesmas questões e encruzilhadas dos personagens de Nelson Rodrigues. Atire a primeira pedra quem nunca sonhou em ter uma cunhada linda e maravilhosa. Quem nunca se relacionou oniricamente com o bonitão do colega de trabalho? E a violência, quem não se imaginou matando alguém no cúmulo da raiva? Existe um campo imenso para comparações.

Ler Nelson Rodrigues é um estágio que te habilita a sair pela vida afora apresentando menos perigo a “ordem e a moral” vigentes. Freud explica. Admitir os possíveis desvios para si mesmo é, pelo menos, na minha opinião, a maior garantia de conseguir levar uma vida “normal”. Para isso serve a ficção, uma válvula de escape, ler Nelson Rodrigues talvez te impeça de avançar o farol com a cunhada, com o colega. Mas ler Nelson Rodrigues também garante que você pode o que quiser na intimidade do quarto, só cuide para tampar o buraco da fechadura…

A vida como ela é
Nelson Rodrigues
Agir, 606 págs.

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