ARTIGOS DO EDITOR
Para baixo é que se pula?
Difícil é tentar se reconstruir, peça por peça, sem manual de instruções e sem a menor idéia do onde devem ser colocadas as peças importantes.
Imagine tudo o que precisa acontecer na vida de um apresentador de televisão decadente para ele cair na real e enxergar as coisas dessa forma. Mas Martin Short um dos personagens do novo livro do britânico Nick Hornby (Uma longa queda, Rocco, 300 págs), não está sozinho nessa reflexão sobre a vida.
Cinco pessoas se conhecem em circunstância pouco ortodoxa, no alto de um prédio, famoso por receber suicidas, e acabam não só não pulando, mas também criando alguns vínculos para entender se optaram por viver ou simplesmente esse foi mais um projeto mal sucedido em suas fracassadas existências. Além de Martin, temos Maureen, uma mãe solteira de meia idade que apesar de ter transado uma única vez, engravidou e teve um filho com problemas e incapaz de sair da cadeira de rodas e interagir com ela. Jess é uma jovem saída da adolescência, filha de ministro, desprezada pelo namorado e quase sem comunicação com os pais, JJ é um músico frustrado, sua banda se desfez e por isso acredita que tomou um fora da namorada, restou-lhe entregar pizzas. Mick é um executivo bem-sucedido que ao se envolver com uma amante engajada resolve questionar a carreira e assumir atitudes pouco republicanas que tomou para chegar lá, não aceitas mesmo numa monarquia parlamentarista.
Não desista, a leitura não é tão pesada quanto pode parecer, o autor é uma das prosas mais dinâmicas e sarcásticas da literatura contemporânea, além de ter um humor dos mais inteligentes. Um longa queda é uma busca de vida, uma crítica ao atual estágio das coisas e um convite a reflexão. A diversidade dos personagens permite ao leitor se identificar (tá bom, se ainda não se conhece ou se assume o suficiente, pode identificar com um parente distante, um vizinho, um amigo…), com alguns dos envolvidos, se não 100%, com algumas experiências e expandir suas ações ou pelo menos sua compreensão.
Para os que trabalham em varejo compartilho um insight da personagem Jess: “As pessoas falam que lugares como o Starbucks são impessoais e tudo, mas e se isso for o que o cara quiser? Eu estaria perdida se não houvesse nada de impessoal no mundo. Gosto de saber que existem lugares grandes sem janelas onde ninguém dá a mínima. É preciso confiança pra ir a lugares pequenos, com fregueses regulares, pequenas livrarias, pequenas lojas de CD e pequenos restaurantes e cafés. Fico feliz em locais tipo Virgin Megastore, Borders, Starbucks, Pizza Express, onde ninguém dá a mínima e ninguém sabe quem você é. Meus pais vivem dizendo que estes lugares não têm alma, e eu digo foda-se. É assim que eu gosto.” Sem juízo de valor, apenas a constatação que quando se está no varejo, é melhor optar por um lado ou outro. Ser uma coisa e tentar comunicar a outra, pode confundir ainda mais os consumidores.
Mas o livro tem muitas outras sacadas de vida e uma bastante profunda que você pode refletir em casa ou no trabalho. Aquelas cinco pessoas individualmente talvez tivessem se suicidado, a dinâmica da interação entre elas levou a uma outra posição. Será que não é sempre assim? Será que já não está na hora de assumirmos que não conseguimos fazer tudo sozinhos e isolados, por mais isolante que o poder seja?
Ah, uma ressalva de última hora, Martin, Maureen, Jess e JJ estão no livro, Mick, o executivo bem-sucedido e refletindo valores foi uma provocação minha, só aparece nessa resenha. Nick Hornby ainda não mergulhou suas lentes aguçadas no mundo corporativo.
