ARTIGOS DO EDITOR

Usurários

Se você começou a ler essa coluna ainda irritado pelo último pau no novo Windows Vista, desista, eu te entendo, mas ainda preferi não o instalar no meu computador, já cansei desse frenesi, prefiro os paus antigos. Essa coluna não é sobre tecnologia, por mais que esta tenha um enorme impacto em nossas vidas, é sobre algo que tem um impacto ainda maior: dinheiro.

Aos mais intelectualizados e humanistas também vale ir até o final, é sobre a sua relação leitor com o dinheiro, sobre quem trabalha para quem. O historiador Jacques Le Goff mergulhou no passado para entender e explicar como economia e religião se misturaram e passaram a permitir a consolidação do capitalismo na Idade Média. Em A bolsa e a vida, o autor vai mostrando como a necessidade de alguns de crédito e a disponibilidade de outros para o empréstimo vai sendo introjetada pela religião e pelas sociedades. Explicitamente proibido, o empréstimo de dinheiro a juros vai tentando o ser humano a encontrar uma aceitação para uma atividade que mesmo ilícita, mesmo execrada, acontece. E esse colunista acaba de sair de uma situação financeira apertada e pôde checar na pele como andam as práticas nesse setor.

Banqueiros e agentes do sistema financeiro precisam fazer um exame na consciência antes de mergulhar na leitura. Aos que ainda resta um tanto de humanidade, a culpa pode ser grande, será inevitável a consciência do tamanho do pecado em que vivem. A religião foi condescendente quando por volta do século XII, XIII, aceitou transformar a concepção do pecado e da penitência, interiorizando-a e colocando em evidência a intenção do pecador. Não há quem me convença que a criação do purgatório foi mais que a pura constatação prática da necessidade, ou melhor, da impossibilidade de impedir quem tem recursos de acessar o meio mais fácil para faze-lo multiplicar. É óbvio também o interesse de todos, igreja incluída, nos bens materiais desse pecador. Aí, o purgatório aliava a consciência do usurário e sua família e resolve a questão econômica da instituição. Já viu isso nos dias de hoje? Pois é, a velha prática do bicho homem em resolver as coisas. Prática completamente repreensível, porém ainda bastante adotada, nos governos, nas empresas e nas relações entre esses.

Vou me permitir uma extrapolação conceitual em prol do espírito empreendedor, tão necessário para que a economia desse país consiga se afastar desse marasmo que insiste em lhe isolar. Não seriam os rentistas, tão comuns em economias com taxas de juros bastante agressivas, tão prejudiciais e pecadores quanto os usurários, impedindo o verdadeiro acesso ao crédito aos com espírito empreendedor mas sem o bolso para sustentar o investimento? Não seriam os que utilizam os seus melhores esforços intelectuais e sua força de trabalho na busca fácil de um retorno baseado apenas no risco de escritório e nas relações e análises frias e poucos produtivas de papéis e títulos os culpados por mais uma vez esse país ficar assistindo o espetáculo do crescimento dos outros, mergulhado em seu espetáculo de podridão? Quando é que a única alternativa para a construção de um patrimônio para quem está no mundo dos negócios será empreender, empreender, empreender?

Um outro ponto interessante da leitura é a definição de usura permitida, do valor mínimo para que um retorno acima do dinheiro emprestado não fosse execrado pelas regras morais. A lei romana, alterada pela legislação bizantino-cristã de Justiniano autorizava uma usura anual de 12% (tá aí a inspiração da nossa Constituição), depois o rei da França Luís VIII e São Luís impuseram aos judeus usurários uma taxa anual de 33,5%, novo teto admitido. Vou ligar para os atendentes da Visa e da Mastercard e ver se eles conseguem explicar quem autorizou 289% ao ano, se um rei e um santo chegaram a trinta e tantos, fico tentando imaginar quem ousou ir tão longe. Aliás, como eu costumava dizer, não tem agiota ou usurário nesse país que consiga cobrar tanto quanto os agentes oficiais de crédito, os bancos e cartões de crédito foram a salvação da consciência dos agiotas.

Le Goff cobre com precisão, às vezes até meio repetitiva, mas bastante ilustrativa como esses atos são questões de consciência, de crença em vida eterna e do trade-off entre garantia do paraíso versus o concreto que o dinheiro compra nessa vida. Filosófico demais? Se a pergunta te incomoda, é você que merece questionar o quão se aproxima do homem ideal de São Luiz, o prudhomme, aquele que se distingue do bravo ao aliar a proeza à sabedoria e ao comedimento. Eu já recarreguei as pilhas da minha lanterna para sair em busca deles…

A bolsa e a vida

Jacques Le Goff
Civilização Brasileira, 142 págs
Tradução de Marcos de Castro

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