ARTIGOS DO EDITOR

Vai falar do que?

Nada do que me lembro faria minhas secretárias ruborizarem.

E você, tem memórias menos censuráveis do que o autor da frase acima? Não, não precisa começar a atirar para o escritório do lado. Lembrar de ex-chefes e atitudes pouco nobres, seja de que sentido moral for, deles ou de ex-colegas ambiciosos e inescrupulosos, capazes de qualquer coisa para aparecer bem na foto. A frase veio de um personagem de um dos contos do livro Discurso sobre o capim (Companhia das Letras, 116 págs).

O autor, em sua estréia para adultos, muda o lado do balcão e injeta o seu veneno nas próprias veias. Luiz Schwarcz, editor e fundador da Companhia das Letras, escreveu um pequeno grande livro de contos. Ao lê-lo você irá mergulhar nas memórias de sua vida, algumas próximas da do autor, e também se conectar com sua parte mais sensível. Desafio você a passar por essas páginas e não se surpreender com as cores, cheiros e sons de suas lembranças. Só isso já é mais do que suficiente para incorporá-lo a sua biblioteca depois de devidamente degustado. Já que comecei a falar de biblioteca, nada mais oportuno do que expressar minha opinião também sobre o trabalho habitual de Schwarcz e reconhecer de público minha admiração pelo todo de sua obra. A Companhia das Letras é a editora que mais facilmente me faz abrir a carteira, mas isso não é o mais importante e sim, que são dela os livros pelos quais tenho mais ciúme e xodó. Muita coerência e qualidade editorial cercados por senso estético e gráfico.

Voltemos ao livro. O personagem da frase é um homem de negócios muitíssimo bem-sucedido que se sente na “obrigação” de escrever suas memórias. Decide que quando o fizer, não seguirá o caminho dos amigos e não contratará um escritor profissional quase sempre capaz de criar uma vida mais interessante do que a vivida e muito útil para discursos e histórias em reuniões com colegas, amigos e clientes. Vai por um caminho mais caseiro, com a ajuda apenas de fiéis secretárias, que podem até se encaixar em modelos que habitam nossos imaginários. Mas quando inicia mentalmente sente um bloqueio depois de narrar fatos gostosos da infância e adolescência, como se a vida depois daí não tivesse mais graça e aventura, fosse monótona e previsível, incapaz até de estampar de vermelho a face das secretárias (nenhuma apologia aos escândalos que quase nos estamos habituando a ver, falo num sentido mais “romântico”). A confirmação de que o rumo fora errado surge no momento do discurso para agradecer o prêmio do Homem do Ano (devidamente patrocinado por um de seus subordinados e diante de um público bastante conectado em interesses com a sua vida) e ao invés de ler o preparado, desembesta a falar sobre um dos primeiros quadros de sua coleção, obrigando o apresentador de plantão a encurtar e reenquadrar a cerimônia nos moldes esperados.

Foi uma das mais instigantes reflexões para o mundo corporativo que vi na literatura recente. Abordei esse lado do livro por ser a Forbes uma revista de negócios, e eu um eterno defensor desses pontos de parada, análise e possível reinvenção. Como estão as histórias do seu livro de memórias? Vai de ghost-writer ou encarar tudo sozinho?

Os outros dez contos do livro poderiam nos levar à enfoques diferentes e não menos importantes. Dá para refletir um pouco sobre cinema e literatura e muito sobre família e infância, deixo-o com as palavras de um outro personagem: “… como se a vida fosse um teatro e eu seu produtor, diretor, cenógrafo, figurinista. O único papel que não me cabia era o de ator.”

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