ARTIGOS DO EDITOR

Vida de repórter, volume II

É esta a função do repórter: mostrar a nossa realidade para que as pessoas tenham elementos capazes de transformar esta mesma realidade, reagir diante dela, se quiserem…” O pior, não parece que as pessoas querem, a cada pesquisa divulgada tudo sinaliza que continuará como está, brasileiros anestesiados ou alienados, desesperados ou desesperançados vão manter a dinâmica política atual. Se você é de “esquerda”, além do fato de que supostamente não deveria estar lendo esta revista, está protestando, dizendo que assim sempre foi, desde o descobrimento, e que agora as coisas estão melhores, que sou apenas mais um preconceituoso. Acalme-se, nos meus 16 anos me considerava um comunista, flertei com o PT e depois virei às costas, mas guardava uma certa simpatia que sobrepunha o radicalismo deles.

A definição de repórter é de Ricardo Kotscho, um dos mais destacados jornalistas brasileiros. Figura atuante e presente nos momentos definidores da nossa vida nas últimas décadas, como ele diz, esteve nos lugares certos, na hora certa e agora nos apresenta o Do golpe ao Planalto (Companhia das Letras, 334 págs.), livro que narra as suas memórias e histórias das redações, campanhas e rincões do Brasil. Uma aula de jornalismo, conforme cita a orelha do livro.

Concordo com tudo, a leitura é agradável, cativante. Dá para conhecer alguns detalhes de personagens que hoje comandam o Brasil, intimidade de presidentes e ministros, desde há muito. Dá para acreditar no autor, pessoa séria e respeitada mas não consigo não terminar a leitura e constatar uma falha. Kotscho não foi até a última página sendo fiel ao seu instinto de repórter, parou em dezembro de 2005 e preferiu preservar seu amigo Lula, cedeu à emoção e nós ficamos sem saber o todo da história. Se nada sabe, prefere não utilizar a sagacidade desenvolvida nas redações, a proximidade da convivência desde o ABC paulista. Prefere se calar, não encarnou o advogado de defesa, mas tampouco o repórter implacável. Relatou um encontro num grande jornal em 2004 onde soltou: “Vocês podem falar o que quiserem, mas pelo menos são obrigados a reconhecer que neste governo não tem corrupção”, antes de abordar os escândalos posteriores, assim acalma um pouco o leitor.

Mas insisto, frustrou minhas expectativas. Como queria ter sido o editor do livro, ter podido apertá-lo, cercá-lo, ouvir histórias de bastidor. Deixo para o editor uma sugestão. Já é hora de pensar no segundo livro, algo como Do Planalto à decepção, aí sim o Kotscho vai poder escrever sua grande reportagem. Vai poder ser intimista como nunca, descrever suas frustrações, decepções com a causa e companheiros de décadas. Vai poder contar suas impressões sobre todo o desconhecimento do presidente Lula, vai poder nos ajudar a concluir quem é de fato o Antonio Palocci, o brincalhão de partes do livro, ou o serião das entrevistas até o momento que deu. Vai poder palpitar se o jeito “deixa comigo” do ex-líder estudantil José Dirceu, explicaria um pouco do que aconteceu. Não tenho dúvidas que esse será o grande livro de Kotscho, não tenho dúvidas que sua ideologia, sua consciência, sua história o empurrarão a escrever.

Mas se ele desistir do novo livro, fica o ensinamento relatado neste, nas palavras de Ana Tavares, ex-assessora de FHC ao se referir ao Planalto: “Aquilo lá é um serpentário. Não importa quem esteja no governo. O poder alimenta as cobras”. Ou a confirmação do próprio Kotscho: “A gente acha que a esquerda é de um jeito, a direita de outro e o centro de outro. No governo, aprende-se que a natureza humana é uma só”.

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