ARTIGOS DO EDITOR
Vida na estante
“A vida humana como tal é uma derrota. A única coisa que nos resta diante dessa inelutável derrota que chamamos de vida é tentar compreendê-la. Eis a razão de ser da arte do romance”. Confesso que uma das dúvidas mais freqüentes que tenho é se sou otimista ou pessimista. A constatação de Milan Kundera quase responde.
Quando olho o entorno, ou mesmo se dou uma extrapolada para o primeiro mundo, apesar de pontos bastante melhores, a conclusão é a mesma, quase que um reforço ao meu suposto pessimismo.
Mas quem não convive comigo pode estar sendo precipitado, quem não me vê no dia-a-dia na criação dos meus filhos, na construção da relação com minha mulher, na briga para a construção da empresa não percebe o brilho nos meus olhos nem a empolgação que coloco no que faço, daí minha conclusão: sou um puta otimista. Quem, com um mínimo de clareza do entorno, ainda busca melhorar as coisas, tenta entender e com isso facilitar a sua ação, só pode ser um otimista. Quem insiste em escrever sobre livros e escolhe dois livros sobre livros para a coluna é de fato um otimista.
Mas chega de falar de mim se o espaço é para falar de duas figuras das mais interessantes do mundo contemporâneo: Alberto Manguel e Milan Kundera e seus mais recentes livros, A cortina e Biblioteca à noite. Duas obras interessantes e capazes de incentivar quem as ler a ter ainda mais contato com livros. Se Kundera fala de alguns autores e das principais características do gênero romance, Manguel fala das bibliotecas e das questões em jogo quando se pensa em acumular livros. Das duas leituras se sai com uma lista de livros a ler e coisas a fazer com os livros lidos. Se você não tem interesse, espaço ou sei lá eu que condições para iniciar sua biblioteca pessoal, nem abra o livro de Manguel, se o fizer, duvido que não vá tratar os seus livros com mais carinho e objetivo. Se for religioso, irá até dar mais atenção a São Jerônimo, o patrono dos leitores. Se a leitura se restringir a coluna saiba que Manguel muito bem define que toda biblioteca é autobiográfica. Aqui uma provocação: o que os seus livros estão contando de você?
Kundera ao abordar o romancista e as características necessárias a sua formação faz uma reflexão profunda sobre a ambição e a megalomania. Ele diz, e eu concordo, que um bombeiro mediano é ainda assim útil a civilização, já um romancista que produz voluntariamente livros efêmeros, comuns, é desprezível. Aí entra o que ele chama de maldição do romancista. Este não pode ser cínico, se não tiver a ambição de compreender uma parte do mundo, de buscar a imortalidade, pouco conseguirá.
Uma outra importante lição que fica é o quanto os livros nos são particulares e pessoais. Por vezes são os instrumentos ópticos proussianos a clarear a visão de algo paralelo ou parecido, pois como disse Thomas Browne ainda em 1642 e Manguel repetiu para que não esqueçamos: “nenhum homem é apenas quem é; (…),todo homem é revivido repetidas vezes, e o mundo é hoje, como foi a muitas eras atrás; desde então, todo homem teve o seu igual, alguém que, por assim, era a sua pessoa rediviva”
A cortina
Milan Kundera
Companhia das Letras, 156 págs
Biblioteca à noite
Alberto Manguel
Companhia das Letras, 300 págs
