ARTIGOS DO EDITOR

Vida terminada?

Qual era o nome de sua babá? Talvez aí esteja a explicação de seu horizonte. A babá de Winston Churchill chamava-se Mrs. Everest e o acompanhou até os 20 anos, tapando alguns buracos deixados pela distância dos pais.

Brincadeiras à parte, Churchill nasceu em berço esplendido, junção de uma nobreza européia sem posses e as posses de uma herdeira de um rico corretor de ações dos Estados Unidos. O pai, lorde do Império Britânico, tinha acesso aos mais restritos e exclusivos circuitos londrinos e inaugurou na família a utilização da oratória como um fator diferencial e construtor de carreira política meteórica, chegando a ser ministro das Finanças de onde começou a decadência também por fatores herdados pelo filho: arrogância e erros de julgamentos. Do ostracismo não mais se recuperou, falecendo aos 45 anos de idade.

A herança foi além de um sobrenome famoso e ligações úteis, incluiu o fascínio pelo mundo da alta política e o desejo de seguir os passos do pai. Não é difícil imaginar a pressão desse sucesso em alguém determinado a trilhar o mesmo caminho.

Seu desempenho escolar e esportivo não era animador, ao físico franzino somava-se uma dislexia. Sobrou-lhe a glória de um prêmio por ser capaz de recitar 1.200 linhas de uma poesia, dando pitadas de sua brutal memória oral. Desses tempos já se podia identificar alguns de seus principais defeitos: precipitação, impulsividade, egoísmo e ambição. Como não apontava para um brilhante desempenho acadêmico, foi enviado para a Real Academia Militar, onde obteve grande destaque formando-se com louvor em oitavo lugar numa turma de 150.

Partiu para o mundo em buscas de aventuras e forma de se tornar conhecido. Durante seu período na Índia dedicou-se a um amplo e profundo programa de leitura, preparando-se para uma carreira na vida pública. Obteve no autodidatismo uma de suas maiores forças e descobriu a queda para escrever. Por falar em autodidatismo, a quantas anda seu programa de leitura? Se ainda está limitado aos livros de business light e auto-ajuda e sua babá não tem um nome altivo, você está apenas a reforçar um teto pouco ambicioso.

Sua dicção ligeiramente defeituosa era confrontada com esforço e dedicação. Para seu primeiro discurso importante no parlamento passou 6 semanas preparando e decorando. Aos 33 anos se tornou ministro de primeiro escalão, ou seja, parte de um grupo de menos de 20 homens que determinava o destino da mais poderosa nação e do maior império que o mundo já conhecera. Mas o arrojo e a sensação de ser um aventureiro o levaram a cair e beirar o ostracismo, quem sabe não imaginando para si mesmo um destino semelhante ao de seu pai…

Encontrou no casamento com Clemetine um suposto alicerce, companheira de mais de 50 anos, ganhou estabilidade e segurança, mas sua insistência em olhar o mundo e reservar a Inglaterra uma posição de destaque não impediu de ter uma família com sérios problemas. Dos quatro filhos que cresceram, um homem e três mulheres, apenas a menor teve uma vida estável. A mais velha se suicidou com o pai ainda vivo, o herdeiro não suportando a pressão de carregar o peso de um Churchill sucumbiu ao alcoolismo. Pai amoroso, deixava com a mulher a responsabilidade de impor disciplina.

Quebrou algumas vezes e foi um dos raros casos de escritor bem-sucedido financeiramente. Ganhou inclusive um prêmio Nobel de Literatura. Foi primeiro-ministro inglês por duas vezes, a primeira durante a Segunda Grande Guerra quando conseguiu se firmar como uma liderança mundial. Tentava encontrar uma forma de preservar o papel decadente da Inglaterra, não conseguiu, mas reservou para si um lugar de destaque na história, o que não é pouco, aliás, em relação a história, tinha a seguinte convicção: a história lhe daria razão, simplesmente porque a história escreveria ele. Você não vai ler?

Winston Churchill
Stuart Ball
Nova Fronteira, 252 págs.

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