ARTIGOS DO EDITOR
Você sabe quem está escrevendo?!
Caso sua principal função profissional esteja de forma direta ou indireta ligada a vender algum produto ou serviço a um brasileiro, a leitura do novo livro de Alberto Carlos Almeida pode-se, dizer obrigatória. Boa notícia para os mais preguiçosos ou, como se assumem socialmente, sem-tempo, o livro é a apresentação de uma pesquisa, existem muitas tabelas, inúmeras. Para ser preciso, 112 tabelas, 3 quadros e 11 gráficos que facilitam a leitura mas impedem o desenvolvimento e formação de uma tese mais profunda e teórica sobre o cada um de nós. O objetivo do autor era efetivamente se ater aos números.
Muita polêmica já foi criada sobre a validade estatística da pesquisa. Não vou entrar aí, pela similaridade da metodologia e uso corrente e internacional, Almeida tem toda a autoridade para falar sobre as diferenças e os extremos do brasileiro sobre: ética, sexualidade, “jeitinho”, hierarquia, destino, família, cor, política e outros temas.
A premissa parte de Roberto DaMatta e suas formulações sobre as relações sociais, a posição e a origem social na determinação do que se pode ou não fazer, para se definir a relação da pessoa mediante a lei, algo inexistente numa cultura anglo-saxônica onde pelo menos na teoria a lei é para ser cumprida, por todos.
O livro deixa claro que há um apartheid cultural no país, entre os extremos do arcaico e do moderno (eta palavra complicada de se utilizar!) convivem várias nuances, a maioria delas resultado da disparidade de escolaridade. Essa é a parte positiva, a efetividade educacional tende a empurrar a mentalidade das pessoas para valores mais globais, termo utilizado como sinônimo de democráticos e centrados no todo, não num individual. Mas já há o indício que isso leva tempo, tempo que não temos.
Meu temor principal é o resultado negativo de um aumento brutal da capacidade de comunicação do ser humano, estamos expostos a tudo em segundos do ocorrido, independente de nível social e econômico, a internet é uma grande deusa democrata, onde não chega, fornece subsídios para mídias tradicionais chegarem, e a antiga e cada vez mais alastrada sensação de impunidade, ou seja, nossa crise de valores atuais.
Ouso ser injusto com colegas e companheiros da minha privilegiada trajetória de vida, mas muitas vezes tenho dificuldade de imaginá-los não recorrendo a práticas condenáveis na defesa patrimonialista e hierarquizada. Vim do interior, da elite de lá, em São Paulo, estudei em faculdade de primeiríssima linha, depois trabalhei em grandes empresas até montar meu próprio negócio. Já passei apuros, dos grandes, já me imaginei quebrado, já arrisquei, mas nada próximo ao que se passa entre as pessoas “menos privilegiadas”. Sou branco, bem-educado e na leitura do livro acabo de me descobrir porque o “quem você pensa que é?” sempre me foi muito mais freqüente do que o “você sabe com quem está falando?”, aliás, confesso que nunca utilizei esta expressão, seja por minha grande mobilidade entre os extremos, seja por crença pessoal.
Falando em crença, sigo a boiada dos educados e me nego ao destino, mas com certeza me deparo com brasileiros, seja em funções da vida privada ou pública, que pensam em contrário. Diga se você já não teve que explicar a uma criança que pensa diferente daquela babá ou empregada com a qual ela tem um forte vínculo afetivo, para quem uma folha sequer não cai sem a vontade de Deus. E quando o assunto é o “jeitinho” brasileiro? Quem já não se pegou na dúvida se aquela atitude era favor, “jeitinho” ou corrupção? Se fosse favor, por que não estimular e difundir essa prática humanitária entre as pessoas? Se fosse “jeitinho” sempre se fica naquela zona cinza de difícil classificação. Se fosse corrupção, como extinguir essa prática condenável e por que você poderia ter imaginado se utilizar dela?
São questões complexas que variam de acordo com o nível educacional e o entorno social de quem as vive. Como você responde a maior de todas as leis na sua empresa? A lei do mundo dos negócios. Ela não existe na sua empresa? Lá os bordões sobre o poder do dinheiro não são difundidos? Não se procuram favores ou “jeitinhos” para ter a mínima chance de concorrer com o competidor, que não se pode provar mas que tudo indica pratica corrupção? Se perguntados, todos os presidentes são democráticos e acham que todos devem ter as mesmas regras, mas ouso dizer que são poucos os que não sentem e não praticam a tentação de abuso do poder econômico, da posição concorrencial, da proximidade com o poder, ou mesmo daquelas despretensiosas doações para estimular o jogo democrático.
A cabeça do brasileiro mostra que existe nas respostas às pesquisas um enorme Brasil a ser educado. O que me preocupa já é o Brasil educado, aquela que responde uma pesquisa de um jeito, mas cede a lei do mundo dos negócios de outro. Mãos à consciência!
A cabeça do brasileiro
Alberto Carlos Almeida
Record, 280 pgs.
