Assunto: Cultura



Tipos de escritores, segundo Cony!

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O Cony disse na Folha e o PublishNews reproduziu:

Sempre ouvi dizer que há duas maneiras de ser escritor. A primeira, a mais tradicional, é a do refúgio na chamada torre de marfim, em que o autor se isola para não se promiscuir com o mercado. A segunda considera o livro como um elo entre o autor e o leitor, não diviniza nem demoniza a praxe, aceita a regra do jogo e dá o seu recado. Há gênios e imbecis nas duas categorias. Como gênio é coisa rara, e discutível, quem não é gênio precisa pagar o mico e se submeter à sua circunstância. Por tudo isso, salve as bienais, principalmente as anuais.

Concordo com ele, que as feiras continuem a existir e que os gênios e os imbecis existem nos dois grupos, e esses últimos, em escala muito maior. Mas isso não é nenhum privilégio da literatura, um retrato do país, na verdade, da humanidade.

A mediocridade salva?

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Assisti Piscina (sem água) indicação, se não me engano, do Pondé em sua coluna da segunda. Gostei bastante, a interpretação de Ester Laccava ficou acima do grupo, mulheres melhores que homens, e gostei mais do que minha mulher, talvez porque tenha ido já com o briefing, para questionar alguns pontos.

Uma pessoa se destaca de um grupo e só ela atinge a fama e o reconhecimento. Os outros são obrigados a se conformar com sua mediocridade, não sem antes sofrer, praguejar e fantasiar justiça. A vida não é justa, nem sempre os mais talentosos chegam, principalmente se além da sorte, não tiverem uma excessiva persistência e, em alguns casos, até mesmo a disposição de dançar algumas músicas que não gostam, até beirando os limites. Se ultrapassarem, chegam, mas carregam um peso excessivo.

A peça não alivia, é meio agressiva com o expectador, o que é bom. Mas também deve ser a razão para vários lugares vazios, os tais medíocres (não estou me excluindo, inclusive fui em busca da resposta), logicamente a maioria, preferem o riso fácil e até mesmo ridículo desde que não se aproxime. Enfrentar a realidade é para poucos, suportá-la, para pouquíssimos! Mas como dizem os amigos que ficaram na peça, ouvir a verdade muitas vezes alivia.

A beleza das rugas

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Há uma bela reportagem com Ferreira Gullar hoje na Serafina. Texto de Humberto Werneck. Vale ler, quem não está em São Paulo, acho que a revista circula apenas por aqui, pode recorrer à internet ou então aos amigos, o belo ensaio do fotógrafo Murillo Meirelles não se encontra na versão da net e merece ser visto no formatão da revista.

Gullar faz 80 anos no próximo dia 10 de setembro, cada vez mais admiro sua postura, mesmo apelando para as frases de auto-ajuda: eu não quero ter razão, quer ser feliz.

A capa da Serafina é para mim um dos sinais da beleza vivência e da experiência, uma estética da vida. Cada ruga, cada veia, cada pedaço de pele flácida da mão de Gullar deixa claro que a vida, a dele teve momentos dos mais complexos, vale ser vivida e precisa ser aproveitada. Não perca!

Eis um poema do novo livro, Em alguma parte alguma:
Duplo
Foi-se formando
a meu lado
um outro
que é mais Gullar do que eu

que se apossou do que vi
do que fiz
do que era meu

e pelo país
flutua
livre da morte
e do morto

pelas ruas da cidade
vejo-o passar
com meu rosto

mas sem o peso
do corpo
que sou eu
culpado e pouco

Slow reading: não é movimento pró-leitura, é pró-humanidade

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O Sabático de ontem traduz uma ótima matéria de Patrick Kingsley do The Guardian sobre o Slow Reading. Na verdade, vai muito além de ser um movimento que defende a leitura sem pressa ou algo assim, é sobre garantir nossa capacidade de entendimento. Se você está lendo este blog agora corre o risco de estar diminuindo sua interação com o mundo, ao invés de estar aumentando. Há anos, dificilmente saberia que eu existo e quais são minhas idéias, restava-lhe então fontes mais seletivas, porque custavam mais caro, havia um mínimo de seleção (era mínima mesmo, desde o início se publica muita porcaria, seja em jornais, revistas ou livros).

Mas como começa Kingsley, seu artigo tem 10.841 caracteres (versão em inglês, publicada no dia 15 de julho, talvez o mais adequado seja falar em slow translation…), quem o lê na versão impressa deve ler aproximadamente 5.420 caracteres, a metade, mas quem lê on line, deve passar apenas por 2.100 caracteres. Por que? Porque o mundo digital é amplo, mundo vasto mundo, incontrolável e desfocado. Quem entra nele e fica apenas nele corre o risco da superficialidade.

Não estou aqui fazendo uma defesa de editor, sim, vivo disso e gostaria de continuar vivendo, mas defendo a minha convivência com seres humanos minimamente interessantes, pessoas com quem dê vontade deixar o comodismo da interação online e me empolguem a dividir uma garrafa de vinho e algumas horas, nem que seja para repetir o que foi dito no último encontro. Afinal, as pessoas que mais gostamos não falam quase sempre a mesma coisa? Quem não encontra o colega de faculdade e não se vê ouvindo e falando aquele mesmo e velho assunto, o pior, na verdade o melhor, é que, com a mesma empolgação inicial, próxima à empolgação do vivido naquele tempo, isso é humano, gente com gente.

Nicholas Carr defende que as palavras do escritor atuam como catalisador na mente do leitor, mas para chegar a isso, precisa ser escritor, ter alguma formação, alguma vivência, algum talento. O risco que corremos é ficarmos seguindo alguns com pouco ou quase nada a dizer, apenas esboços dos personagens que idealizaram para si num mundo de celebridades e instantâneos. Ler é ruminar o mundo que se cria entre o autor e o leitor, pode até ser digital, vai depender da preferência ou da disponibilidade, mas tomara que não fiquemos apenas restritos aos blogs, twitters, facebooks e seus substitutos. Prefiro ler um bom livro, prefiro uma tela de cinema, o escuro de uma sala de teatro, a dimensão arquitetônica de um museu e de preferência alguém com quem valha a pena compartilhar ou discutir tudo isso. Eu não quero conversar com quem não lê…

Nós olhos dos outros é refresco

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O jornalista Daniel Piza lança esta semana seu novo livro. Abandona temporariamente o estilingue e se coloca como vidraça, daquelas de arquitetura contemporânea, grande, com muito vidro. Noites urbanas foi criticado pela Folha de S. Paulo, não li para afirmar que foi sem base no livro e sim na pessoa, como parece afirmar a pessoa. Piza é feroz em sua coluna, tem não só o direito, mas também o dever. Mas Piza é também humano, o que no interesse desse post, quer dizer vaidoso, e parece lidar mal com a crítica. Na minha opinião deveria aguentar calado, não o fez, utilizou o espaço da sua coluna para atacar, um ataque leve, mesmo assim um ataque defensivo, não deixou os leitores julgarem, como o faz quando é o estilingue em várias obras que aborda no Estadão. Noites urbanas será lançado na Vila da Lorena esta semana.

É duro ser coerente, ainda mais quando, e quase sempre, se quer também ser o outro, do lado de lá…

Brasil está mesmo no moda: blowing in the wind…

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Fábio Cypriano não poupou Bob Dylan na reportagem de ontem da Folha sobre a exposição do cantor passando por pintor em Copenhagen. Acho que tem razão, se não fosse quem é, dificilmente teria espaço num museu. A produção já estaria muito bem colocada numa galeria, isso acaba deixando claro que os museus são também instituições políticas e fazem seu marketing. Uns com Bob Dylan e o retrato de paisagens brasileiras, outros com roupas de designers famosos, e por aqui, uns corpos. Vale tudo para ouvir o tilintar da caixa registradora. Bob Dylan compõe muito melhor do que pinta…

O ranking das mídias sociais

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A foto é da artista Elida Tessler, encontrei na net, o ranking da Daily Beast, a utilidade, sei lá…

O ranking das mídias sociais mais quentes do momento nos Estados Unidos é:

1) You Tube
2) Twitter
3) Tumblr
4) Facebook
5) Foursquare
6) Myspace
7) Skype
8) Flickr
9) Vimeo
10) LinkedIn
11) Posterous
12) Gowalla
13) Bebo
14) Zynga
15) Friendster
16) Playfish

Das 16, conheço 8, uso 6, do restante, tô velho… Ou então, tem muita besteira por aí! Mas quem quiser me apresentar e convencer, estou aberto.

Buying literature has become cool again…

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A frase acima é do professor de comunicação de mídia da Fordham University Paul Levinson. Que bom que enxerga assim, tomara mesmo que a literatura volte a ser algo cool, ou seja, que atraia pessoas que não vinha atraindo, acho que não por falta de oferta, sim por demanda, pelas pessoas estarem preferindo coisa fácil, se é que isto existe.

A frase estava inserida numa matéria do New York Times dizendo que os e-readers deixam as pessoas menos isoladas. Para mim a matéria contém um erro básico. A leitura não é um ato isolante, é um ato mergulhativo, requer esforço e concentração quando é consumida, mas abre portas e mundos depois, possibilita uma convivência mais interessante e saudável, menos superficial. Se aproximar de alguém por um gadget é algo tão bobo quanto se aproximar por um cachorro. Cachorros e iPads têm telefone (talvez a hístória do telefone já esteja ultrapassada), mas é algo passageiro, uma desculpa com prazo de validade. A literatura não só aproxima, mas capacita para conviver, esse sim o desafio da vida. Conhecer pessoas é fácil, mesmo para quem é tímido, conviver com pessoas, e bem, eis algo já não encontrável em lojas de artigos, nem de 1,99, nem de luxo…

Seth Godin x editoras

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Uma notícia que rola pela net é que o “guru” Seth Godin desistiu das editoras. Eu como editor, nunca optei por ele, não preciso portanto desistir agora…

Para mim Godin é um marketeiro interessante, mas alguém consciente de que precisa dos livros para vender palestras e consultorias. Lá fora diz fazer sucesso, por aqui, já transformou muito papel bom em encalhe. Estou com isso dizendo que ele está errado em confrontar as editoras e seus modelos de negócios? Claro que não, acho que o momento é propício para que todos revejam seus interesses, suas expertises, suas possibilidades. Cada um deve sim exigir o melhor para si, mas é preciso reconhecer que os editores, uma grande parte deles, faz um trabalho descente, esforçam-se e correm riscos por seus autores. Não dá para retribuir com remuneração equivalente ao que se ganha e cobra no mercado de palestras ou consultorias, mas é preciso sim ver as escalas.

Estou voltando agora ao mercado, animado que vai crescer. Existirão aqueles que querem ir direto com uma livraria? Sim, existirão, estão errados? Não sei, ainda acho que livro é um tipo de produto não tão igual aos outros, requer um certo trabalho, e principalmente um tempo para ser deglutido.

No Link de segunda há uma interessante matéria com Nicolas Carr, não sei se esse também desistiu do formato tradicional, pelas suas idéias, acredito que não, mas prega que a rede está “emburrecendo” as pessoas, no mínimo estaríamos ficando mais superficiais e menos focados, com menor capacidade de processamento vertical. Isso é sério, qualquer pessoa na meia idade olha para um jovem com um misto de inveja por perceber nele a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Como tudo na vida, o que não está sendo considerado é o custo, e tudo tem um preço. Os jovens tem uma enorme capacidade horizontal, migram de um aplicativo ou programa para outro com leveza absurda, o que não sabem é como vão encarar um tal vazio criado pela falta de densidade, um dia ele vem.

Então, calma lá. Que editores, muitos deles, estão velhos e precisam olhar o mundo com outros olhos, sim, precisam, mas não será seguindo os senhores Godin, Covey ou Coelho que o mundo vai começar a resolver seus problemas.

Caros autores e futuros autores, nós aqui sim pretendemos e vamos trabalhar também nas plataformas digitais, porém ainda acreditamos no livro em papel como algo prático, até com um componente que beira o sagrado, no sentido de um produto capaz de ter auxiliado a humanidade a sair das trevas, e que o homem, no seu caminho individual, quer mesmo é percorrer uma longa e desafiadora viagem para terminar reconhecido por poucos, aqueles que lhe fazem sentido, cercado de sua história, da maior parte dela que puder.

Nós vamos continuar tentando atrair autores, mas só aqueles que acreditam que existem profissionais que agregam valor às suas idéias, interlocutores capazes de ajudá-los a desenvolver melhor seus conteúdos, que entendem de formas de empacotar e que podem sim separar o joio do trigo. Para os que vêem apenas uma commodity de varejo, façam seus acordos diretos com livrarias ou sites de venda, vão ganhar mais, que a busca pelo seu algoritmo seja bem-sucedida, vou ficar por aqui de olho aberto tentando aprender, vendo onde posso aplicar o meu talento em resolver alguma frase, escolher um título, um subtítulo, um detalhe ou uma capa inteira.

Há aqueles que acreditam que tudo é apenas comercializar, esses dificilmente terão lugar na Livros de Safra, porque o nosso nome vem de agricultura, de um esforço em trabalhar a terra e encontrar as melhores condições para as sementes darem fruto, ciente de que as condições climáticas podem complicar. Um desabafo a uma mídia que abre espaço para muita coisa boa, mas também para muito lixo. Já disse aqui várias vezes: pare de ler esse blog e vá ler um grande escritor, um grande livro, com certeza terá mais lastro, um lastro de pensamento, capaz de iluminar um pouco quando estiver no meio do blackout causado por tamanho amontoado de frugalidades e besteiras.

É melhor conhecer o inimigo: White Collar

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Tive um final de semana diferente, li menos do que assisti televisão. Mas era o que tinha que ser feito, tudo começou na mesa, numa conversa familiar, meu filho apontando seu entusiasmo com as características do herói da série White Collar, que seu professor tinha erroneamente já explicado como crime do colarinho branco, não apenas como pessoas que trabalham em escritório, em oposição aos operários.

Como o assunto já o tinha feito aprofundar e inclusive pensar em vestir-se diferente para ir à escola, resolvi entender do que se trata. É mais uma série onde o bonitão, é esperto, no sentido ruim da palavra, um estelionatário, um falsificador dos mais inteligentes, une-se ao policial bonzinho e caretão e passam a desvendar melhor os crimes.

Pode até haver uma representação real e natural da natureza humana, mas que é estranho ver o seu filho querer ser tipo o cara, isso é, mas é melhor que seja assim agora, aos 13, e me alerta para o quanto de trabalho terei pela frente, do que aconteça depois. Mas o ritmo e os clichês são interessantes, suficientes para ser difícil que ele abra um livro, algum clássico. Aliás, como disse, na livraria há semanas, pedi indicação de uma leitura de algo clássico para ele e não obtive nenhuma resposta significativa. Me resta a esperança do exemplo dada. Se ele vai ler num gadget ou no papel não sei, espero que lei, nem que seja para ter idéias para as séries que planeja produzir.

A arte de colecionar…

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Parece que o pessoal do Lehman Brothers não foi apenas incompetente para gerir banco, o foi também para montar coleção de arte.

Com um passivo de 80 bilhões de dólares, a coleção do banco vai a leilão com uma expectativa de levantar míseros 16 milhões de dólares. Ou seja, mais uma comprovação de que a riqueza já foi distribuída. Esse valor é menos do que os bônus anuais de dezenas, quiçá centenas de executivos. Talvez se os bônus tivessem sido menores, se a coleção fosse mais valiosa, o banco ainda existisse… Sei lá, coleção é algo complexo, parecido com a montagem do catálogo de uma editora. Se for para não vender, o melhor então é ter livros que lhe agradem pessoalmente. Nada pior do que lançar sem gostar por acreditar que vai vender, tão ruim quanto comprar sem gostar esperando a valorização.

Colecionar é uma arte, tal qual editar! Hoje li notícias de apostas sem muita vontade, apenas pelo potencial de vendas. Coisa que tendo a não fazer, o mercado editorial é também uma máfia, mas que seja então uma máfia do bem!

Papel x digital

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Um acredita piamente no papel, outro no digital? Em quem você apostaria só ver futuro no digital, o da direita ou o da esquerda? Sim, é o da esquerda, Ethevaldo Siqueira, especialista em comunicação, colunista de O Estado de S. Paulo, utilizou sua coluna de hoje para fazer previsões do futuro. Imaginou até uma bienal digital em 2025. Imagina o livro em papel como algo para colecionadores, um artigo de luxo.

O da direita é o editor Tyler Brulé, ex-Wallpaper e atual editor da Monocle, revista que aposta na sensação tátil e na permanência no papel. Sua revista em algumas edições parece um catálogo de diferentes tipos de papéis. É algo interessante de ser acompanhado, embora muitas vezes peque pela falta de profundidade. Ele vê sobrevida para o papel.

Como editor ficarei atento, como leitor, ainda gosto do papel e principalmente de olhar para minha biblioteca, mas acredito que apenas o tempo conseguirá de fato acertar essa…

Arnaldo Antunes na abertura da Bienal

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A Bienal do Livro de São Paulo de 2010 foi aberta hoje pela manhã no Anhembi. Mas ontem à noite houve uma bela exposição da Imprensa Oficial  na Estação Pinacoteca: Um convite à leitura.

A Imprensa Oficial é uma editora que tem lançado ótimos livros, daqueles que cumprem uma função importante na cultura de um país, livros que dificilmente dariam lucro, mas são belos e irão reproduzir um tanto do seu tempo no futuro ou já estão resgatando o passado para o presente. Bem melhor do que ficar imprimindo Diário Oficial.

A platéia não estava lotada, Arnaldo Antunes não fez conexão com os livros, mas fez um show dos mais agradáveis. A última vez que o tinha visto num palco deve ter sido há 24 anos atrás, quando ele ainda cantava Sonífera ilha em danceterias bem menores e com uma acústica muito pior do que a Sala São Paulo.

Arnaldo é literatura, não é best-seller nem auto-ajuda, é uma literatura sofisticada mas não erudita. Mas Arnaldo é um artista inquieto, mantém sua expressão corporal das mais estranhas e totalmente harmoniosas com seu estilo, já acalmou, se não a cabeça, pelo menos o cabelo, e busca novas músicas, letras simples e muitas vezes diretas e irônicas, mas sem ficar presos a sucessos dos Titãs ou dos Tribalistas. Estava com preguiça de ir, valeu.

Começa a Bienal do Livro 2010

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Hoje é uma festa na Sala São Paulo, amanhã para profissionais, mas a partir de sexta-feira todos podem ir até o Centro de Convenções do Anhembi checar o que há de novo no mercado editorial brasileiro. O evento concentra lançamentos e é uma festa, algo motivador para crianças. Se está em busca de um bom livro, deve ir, como algo missionário, nada que uma visita a uma ótima livraria não substitua, mas vale sim ter um panorama mais completo.

Programe-se, de 12 a 22 de agosto.

Literalmente um mundo de livros: 130 milhões

O Google anunciou ontem suas estatísticas sobre a quantidade de livros disponíveis para os homens: 130 milhões, excetuando-se é claro as diferentes versões de um mesmo volume. Como é sabido de todos os players deste mercado, nunca será por falta de oferta que ele sofrera, é um mercado muitas vezes carente de demanda.

Ontem a CBL e o SNEL divulgaram os dados de sua pesquisa anual. O quadro continua estático, em tempos teoricamente recessivos, no mundo e não no Brasil, não deixa de ser boa notícia. Os e-books não foram medidos e a pesquisa é conduzida pela FIPE, o que já garante ao mercado, essa instituição vem fazendo isso há alguns anos, uma certa condição de comparação.

Foram produzidos 386 milhões de exemplares, os dados de venda sempre ficam próximos o que mantém nosso índice de leitura por habitante em patamares bastante baixos, ou o potencial do mercado grande, copo meio vazio ou meio cheio? 44% das vendas de livros foram por meio das livrarias, que ainda existem em número aquém do desejável.

Mesa 13: Gullar salvou a minha Flip!

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Esse senhor aí acima salvou a minha Flip, se mais nada tivesse acontecida, ouvir Ferreira Gullar já valeu. Falou de poesia, da sua poesia, falou de arte, falou de um pouco da cultura do Brasil.

Para ele a arte existe porque a vida não basta. Qualquer um deveria prestar muita atenção nesta frase. É uma das definições mais brilhantes que ouvi. Gullar vai voltar a publicar poesia neste ano, merecia um projeto gráfico a altura, ainda mais sendo o esteta que é, mas sua editora não costuma caprichar tanto, espero que me surpreenda. Gullar também disse que só escreve incomodado, que estar em estado de poesia é um momento mágico, mas incontrolável, nada sobrenatural, porém que precisa ativar seus sentidos.

Um pensador, alguém que participou ativamente e de dentro de movimentos artísticos e políticos da cena brasileira. Além do mais, alguém com carisma e história para encantar uma plateia que mais do que pedia um tanto de conteúdo e lirismo numa Flip mais vazia do que anos anteriores. Um pouco de Gullar (trecho de Poema sujo, marcado como esgotado na Cultura, é mole???):
  …
  Ah, minha cidade suja
de muita dor em voz baixa
  de vergonhas que a família abafa
  em suas gavetas mais fundas
  de vestidos desbotados
  de camisas mal cerzidas
  de tanta gente humilhada
  comendo pouco
mas ainda assim bordando de flores
  suas toalhas de mesa
  suas toalhas de centro…

Mesa 12: McCann e William Kennedy um tanto monótonos

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A foto do escritor Colum McCann é de Brendan Bourke, para representar William Kennedy escolhi o cartaz do filme do Babenco, Kennedy, pelo menos de acordo com a voz dos tradutores simultâneos da Flip, não é dos mais simpáticos, parece um tanto castigado pelos anos, foi uma presença um tanto monótona.

A mesa não me agradou, fui com expectativa conhecer McCann, não saí de lá determinado a ler seus livros, as críticas são positivas e consistentes, mas no emocional não fui capturado. Aliás, ficar na tenda do Telão ou então para fora dela é sinônimo de depender dos tradutores simultâneos, sim, são importantes e fazem um trabalho complexo. Mas quando os autores lêem suas obras, eles não traduzem, também lêem dos livros em português, mas parece que traduzem, e é praticamente impossível gostar de uma obra com esses profissionais lendo, não tem vida nem pontuação nenhuma, fica aqui a sugestão para que façam também algumas aulas de interpretação de texto, de leitura, para que o público possa curtir melhor as obras, ter um mínimo do sabor do que o autor fez, também alguns autores são muito melhores para escrever do que ler…

Discutiu-se lugar e o impacto na obra, o específico e o universal, uma certa reverência à importância de Kennedy parecia necessária e foi cumprida. Interessante ouvir de Kennedy o quão ferrado estava e a mudança de vida que um prêmio representou, bem como do decorrente trabalho com Coppola. McCann falou sobre suas viagens pelo mundo e experiência em universos extremos e diferentes do seu, possivelmente ingrediente necessário e tempero de sua ficção.

Grupo Contadores de Estórias - Teatro Espaço

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O teatro de bonecos de Paraty, Teatro Espaço, tocado pelo Grupo de Contadores de Estórias tem um enorme defeito, pelo menos para quem tem filhos e os trás à cidade. Acabei vindo para a Flip em tempos de aula sem os filhos, antes mesmo que completassem os 14 mínimos anos para assistir ao espetáculo.

Valeu a pena? Sim, é de uma delicadeza enorme. Pela primeira vez na vida me dei conta da beleza estética das miniaturas, como o tamanho pode passar mensagens. São 6 ou 7 historinhas, a peça em cartaz é um apanhado do que o grupo já fez de melhor, onde a principal característica é a delicadeza. A boneca da direita aparece em duas delas, é quem mais tem semelhanças com humanos, movimentos inacreditáveis. Mas a beleza maior não é isso, não é ir lá para se ver, mas sim pensar sobre os temas comuns da vida, e perceber que acontece até mesmo com os bonecos.

Se passar por Paraty sem crianças, vá lá, 1 hora simples, sensível e direta.