Assunto: Cultura



Olha onde os livros chegaram…

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Há tempos os livros não eram tão falados. Toda a disputa Kindle, iPad e outros tablets. Fim do papel, só digital e outras questões. Agora eles também parecem úteis ao The Wall Street Journal. Na tentativa de ganhar leitores dos jornais tradicionais o jornal econômico investe em uma versão de final de semana, sou fã da do concorrente Financial Times, que terá um esperado e comentado suplemente de livros, o Books.

Eis a magia deste velho produto, ainda utilizado como formação de imagem, porque fica mais difícil de acreditar que os bitolados de Wall Street querem mesmo saber como anda o mundo da cultura…

Soberano: acho que entendi um pouco o poder do futebol…

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Nem bem havia chegado de viagem no domingo e meu filho me pressionou para assistir Soberano, o filme sobre o São Paulo, as seis conquistas do campeonato brasileiro. Confesso que fui para exercer meu papel de pai de um garoto de 13 anos, acho que não muda mais de time, mas era um esforço pequeno para evitar um palmeirense, corintiano ou santista em casa…

O filme é médio, mas todas as lágrimas que baixaram dos meus olhos me fizeram entender o poder do futebol. Eu que me achava racional e quase intelectual chorando ao lembrar da conquista no Mineirão ou então do jogo praticamente perdido no Brinco de Ouro em 1986. Há uma desnecessária provocação com um torcedor do Corinthians, e muitos gols. Desde que me conheço por sãopaulino muita coisa mudou, já fui minoria, hoje não sou mais. Os que gostam do time vão encontrar emoções que já tiveram.

Fundació Antoni Tápies

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A primeira vez que estive em Barcelona já não devia, mas ainda não tinha a menor idéia de quem era Antoni Tápies, na segunda, a fundação estava fechada para reforma, hoje, consegui conhecer. Recomendo.

São poucas obras, mas além de uma belíssima restauração (infelizmente o terraço superior estava fechado), é possível entender um pouco da obra deste catalão. Me detive muitos minutos assistindo o vídeo e aprendendo um tanto mais sobre sua vida. Havia visto uma individual dele, se não me engano, no CCBB em São Paulo, fala bastante sobre política e também sobre livros, descendente de livreiros e artistas.

De bate pronto apenas consegui lembrar da Fundação Iberê Camargo como similar no Brasil, ou seja, ainda falta muito para valorizarmos e respeitarmos, e portanto elevarmos o nível da nossa cultura, estendê-la a um publico mais amplo, compare-se com o que aconteceu com a obra do Oiticia há pouco e onde estava. O Brasil anda crescendo economicamente, se não crescer culturalmente, vai aumentar o vazio.

Se Nova York tem o Frick, Madri tem o Thyssen

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Espremido entre duas reuniões resolvi usar a horinha que me restou para conhecer o Museu Thyssen-Bornemisza em Madri. Fiz uma associação imediata com o Frick Collection de Nova York, talvez por trazer o nome de uma família de industriais, talvez pela dimensão. O de Madri ganha, a ampliação contemporânea ficou interessante, o prédio está melhor adaptado.

A coleção tem aquela medida certa, um tanto de cada época, algumas peças se não capazes de dar toda as possibilidades do artista, pelo menos mostrando facetas importantes. Vi de arte florentina até Lucian Freud, Rothko, Bacon.

Da próxima vez em Madri vou primeiro a este museu. Imagino que devam ter havido contestações quando há quase duas décadas o governo espanhol resolveu comprar a coleção por 350 milhões de dólares. Acho que o estado cumpriu o seu papel, sem entrar no mérito de valores e negociações entre governos e empresários. A população mundial ganhou um local para abstrair um tanto das concretudes da vida contemporânea.

Cocido madrileño: uma experiência ancestral

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Comida também é cultura. Hoje fui comer um cocido num restaurante mais do que centenário. Tudo era meio ancestral, no sentido mais antigo da palavra, o tamanho do garçom, o estilo da comida, o ambiente. Gostei, mas não é fácil ficar olhando para uma asa de frango branca e cheia de pele na sua frente, nem uma pata de porco destroçada, sem muitos molhos para encobrirem o sabor basal e antigo dos alimentos. Comi como meus antepassados… Não sei se comiam toda a gordura do porco, pus uma lasca na boca.

Reina Sofia, este sim um belíssimo museu!

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Um museu é também, e diria que quase principalmente, um ato arquitetônico. E o Reina Sofia o é. Uma bela integração de um novo prédio de Jean Nouvel a um antigo hospital. Só tem um defeito, não é fácil se achar, algumas partes ficam fechadas e a sinalização interna não é das mais fáceis. Mas isso em nada diminuiu o meu entusiasmo em conhecer. O prédio novo mexe com os sentidos, o terraço de vidro, as dimensões, a vista, foto à esquerda, da biblioteca de dentro da livraria.

Também lá dentro se pode achar algumas obras das mais interessantes. Uma que gostei muito de ver foi do Tapiés uma combinação de cores sensíveis. Entre as novas aquisições, Lygia Clark, Ligia Pape e Mira Schendel. Há coisas questionáveis, mas há peças importantes e ter visto Guernica, um quadro do qual ouvi falar na infância, foi um momento emocionante. Se vier a Madri com pouco tempo e tiver que escolher, eu não teria dúvida, seria este.

Um museu para quem gosta dos séculos passados…

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Não conhecia o Museu do Prado, ontem foi minha primeira visita já sabedor que arte dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX não são o meu forte. Acabei não indo à exposição do Turner, acredito que quem já entrou nos museus londrinos já cobriu esse artista…

E tive a comprovação de que apesar de apreciar Goya, El Greco, Velázquez, Rafael, Tiziano, Rembrandt e Caravaggio, um museu sem século XIX  (final), XX e XXI para mim fica um tanto distante. Na Espanha há também o componente religioso, o quanto a arte serviu para que a religião se estabelecesse e fortalecesse como algo real, concreto. Aqueles imensos quadros a ameaçar o inconsciente das pessoas.

Esopo não deveria ser como Velázquez o retratou (quase uma mulher, alguma rixa existia), assim como as histórias e pecados não foram, mas serviram a um propósito…

Tipos de escritores, segundo Cony!

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O Cony disse na Folha e o PublishNews reproduziu:

Sempre ouvi dizer que há duas maneiras de ser escritor. A primeira, a mais tradicional, é a do refúgio na chamada torre de marfim, em que o autor se isola para não se promiscuir com o mercado. A segunda considera o livro como um elo entre o autor e o leitor, não diviniza nem demoniza a praxe, aceita a regra do jogo e dá o seu recado. Há gênios e imbecis nas duas categorias. Como gênio é coisa rara, e discutível, quem não é gênio precisa pagar o mico e se submeter à sua circunstância. Por tudo isso, salve as bienais, principalmente as anuais.

Concordo com ele, que as feiras continuem a existir e que os gênios e os imbecis existem nos dois grupos, e esses últimos, em escala muito maior. Mas isso não é nenhum privilégio da literatura, um retrato do país, na verdade, da humanidade.

A mediocridade salva?

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Assisti Piscina (sem água) indicação, se não me engano, do Pondé em sua coluna da segunda. Gostei bastante, a interpretação de Ester Laccava ficou acima do grupo, mulheres melhores que homens, e gostei mais do que minha mulher, talvez porque tenha ido já com o briefing, para questionar alguns pontos.

Uma pessoa se destaca de um grupo e só ela atinge a fama e o reconhecimento. Os outros são obrigados a se conformar com sua mediocridade, não sem antes sofrer, praguejar e fantasiar justiça. A vida não é justa, nem sempre os mais talentosos chegam, principalmente se além da sorte, não tiverem uma excessiva persistência e, em alguns casos, até mesmo a disposição de dançar algumas músicas que não gostam, até beirando os limites. Se ultrapassarem, chegam, mas carregam um peso excessivo.

A peça não alivia, é meio agressiva com o expectador, o que é bom. Mas também deve ser a razão para vários lugares vazios, os tais medíocres (não estou me excluindo, inclusive fui em busca da resposta), logicamente a maioria, preferem o riso fácil e até mesmo ridículo desde que não se aproxime. Enfrentar a realidade é para poucos, suportá-la, para pouquíssimos! Mas como dizem os amigos que ficaram na peça, ouvir a verdade muitas vezes alivia.

A beleza das rugas

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Há uma bela reportagem com Ferreira Gullar hoje na Serafina. Texto de Humberto Werneck. Vale ler, quem não está em São Paulo, acho que a revista circula apenas por aqui, pode recorrer à internet ou então aos amigos, o belo ensaio do fotógrafo Murillo Meirelles não se encontra na versão da net e merece ser visto no formatão da revista.

Gullar faz 80 anos no próximo dia 10 de setembro, cada vez mais admiro sua postura, mesmo apelando para as frases de auto-ajuda: eu não quero ter razão, quer ser feliz.

A capa da Serafina é para mim um dos sinais da beleza vivência e da experiência, uma estética da vida. Cada ruga, cada veia, cada pedaço de pele flácida da mão de Gullar deixa claro que a vida, a dele teve momentos dos mais complexos, vale ser vivida e precisa ser aproveitada. Não perca!

Eis um poema do novo livro, Em alguma parte alguma:
Duplo
Foi-se formando
a meu lado
um outro
que é mais Gullar do que eu

que se apossou do que vi
do que fiz
do que era meu

e pelo país
flutua
livre da morte
e do morto

pelas ruas da cidade
vejo-o passar
com meu rosto

mas sem o peso
do corpo
que sou eu
culpado e pouco

Slow reading: não é movimento pró-leitura, é pró-humanidade

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O Sabático de ontem traduz uma ótima matéria de Patrick Kingsley do The Guardian sobre o Slow Reading. Na verdade, vai muito além de ser um movimento que defende a leitura sem pressa ou algo assim, é sobre garantir nossa capacidade de entendimento. Se você está lendo este blog agora corre o risco de estar diminuindo sua interação com o mundo, ao invés de estar aumentando. Há anos, dificilmente saberia que eu existo e quais são minhas idéias, restava-lhe então fontes mais seletivas, porque custavam mais caro, havia um mínimo de seleção (era mínima mesmo, desde o início se publica muita porcaria, seja em jornais, revistas ou livros).

Mas como começa Kingsley, seu artigo tem 10.841 caracteres (versão em inglês, publicada no dia 15 de julho, talvez o mais adequado seja falar em slow translation…), quem o lê na versão impressa deve ler aproximadamente 5.420 caracteres, a metade, mas quem lê on line, deve passar apenas por 2.100 caracteres. Por que? Porque o mundo digital é amplo, mundo vasto mundo, incontrolável e desfocado. Quem entra nele e fica apenas nele corre o risco da superficialidade.

Não estou aqui fazendo uma defesa de editor, sim, vivo disso e gostaria de continuar vivendo, mas defendo a minha convivência com seres humanos minimamente interessantes, pessoas com quem dê vontade deixar o comodismo da interação online e me empolguem a dividir uma garrafa de vinho e algumas horas, nem que seja para repetir o que foi dito no último encontro. Afinal, as pessoas que mais gostamos não falam quase sempre a mesma coisa? Quem não encontra o colega de faculdade e não se vê ouvindo e falando aquele mesmo e velho assunto, o pior, na verdade o melhor, é que, com a mesma empolgação inicial, próxima à empolgação do vivido naquele tempo, isso é humano, gente com gente.

Nicholas Carr defende que as palavras do escritor atuam como catalisador na mente do leitor, mas para chegar a isso, precisa ser escritor, ter alguma formação, alguma vivência, algum talento. O risco que corremos é ficarmos seguindo alguns com pouco ou quase nada a dizer, apenas esboços dos personagens que idealizaram para si num mundo de celebridades e instantâneos. Ler é ruminar o mundo que se cria entre o autor e o leitor, pode até ser digital, vai depender da preferência ou da disponibilidade, mas tomara que não fiquemos apenas restritos aos blogs, twitters, facebooks e seus substitutos. Prefiro ler um bom livro, prefiro uma tela de cinema, o escuro de uma sala de teatro, a dimensão arquitetônica de um museu e de preferência alguém com quem valha a pena compartilhar ou discutir tudo isso. Eu não quero conversar com quem não lê…

Nós olhos dos outros é refresco

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O jornalista Daniel Piza lança esta semana seu novo livro. Abandona temporariamente o estilingue e se coloca como vidraça, daquelas de arquitetura contemporânea, grande, com muito vidro. Noites urbanas foi criticado pela Folha de S. Paulo, não li para afirmar que foi sem base no livro e sim na pessoa, como parece afirmar a pessoa. Piza é feroz em sua coluna, tem não só o direito, mas também o dever. Mas Piza é também humano, o que no interesse desse post, quer dizer vaidoso, e parece lidar mal com a crítica. Na minha opinião deveria aguentar calado, não o fez, utilizou o espaço da sua coluna para atacar, um ataque leve, mesmo assim um ataque defensivo, não deixou os leitores julgarem, como o faz quando é o estilingue em várias obras que aborda no Estadão. Noites urbanas será lançado na Vila da Lorena esta semana.

É duro ser coerente, ainda mais quando, e quase sempre, se quer também ser o outro, do lado de lá…

Brasil está mesmo no moda: blowing in the wind…

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Fábio Cypriano não poupou Bob Dylan na reportagem de ontem da Folha sobre a exposição do cantor passando por pintor em Copenhagen. Acho que tem razão, se não fosse quem é, dificilmente teria espaço num museu. A produção já estaria muito bem colocada numa galeria, isso acaba deixando claro que os museus são também instituições políticas e fazem seu marketing. Uns com Bob Dylan e o retrato de paisagens brasileiras, outros com roupas de designers famosos, e por aqui, uns corpos. Vale tudo para ouvir o tilintar da caixa registradora. Bob Dylan compõe muito melhor do que pinta…

O ranking das mídias sociais

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A foto é da artista Elida Tessler, encontrei na net, o ranking da Daily Beast, a utilidade, sei lá…

O ranking das mídias sociais mais quentes do momento nos Estados Unidos é:

1) You Tube
2) Twitter
3) Tumblr
4) Facebook
5) Foursquare
6) Myspace
7) Skype
8) Flickr
9) Vimeo
10) LinkedIn
11) Posterous
12) Gowalla
13) Bebo
14) Zynga
15) Friendster
16) Playfish

Das 16, conheço 8, uso 6, do restante, tô velho… Ou então, tem muita besteira por aí! Mas quem quiser me apresentar e convencer, estou aberto.

Buying literature has become cool again…

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A frase acima é do professor de comunicação de mídia da Fordham University Paul Levinson. Que bom que enxerga assim, tomara mesmo que a literatura volte a ser algo cool, ou seja, que atraia pessoas que não vinha atraindo, acho que não por falta de oferta, sim por demanda, pelas pessoas estarem preferindo coisa fácil, se é que isto existe.

A frase estava inserida numa matéria do New York Times dizendo que os e-readers deixam as pessoas menos isoladas. Para mim a matéria contém um erro básico. A leitura não é um ato isolante, é um ato mergulhativo, requer esforço e concentração quando é consumida, mas abre portas e mundos depois, possibilita uma convivência mais interessante e saudável, menos superficial. Se aproximar de alguém por um gadget é algo tão bobo quanto se aproximar por um cachorro. Cachorros e iPads têm telefone (talvez a hístória do telefone já esteja ultrapassada), mas é algo passageiro, uma desculpa com prazo de validade. A literatura não só aproxima, mas capacita para conviver, esse sim o desafio da vida. Conhecer pessoas é fácil, mesmo para quem é tímido, conviver com pessoas, e bem, eis algo já não encontrável em lojas de artigos, nem de 1,99, nem de luxo…

Seth Godin x editoras

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Uma notícia que rola pela net é que o “guru” Seth Godin desistiu das editoras. Eu como editor, nunca optei por ele, não preciso portanto desistir agora…

Para mim Godin é um marketeiro interessante, mas alguém consciente de que precisa dos livros para vender palestras e consultorias. Lá fora diz fazer sucesso, por aqui, já transformou muito papel bom em encalhe. Estou com isso dizendo que ele está errado em confrontar as editoras e seus modelos de negócios? Claro que não, acho que o momento é propício para que todos revejam seus interesses, suas expertises, suas possibilidades. Cada um deve sim exigir o melhor para si, mas é preciso reconhecer que os editores, uma grande parte deles, faz um trabalho descente, esforçam-se e correm riscos por seus autores. Não dá para retribuir com remuneração equivalente ao que se ganha e cobra no mercado de palestras ou consultorias, mas é preciso sim ver as escalas.

Estou voltando agora ao mercado, animado que vai crescer. Existirão aqueles que querem ir direto com uma livraria? Sim, existirão, estão errados? Não sei, ainda acho que livro é um tipo de produto não tão igual aos outros, requer um certo trabalho, e principalmente um tempo para ser deglutido.

No Link de segunda há uma interessante matéria com Nicolas Carr, não sei se esse também desistiu do formato tradicional, pelas suas idéias, acredito que não, mas prega que a rede está “emburrecendo” as pessoas, no mínimo estaríamos ficando mais superficiais e menos focados, com menor capacidade de processamento vertical. Isso é sério, qualquer pessoa na meia idade olha para um jovem com um misto de inveja por perceber nele a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Como tudo na vida, o que não está sendo considerado é o custo, e tudo tem um preço. Os jovens tem uma enorme capacidade horizontal, migram de um aplicativo ou programa para outro com leveza absurda, o que não sabem é como vão encarar um tal vazio criado pela falta de densidade, um dia ele vem.

Então, calma lá. Que editores, muitos deles, estão velhos e precisam olhar o mundo com outros olhos, sim, precisam, mas não será seguindo os senhores Godin, Covey ou Coelho que o mundo vai começar a resolver seus problemas.

Caros autores e futuros autores, nós aqui sim pretendemos e vamos trabalhar também nas plataformas digitais, porém ainda acreditamos no livro em papel como algo prático, até com um componente que beira o sagrado, no sentido de um produto capaz de ter auxiliado a humanidade a sair das trevas, e que o homem, no seu caminho individual, quer mesmo é percorrer uma longa e desafiadora viagem para terminar reconhecido por poucos, aqueles que lhe fazem sentido, cercado de sua história, da maior parte dela que puder.

Nós vamos continuar tentando atrair autores, mas só aqueles que acreditam que existem profissionais que agregam valor às suas idéias, interlocutores capazes de ajudá-los a desenvolver melhor seus conteúdos, que entendem de formas de empacotar e que podem sim separar o joio do trigo. Para os que vêem apenas uma commodity de varejo, façam seus acordos diretos com livrarias ou sites de venda, vão ganhar mais, que a busca pelo seu algoritmo seja bem-sucedida, vou ficar por aqui de olho aberto tentando aprender, vendo onde posso aplicar o meu talento em resolver alguma frase, escolher um título, um subtítulo, um detalhe ou uma capa inteira.

Há aqueles que acreditam que tudo é apenas comercializar, esses dificilmente terão lugar na Livros de Safra, porque o nosso nome vem de agricultura, de um esforço em trabalhar a terra e encontrar as melhores condições para as sementes darem fruto, ciente de que as condições climáticas podem complicar. Um desabafo a uma mídia que abre espaço para muita coisa boa, mas também para muito lixo. Já disse aqui várias vezes: pare de ler esse blog e vá ler um grande escritor, um grande livro, com certeza terá mais lastro, um lastro de pensamento, capaz de iluminar um pouco quando estiver no meio do blackout causado por tamanho amontoado de frugalidades e besteiras.

É melhor conhecer o inimigo: White Collar

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Tive um final de semana diferente, li menos do que assisti televisão. Mas era o que tinha que ser feito, tudo começou na mesa, numa conversa familiar, meu filho apontando seu entusiasmo com as características do herói da série White Collar, que seu professor tinha erroneamente já explicado como crime do colarinho branco, não apenas como pessoas que trabalham em escritório, em oposição aos operários.

Como o assunto já o tinha feito aprofundar e inclusive pensar em vestir-se diferente para ir à escola, resolvi entender do que se trata. É mais uma série onde o bonitão, é esperto, no sentido ruim da palavra, um estelionatário, um falsificador dos mais inteligentes, une-se ao policial bonzinho e caretão e passam a desvendar melhor os crimes.

Pode até haver uma representação real e natural da natureza humana, mas que é estranho ver o seu filho querer ser tipo o cara, isso é, mas é melhor que seja assim agora, aos 13, e me alerta para o quanto de trabalho terei pela frente, do que aconteça depois. Mas o ritmo e os clichês são interessantes, suficientes para ser difícil que ele abra um livro, algum clássico. Aliás, como disse, na livraria há semanas, pedi indicação de uma leitura de algo clássico para ele e não obtive nenhuma resposta significativa. Me resta a esperança do exemplo dada. Se ele vai ler num gadget ou no papel não sei, espero que lei, nem que seja para ter idéias para as séries que planeja produzir.

A arte de colecionar…

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Parece que o pessoal do Lehman Brothers não foi apenas incompetente para gerir banco, o foi também para montar coleção de arte.

Com um passivo de 80 bilhões de dólares, a coleção do banco vai a leilão com uma expectativa de levantar míseros 16 milhões de dólares. Ou seja, mais uma comprovação de que a riqueza já foi distribuída. Esse valor é menos do que os bônus anuais de dezenas, quiçá centenas de executivos. Talvez se os bônus tivessem sido menores, se a coleção fosse mais valiosa, o banco ainda existisse… Sei lá, coleção é algo complexo, parecido com a montagem do catálogo de uma editora. Se for para não vender, o melhor então é ter livros que lhe agradem pessoalmente. Nada pior do que lançar sem gostar por acreditar que vai vender, tão ruim quanto comprar sem gostar esperando a valorização.

Colecionar é uma arte, tal qual editar! Hoje li notícias de apostas sem muita vontade, apenas pelo potencial de vendas. Coisa que tendo a não fazer, o mercado editorial é também uma máfia, mas que seja então uma máfia do bem!