Nasci numa família onde os avós dos dois lados haviam sido políticos, não dos bem-sucedidos, prefeito e vereador de cidade do interior, um até exerceu certa influência regional. Tenho algumas parcas cenas na memória, seja de aos, 4, 5 anos subir nos palanques de um candidato que deveria ter dois símbolos: uma espiga de milho (que literalmente era jogada na casa dos adversários) e um revólver (supostamente demarcando toda a macheza do candidato). Antes de achar aqueles tempos absurdos, dispa a fantasia do politicamente correto e se questione se não ficar na palhaçada da estatização da Petrobrás ou na discussão do aborto não é muito pior.
O outro momento foi quando Ulysses Guimarães foi visitar Itapeva e foi recebido em casa, acredito que como uma homenagem ao passado do meu avô, naquele tempo já falecido.
Aos 15 anos por livre e espontânea vontade fui a um comitê do candidato Franco Montoro e comecei a fazer campanha. Na eleição seguinte virei petista e dentro da GV, para muitos um antro de direita, fiz campanha para a prefeitura pelo Eduardo Suplicy, contra Jânio e Mario Covas, fiz boca de urna, tudo isso depois de ter xingado a Rede Globo na campanha pelas diretas. Cansei um pouco do PT, alguns diriam que iniciei minha movimentação para a “direita” (ainda existe gente no mundo que, pela necessidade de pólos opostos, acredita em esquerda e direita), participei no teatro Zaccaro da fundação do PSDB, partido que apoiei por um longo período.
Tudo isso para dizer que fui um jovem politizado, alguém que estranharia as posturas que assumi na meia idade. Comecei pela eleição passada, pela primeira vez na vida anulei um voto, não gostava do Lula (ainda ressabiado pela história do mensalão, correios, mas principalmente pela morte dos prefeitos. Acho que mesmo as máfias puras têm um código de ética. Roubar pelo partido é condenável, não participo de política por isso, mas matar ou ver matar pelo partido é inaceitável, e os religiosos do PT viram e não se manifestaram, em nome de um bem maior, muitos desses que em nome desse mesmo algo maior, condenam o aborto), nem do Geraldo Alckmin, um político insosso e metido a bom moço.
Nessa eleição, não participei das discussões, preferi viajar no primeiro turno por estar desanimado a escolher candidatos aos cargos, mesmo sabendo que a alienação (sou cruel comigo mesmo) está longe de ser a solução. Mas ando cansado com a hipocrisia e desafio qualquer político nesse país, qualquer, a bater no peito e falar que não fez, ou se viu, denunciou alguma sacanagem a apenas alguns metros de distância. Esse político não existe, todos se renderam às supostas maneiras como as coisas são feitas.
Hoje saio para votar, com apenas uma única certeza. Nem Dilma Roussef, nossa próxima presidente, nem José Serra, o candidato derrotado (minha opção de hoje), nem qualquer outro político desse país saíram maiores dessa eleição. Ao concordar com a apelação dos assessores diminuíram suas biografias, ao sonhar chegar ou temer não chegar, extrapolaram qualquer noção de parâmetro mínimo, tentaram falar da pior maneira possível para o lado mais ignorante da sociedade brasileira, deram pão e circo porque concordaram que é disso que o povo precisa. O povo na verdade precisava de propostas e de candidatos dignos, não o foram, um acusando o outro lado, mas na verdade, os dois reféns da vaidade própria. Quem precisava ganhar era o Brasil, quem ganha hoje é um grupo, um ganho muito menor depois de forçar a sociedade ao ouvir e ver a quantidade de absurdos que se passaram nesta campanha.
A um dos maiores animais políticos que já tive notícia, o presidente Lula, a recomendação de que, vencida está etapa considerada tão fundamental, deixe que o bom senso e a razão comecem a invadir aquele corpo e mente, e que consiga saber que a história escrita é diferente das respostas do clamor da multidão assistida, dos interesses privilegiados. Cuidado com a vaidade, ele é cruel com todos, inclusive comigo que me achei capaz de dizer essas palavras…