
Ouço dizer que algumas relações pai-filho são das mais tranquilas e próximas. Acredito? Por vezes me parecem aquele papo entre amigos, quando um narra ao outro a conquista da noite anterior, sempre há muito de exagero. Será porque não tive que fiquei assim? Ou é minha incredulidade?
Já tinha lido Carta ao pai, li agora Ribamar. Depois dos dois, já não sei como me portar diante do meu filho. José Castello foi mais corajoso do que Kafka, este não tinha grandes planos de ser publicado, talvez sonho, entregou para a mãe. Castello fez de forma premeditada. Lavou a roupa suja no tanque público da vida, e o fez de forma bastante densa, tudo o que envolve de maneira não leviana a relação pai e filho é profundamente denso, e com momentos brilhantes.
Leva a vantagem, que também Kafka tinha, de ser apenas estilingue, ser vidraça e olhar para os descendentes deveria impactar a forma de escrever, a busca seria outra, a visão mais completa. Eu já fui estilingue e hoje me vejo mais tempo como vidraça, tentando não esquecer as vezes em que tensionei a borracha e soltei a munição, para que meu filho possa fazer o mesmo, por mais que dou e tenha me preparado para diminuir sua ira.
Além da relação familiar, o livro explora bastante e bem a relação com a literatura, o papel desta na existência. A estrutura é um tanto fragmentada, mas a sequência não se prejudica e poucas vezes se vê um escritor tão nu diante do passado, presente e futuro. Sim, o tal Ribamar já não está aqui, mas tem vários representantes e como o próprio livro deixo claro, está inteiro dentro do autor. Vários grifos, poderia fazer um post enorme aqui só deles, eis alguns para você verificar se tem coragem de ler, não se esqueça que o autor teve a de escrever, mas quem lê olha necessariamente para o seu pai, ou para o espelho como pai de outra forma. Ainda não sei quando será a próxima vez que encararei o meu:
“Ainda muito jovem, compreendo que os homens se fortalecem pela capacidade de não ver. Não ver, não sentir, não pensar: isso é a força. E o que chamam de ‘frieza’”.
“Posso tudo: e é contra isso - contra esse tudo - que devo lutar para conseguir escrever. Um escritor que pode tudo nada tem a dizer.”
“Sua presença desmentia o que a ausência me dava. Eu tinha (todo filho tem) um ideal de pai que o próprio pai desmente. Ausente, eu o sentia. Presente, nós nos perdíamos.”
“Leituras parecem voos para fora, com que nos distanciamos (fugimos) do mundo. Na verdade, são voos para dentro, com que cavamos o que estamos destinados a ser.”
“Toda pergunta sobre o pai é, sempre, uma pergunta sobre si.”
Só não gostei do final, mas isso não tem a menor importância diante de um livro desses. Aliás, até agora se falou e escrevou pouco, a história e a coragem em escrever pedem mais posições de críticos e jornalistas, que falem do livro, que falem de seus pais, mas não ignorem um assunto tão freudiano e vital como esse. Sim, é um livro para quem tem filho, tem pai, ou reflete e procura qualquer um deles. Há tempos me pergunto se não foi a dureza do meu pai uma das razões principais de minha formação, no sentido positivo e superador da palavra. Há tempos me questiono se preciso me afastar do meu filho, não tenho querido, mas tenho convivido com a dúvida de, ao ser amoroso e próximo, estar sendo mesmo é egoísta e impedindo que ele se forge, masculino demais? Não sei, não tenho a mínima idéia da reação de uma mulher diante deste livro, nem sei se elas deveriam ler… Que leiam então para entender um pouco dos homens e participar das reflexões masculinas de pai e filho, mas nunca com muito cuidado para não misturar tudo e por o meloso carinho feminino, também necessário, mas proveniente de outra fonte!