Assunto: Indicação de leitura



Poesia lida na livraria, desculpa Fabrício

esquimo.jpg

Li várias matérias sobre o novo livro de Fabrício Corsaletti, todas elogiosas. Já dei uma enorme bronca num presidente de empresas que confessou um dia ter lido um livro por mim lançado em algumas visitas à livraria. Ele concordou comigo e depois, quando escreveu seu livro, me procurou.

Achei que podia mudar de lado. Ao invés de dar a bronca, ser passível de recebê-la. Em duas visitas a livraria li o Esquimó. Gostei, não consigo reproduzir aqui nenhuma estrofe, nenhum poema, ao final, quase comprei, mas estava imbuído da experiência, mantenho essa dívida com Corsaletti, o próximo, compro. Me pareceu um poeta maduro com a palavra, apesar da idade. Prefiro ter os livros que leio, mas era um texte. Quem comprar este, não vai se arrepender, eu não comprei e estou arrependido…

Leitura para editores

vendedor-de-livros.jpg

Quem já passou pelo mercado editorial conhece Milton Assumpção, o risco de ousar ter uma marca pessoal é ser lembrado por ela. Milton tem uma cabeleira diferente, pode até me acusar de invejoso, já que sou quase careca, mas a dele é comentada nas feiras internacionais.

Isso talvez ajude a compor o personagem que soube diante de uma oportunidade, pegar o cavalo encilhado, e no caso dele, estava mesmo, era a McGraw-Hill, querendo deixar o Brasil, ousou deixar uma posição de executivo e virou empreendedor, fez a empresa crescer, vendeu para outra multinacional e depois voltou a atuar novamente no setor.

O livro conta alguns cases de marketing, interessantes para outros editores, raça tão acostumada a nada fazer, colocar o livro na piscina e ver se algo acontece, calma, eu também reconheço as dificuldades, mas a maioria é mais acomodada, como se diz por aí, joga-se o livro na piscina, se ele souber nada, sobrevive, se não, morre afogado. Milton causava burburinho com seus estandes, lançou livros lá fora. É uma leitura útil para quem é do mercado, para quem não é, existem livros onde se tinha mais grana para a promoção, possivelmente professores melhores.

Com 100 anos de atraso

joaquim-nabuco.jpg

Conclui a leitura do perfil de Joaquim Nabuco escrito por Angela Alonso. Trata-se de uma leitura bastante agradável, com um estilo romanesco, bastante elogiável, ainda mais por se tratar de alguém com uma formação acadêmica em humanas, geralmente com cacoetes de intelectualismo e proposital falta de clareza, garantia de sucesso e sinônimo de inteligência entre os colegas.

Angela escreveu um livro muito gostoso. Infelizmente eu pertencia a geração que foi ensinada a louvar Rui Barbosa o Águia de Haia, sabia pouco de Nabuco até esta leitura. O livro também mostra como as coisas aconteciam e ainda acontecem, a junção do político, do social e do econômico. Nabuco foi figura das mais interessantes da história do Brasil, um digno representante de uma elite que faz falta, “que pensa, que assume o posto, faz a festa, mas não arrebenta”…

Ele perseguiu uma causa, descoberta no meio do caminho, por ela e por um lugar mais destacado abriu mão do dandismo. Não quis ou não soube fazer um outro jogo que talvez lhe garantisse uma vida mais confortável. Mas a família de Eufrásia Teixeira Leite não queria ser trampolim para nenhum bonitão, bom de discurso e ruim de bolso.

Nunca fui dos mais simpáticos a reis e imperadores, mas lendo este perfil fica fácil descobrir que a implantação da República também foi uma festa.

Dicas para escrever

preparacaodoescritor.jpg

Acabei a leitura de A preparação do escritor de Raimundo Carrero, um livro estruturado em aulas, apresentando a teoria do autor em como escrever, compor um romance.

Não fiz os exercícios e não gostei tanto do tom de intimidade, tentativa de reprodução de um papo, impossível, ou pelo menos forçado, mas o conteúdo, a teoria literária estão lá. Serve como fonte de reflexão e informação, para mim serviu como comparação à primeira versão do livro que escrevi, Infidelimizade, obra que está descansando mais algumas semanas, quando pretendo retomá-la, fazer os ajustes e daí tentar a publicação.

Não sou muito adepto dessas regras, muitas vezes existem apenas para dar parametrização para todos, mas se você sabe e conhece, leu bastante, tem muito mais liberdade do que insinuam esses teóricos. Na literatura, como em qualquer outra área, a regra se adapta ao sucesso de alguém que não a seguiu…

Amigos de infância, expectativas familiares e natureza humana

pastoral-americana.jpg

Com este livro, Pastoral americana,  Philip Roth ganhou o prêmio Pulitzer de 1997 ou 98, já não sei. O livro narra a história de um jovem bem-sucedido, bonitão, o melhor esportista e com tudo para dar certo na vida. Deu? Até um certo ponto. Ficou muito aquém do que prometia porque queria agradar a todos e acabou não se libertando nem criando vida própria, assumiu a fábrica de luvas do pai.

Viveu à sombra do pai, um judeu imigrante, a quem desafiou apenas ao casar com uma católica, quase miss América. A filha resolveu, num mundo cercado pelas questões da Guerra do Vietnã e pelas transformações do capitalismo americano, ser simpática a causa dos mais pobres. Acabou envolvida em questões guerrilheiras e transformou a vida da família.

O livro em alguns momentos parece um pouco mais longo do que o necessário, mas há momentos de pura dureza e profundidade de Roth. Pai e filho, marido e mulher, filha e pai, marido exemplar e amante, irmão e irmão, são relacionamentos explorados de forma crua e direta.

Daquelas obras que te deixam pensando por tempos e olhando para a sua própria vida e família e tentando encontrar semelhanças, ou melhor, as diferenças para sentir-se um pouco aliviado.

Haicai, não sei se entendi, mas que gostei deles, gostei

boacompanhia.jpg

Estava com o livro Boa Companhia, Haicai, organizado pelo Rodolfo Guttila há dois meses na cabeceira. Haicais são leituras fáceis, gostosas. Tinha a expectativa de entender a teoria por trás, confesso que não consegui. Para mim faltou um quadro explicativo, sei que pouco poético, mas talvez útil. Mas isso de nada importa. Se eu fosse você comprava e lia. Por que? Vou responder com apenas 3 Haicais, que parecem dizer pouco, só uma ilusão do tamanho, mas dizem muito…

Falamos tudo e ainda
há o que
silenciar (Carlos Vogt)

Não tenho dinheiro no banco
porém,
meu jardim está cheio de rosas (Carlos Drummond de Andrade)

abrindo um antigo caderno
foi que descobri
antigamente eu era eterno (Paulo Leminski)

4 vai, mas poderiam ser mais.

À bengala
Contigo me faço
pastor do rebanho
de meus próprios passos (José Paulo Paes)

Não erre porque não vai esquecer…

tenho-algo-a-te-dizer.jpg

Tenho algo a te dizer foi o último livro que li em 2009. O psicanalista criado por Kureishi trouxe um pouco do que eu buscava sobre a função, mas o livro é mais sobre o mundo pop do que o divã. Gosto do jeito que Kureishi escreve, escritor maduro, denso. O livro é um pouco mais longo do que deveria, mas mesmo assim fui fácil até o final, aliás, engrenei da metade em diante.

Não me lembro o outro livro que li dele. Assisti Minha adorável lavanderia, filme que o projetou e retirou do anonimato. Lembro pouco, hoje enquanto escrevia e alguém assistia algo na televisão ouvi que foi um dos poucos trabalhos, aliás, quase o de surgimento de Daniel Day Lewis, um ator de verdade, pouco afeito a concessões para apenas faturar mas que sempre acabam influenciando negativamente a filmografia das pessoas.

Neste livro tudo pode, as relações são frágeis e no mínimo fica claro que todos carregamos sim o que fazemos, pela vida toda. Kureishi expõe de forma límpida que cada um traz consigo seus erros, muito mais do que seus acertos…

Balanço da leitura em 2009 - 52 livros

Foram 52 livros lidos em 2009 e comentados aqui neste blog. Continuo a acreditar que o que é medido, pode ser melhor desenvolvido.  Não incluo na listagem livros lidos profissionalmente, para edição. Inclui alguns sobre o mercado ou sobre escrever ou editar, mas não os da Virgília ou Alfaiatar, mesmo porque, alguns desses, leio mais de uma vez…

Eis a listagem mês a mês:
Janeiro
1 - Irmãos Karamabloch - Arnaldo Bloch
2 - O africano - Le Clézio
3 - Entre nós - Philip Roth
4 - Livro dos provérbios, ditados, ditos populares, e anexins - Ciça Alves Pinto

Fevereiro
1 - O eterno marido - Dostoiévski
2 - Inimigos da esperança - Lindsay Waters
3 - A arte de recusar um original - Camilien Roy
4 - A literatura em perigo - Tzvetan Todorov

Março
1 - Desvirando a página - Ignacio Loyola Brandão
2 - Foi apenas um sonho - Richard Yates
3 - Um jogador - Dostoiévski
4 - No mundo dos livros - Jose Mindlin
5 - A cidade perdida - Milton Hatoum

Abril
1 - Elogio da madrasta - Mario Vargas Llosa
2 - O negócio dos livros - Andre Schiffrin
3 - Leite derramado - Chico Buarque
4 - A arte da vida - Zygmunt Bauman
5 - Filha, mãe, avo e puta - Gabriela Leite

Maio
1 - Questões de honra - Louis Begley
2 - Pequeno guia histórico das livrarias brasileiras - Ubiratan Machado
3 - Zazie no metro - Raymond Queneau
4 - Honestidade por aproximação - Wanderléia Farias
5 - Invenção e memória - Lygia Fagundes Telles
6 - A trégua - Mario Benedetti

Junho
1 - Indignação - Philip Roth
2 - A identidade - Milan Kundera
3 - Cine Prive - Antonio Carlos Viana

Julho
1 - Outra vida - Rodrigo Lacerda
2 - A arte de ler - Emile Faguet
3 - Jó - Joseph Roth
4 - Anjo Pornográfico - Ruy Castro

Agosto
1 - Ensaio autobiográfico - Jorge Luiz Borges
2 - Agrestes- Joao Cabral de Melo Neto
3 - O pai dos burros - Humberto Werneck
4 - A marca Humana - Philip Roth

Setembro
1 - Olhos secos - Bernardo Ajzenberg
2 - Lições sobre 7 conceitos cruciais da psicanálise - J. D. Nasio
3 - Fernando Pessoa - poemas escolhidos + A imortalidade
4 - No teu deserto - Miguel Sousa Tavares

Outubro
1 - Os cus de judas - Antonio Lobo Antunes
2 - Os emigrantes - W Sebald
3- Felicidade conjugal - Lev Tolstoi
4 - Vozes do sótão - Paulo Rodrigues

Novembro
1 - O lobo - Joseph Smith
2 - Sobre os escritores - Elias Canetti
3 - O seminarista - Rubem Fonseca
4 - Os bastidores da internet no Brasil - Eduardo Vieira
5 - Estrela distante - Roberto Bolano

Dezembro
1 - O serelepe - Ruy Mendes Goncalves
2 - Em defesa da psicanálise - Elisabeth Roudinesco
3 - Um psicanalista no divã – J.D. Nasio
4 - Clarice na cabeceira – Clarice Lispector
5 -Tenho algo a te dizer – Hanif Kureishi

Fui procurar uma grande escritora, encontrei um mito

claricenacabeceira.jpg

Comprei todo animado o livro de contos de Clarice Lispector, Clarice na cabeceira, na verdade, contos escolhidos por 22 personalidades que fazem uma breve introdução, supostamente a razão pela qual aquele é o conto de preferência.

Como já disse aqui, Clarice não é minha especialidade, não ficou mais depois da leitura. Gostei mesmo de 3, 4 contos, com o restante uma relação fria, são bem escritos, mas, heresia à parte, marcaram-me menos que Antonio Carlos Viana, por exemplo, o melhor livro de contos que li no ano, melhor que Milton Hatoum.

Me impliquei com o texto introdutório da maioria dos selecionadores. Quase sempre pessoas colocando a autora num pedestal distante, mais do mesmo e sem acrescentar muito. Talvez se assumissem um papel de divulgadores da obra de Clarice, se é que ela precisa disso, seriam mais úteis do que fãs assumidos diante de um mito. Vou dar o exemplo de Maria Bethânia, correndo o risco de ser injusto com a cantora: “Não posso fazer um texto sobre Clarice. Minha admiração  por ela e pelo trabalho dela, sua obra, me faz, me obriga a reconhecer que não sou capaz de comentar o que for sobre sua obra. É que sempre parece impossível pra mim dizer não a qualquer coisa sobre Clarice. Mas a consciência deve ser ouvida. A razão também. Não sou capaz. Sou muito pequena para tecer comentários sobre ela. Dizer textos dela posso, como intérprete. Daí a escrever sobre sua obra, ou escolha de sua obra, vai um longo caminho.” Então para que colocar isso?

Por uma questão de razão, continuarei a buscar sua obra, mas essa não é uma decisão de estômago, de coração. Meus preferidos foram: Amor, A bela e a fera, Feliz aniversário e Felicidade clandestina.

Para entender de psicanálise, mas principalmente de humanos

psicanalista-no-diva.jpg

Continuo meu trabalho de composição de personagem. Acabei de ler Um psicanalista no divã, do argentino, radicado em Paris,  J. D. Nasio. Na verdade o livro é uma grande entrevista onde é possível passar ou repassar pelos principais conceitos constitutivos da identidade humana.

A leitura flui rápido, os exemplos são claros e o assunto é dos mais interessantes. Defende sua causa? Claro que sim, mas também deixa transparente a questão das diferenças entre os vários psis. Gostei especialmente de duas partes: o amor e o prazer sexual e A sós com a criança. O ódio e a amizade, também é de extrema utilidade para quem anda comparando estações erradas. Há nela uma bela definição de amizade.

Na parte que aborda os sexos além da diferenciação entre a homossexualidade masculina e feminina, há uma interessante exposição sobre os homens impotentes e as mulheres abandonadas. Para Nasio, a pergunta essencial para uma mulher é: O que quer uma mulher? Já para os homens: O que pode um homem? São essas perguntas que a espécie não consegue responder e por isso muitas vezes sente-se atormentada. Aí vamos cair no ciúme, inevitável na relação humana. O da mulher é decorrente da angústia de perder, o do homem, pelo desejo de dominar. É claro que no caso do homem há o medo da humilhação e do abalo de sua virilidade, outro ponto bastante discutido no livro. O avanço das mulheres e uma série de mudanças de hábitos deixaram os homens se questionando sobre seu verdadeiro papel no mundo. À muitos só resta o divã…

Em defesa da psicanálise: Elisabeth Roudinesco

emdefesadapsicanalise.jpg

Meu principal plano pessoal é escrever uma novela, talvez um romance, estou engrenando. Um dos principais personagens é um psicanalista e isto tem me levado a fuçar livros na área. Acabei de ler o da psicanalista e historiadora Elisabeth Roudinesco. Na verdade, ela não escreveu Em defesa da psicanálise, foi o também psicanalista Marco Antonio Coutinho Jorge, quem organizou e compilou textos e entrevistas dela.

A leitura me acrescentou vários novos conhecimentos. Soube um pouco mais de Freud, Lacan, mas fiquei mesmo surpreso foi em descobrir o envolvimento de Jung com o movimento nazista. Roudinesco aponta o quanto os Jungianos manipularam traduções, interpretações e tudo o mais para diminuir a ligação que existiu. Vou procurar um pouco mais, até já fiz terapia com um Jungiano, mas na época não sabia para discutir. Há também a contestação de que Freud nunca falou que estaria levando a peste para os Estados Unidos. Parece ter sido um jogo dramático de Lacan. Aliás, fica claro que a psicanálise conseguiu resistir a muitas disputas, vaidades e manipulações. Interessante leitura para quem quer conhecer um pouco mais do que se passa num divã, antes, durante ou depois.

Do privado ao público: O serelepe, história de Ruy Gonçalves da Saraiva

serelepe1.jpg

No início da semana fui ao lançamento do livro do vice-presidente do conselho da Saraiva, Ruy Mendes Gonçalves, O serelepe. Não conheço o Ruy pessoalmente, mas já ouvi muitas histórias dele, como fornecedor ou agora como parceiro da Saraiva, os livros da Virgília são editados e comercializados pela Saraiva.

Mas minha “ligação” com o Ruy começou muito antes, logo na minha entrada no mercado editorial. Quando a Negócio Editora era ainda um plano, minha mulher e sócia tinha uma representação de peças de design. Estávamos vendendo para uma loja no Shopping D&D quando comentamos que estávamos abrindo uma editora. A dona da loja riu, perguntamos por que? Respondeu. O pai trabalhava na Saraiva. Com o conhecimento de então perguntamos se a Saraiva não poderia imprimir os livros para nós. Ela ligou depois de alguns dias e disse que não era possível, tinham vendido a gráfica, mas indicava uma outra, deveríamos falar em nome de Ruy Mendes Gonçalves. Seguimos o conselho e fomos muito bem atendidos, nenhum cadastro solicitado, tudo pareceu muito fácil.

Demorou para descobrirmos que era o presidente da Saraiva, figura importante no crescimento da história, história aliás que vim a descobrir de fato agora, na leitura de O serelepe.

A leitura é rápida e gostosa, Ruy foi buscar um amigo meu bastante competente, o escritor Thales Guaracy. Thales respeitou o estilo do Ruy, até acho que poderia ter sido mais insistente em alguns pontos. Mas pelo que sei, Ruy é persistente e determinado, imprimiu seu estilo à sua história.

O livro é corajoso, diferente do que se vê por aí, o projeto gráfico para mim deveria ser mais clean, se em alguns momentos carrega nas tintas pessoais, em outros abre precedente importante para que empresários e executivos bem-sucedidos sejam mais sinceros em tratar de importantes questões pessoais. Poderia ter tido mais da história da Saraiva, mas esse é um livro de um Mendes Gonçalves, fundamental para que a Saraiva se tornasse o que se tornou, mas não apenas um Saraiva. Num mercado tão carente de histórias, eis uma que dá ao leitor a oportunidade de saber sobre livros, livrarias, editoras e leitura, e também sobre relações pessoais.

Não sou mais virgem de Bolaño

estrela-distante.jpg

Acabei de ler Estrela distante, um dos primeiros romances de Roberto Bolaño. Demorei para engatar, fala de oficinas literárias, fala de literatura, mas no fundo fala de política, de regimes políticos, de ditadura, de esfacelamento de vidas e sonhos.

É um autor que exige do leitor, cheio de citações, pessoas e livros, parte criadas, parte eruditas. Não pensei muito bem se é alguma metáfora as poesias escritas por aviões que o personagem duplo escreve pelos ares. Tem algumas descrições e comparações brilhantes, e outras um tanto enfadonhas. Tem um absurdo aceitável e esse talvez seja sua graça. Cabe lembrar que, se pudesse, Bolaño seria apenas um poeta alternativo. A responsabilidade da vida, os filhos, o fizeram partir para a ficção e ser visto como um dos principais nomes da literatura latino-americana do século XX. Não dá aquela sensação de apego, de compulsão, você vai indo, tentando descobrir onde chegar, nãáo existem caminhos óbvios, e para decepção de alguns, nem conclusões…

Uma história gostosa de ler e de ver que os Fodas também erram…

osbastidoresdainternetnobrasil.jpg

Tive uma reunião com o Eduardo Vieira na quinta passada, discutimos alguns projetos interessantes e ele me deu seu primeiro livro: Os bastidores da internet no Brasil. Disse que era rápido de ler.

Eu estava lá na Vila do Silício, mas vivia de livros, não embarquei na onda da internet (arrependido?), conheço alguns dos depoentes, já fui sócio de outro e continuo amigo dele, sou amigo de outros, não era algo distante. Comecei a dar uma espiada e quando me dei conta, não queria parar de ler. Foi minha leitura de feriado, como escrevi para o autor, furando fila de Bolaño e a biografia do Plínio Marcos.

É um livro reportagem e mostra os acertos, erros, pretensões, furadas e bolas dentro da internet brasileira. É interessante ler agora, passados 6 anos. Muito ainda vem sobre o assunto, mas já deu para dar uma consolidada em outros pontos. Conclusão? Com muito dinheiro, se ganha muito dinheiro. Mas também, com muito dinheiro, se perde muito dinheiro.

Se você enriqueceu com a internet, já deve ter lido. Se você ficou no sonho, talvez descubra alguns porquês.

Rubem Fonseca na fila do Bradesco

oseminarista1.jpg

Fui fazer uma operação que imaginava um tanto demorada na fila do Bradesco. Como sempre, livro salvador a tiracolo. A operação demorou bem mais do que o imaginado, não surtei porque lia o novo Rubem Fonseca, O seminarista.

A leitura prende a atenção, se impõe aos vários e repetidos comentários dos motoboys sobre futebol, churrasco e é claro, Geisy da Uniban. Me tomou pouco mais do que 3 horas. Quando acabei o livro, aí sim, pressionei por uma solução.

Não lia Rubem Fonseca há vários anos. Ele continuou recluso, eu mergulhei fundo em vários autores. Nos distanciamos um pouco. É gostoso, mostra o mundo como “ele pode ser e preferimos imaginar que não seja”. Mas fica muito no policialesco, senti falta de um pouco mais de drama íntimo do narrador, se não narrado por ele, pelo menos por outro. Gostaria de conhecê-lo melhor. Mas gostei, um bom presente.

Um livro sobre escritores, mas de alto nível, não tão atrativo.

sobre-os-escritores.jpg

Li o livrinho do Canetti, Sobre os escritores. Primeiro, não dá para não citar o desprazer com um projeto gráfico tão pouco cuidado, a mancha não deixa espaço para anotações, não há nenhum tentativa de charme.

O texto é uma série de compilações feitas depois de sua morte, conferências, discursos, aforismos, anotações. Isso não dá ritmo. Logo no início o leitor é avisado que não se tratam de visões integrais de escritores, sim recortes personalíssimos. Resolvi ir adiante. Há alguns comentários interessantes, agrega numa visão do todo, mas não é nada introdutório. Como já tinha “abandonado” Auto de fé, não quis parar novamente, me acharia muito ignorante. No mínimo, ouvi falar pela primeira vez sobre alguns importantes escritores, sem nenhum livro em português.

Valeu a descoberta deste pequeno trecho: (sobre Karl Kraus) “Graças a ele comecei a compreender que cada indivíduo possui sua própria configuração linguística graças à qual se destaca de todos os outros. Compreendi que pessoas falam umas com as outras, mas não se entendem; que suas palavras são golpes que ricocheteiam nas palavras dos outros; que não há nenhuma ilusão maior do que achar que a linguagem seja um meio de comunicação entre as pessoas. Falamos com o outro, mas de forma a que ele não nos entenda.” Já não vale o livro?

O lobo, uma fábula que não alterou meu mundo

olobo.jpg

Comprei O lobo pela promessa do diferente, uma fábula, um jovem escritor, tudo muito distante do meu tradicional agarramento ao homem e ao maduro. O inglês Joseph Smith conseguiu ser publicado em nove línguas no seu livro de estréia. Não é pouco, ainda mais se considerado o que é de fato o livro.

O comentário do The Observer promete que o livro altera levemente o mundo do leitor. Não alterou o meu, talvez por puro preconceito, por ler sobre bichos e ficar atado ao humano, por mais que essa tenha sido a intenção do autor. É claro que existe a possibilidade do paralelo, mas nossa caça é muito mais errante. Eu como predador não atingiria a idade adulta, talvez seja apenas um preconceito e sem livros e pensar, saísse-me muito bem na selva, no matar ou morrer.

Smith consegue humanizar a dúvida e a insegurança, talvez esse seja o maior mérito deste pequeno livro, que também fui até o final porque era curto e diferente, esperava alguma surpresa, mas mantive meu ritmo morno até o fim.

As vozes aparecem, mas a história poderia ser mais atrativa: As vozes do sotão

vozes-do-sotao.jpg

Primeira leitura de Paulo Rodrigues, levado pelas críticas positivas nos cadernos de cultura, As vozes do sotão agradou mas não deslumbrou. Se mostra um escritor maduro, de verdade, não foi capaz de me dar vontade de continuar no drama do personagem, Damiano/Guido.

Vários ótimos momentos e uma vida complexa, distante dos contos de fada, como qualquer vida na maioria do tempo, mas sem uma conexão entre tudo e um desejo de ir seguindo o personagem ou a voz para as instâncias mais fundas da identidade humana.

A edição é bem cuidada, CosacNaify, apesar de não ter certeza se gosto das páginas com fundo escuro, atrapalham as anotações. Meu resumo é este, um bom escritor, denso, mas que me pareceu mais encantando com sua criação do que com a história.