Assunto: Indicação de leitura



Eu nao sei ter (Eu não sei ter), primeiro romance do editor da Virgília

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Eu, editor da Vírgilia, Marcelo Melo, estou lançando meu primeiro romance, Eu não sei ter. O livro sai pelo selo Virgiliae, da Livros de Safra, uma espécie de sucessora da Virgília, a versão independente do meu trabalho, numa etapa pós parceria com a Saraiva.

Decidi assinar ficção como Marcelo Candido (meu sobrenome do meio), para conseguir independência quando atuar como editor, poder manter uma visão crítica e independente dos textos de terceiros que serão apresentados.

Eu não sei ter é uma história que discute relacionamentos, afetivos e de amizade neste mundo contemporâneo e agitado que si vive neste início de século XXI. O melhor amigo do narrador, um psicanalista sofre um acidente e fica vegetando para o resto da vida, sem poder explicar a história que vem a tona com o acidente. Com isso, Justiniano, o narrador é solicitado a bisbilhotar a vida do amigo e se vê obrigado a rever a relação com Cândida, uma mulher ressentida e surpresa com o que acaba de descobrir da vida do marido.

Para saber maiores informações visite o site da Livros de Safra, clicando aqui ou na capa do livro acima.

Quase um dicionário de sinônimos relacionado ao sexo…

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Havia comprado há tempos o livro do Reinaldo Moraes. Assisti sua participação na Flip e li vários comentários sobre o livro. Mas resolvi le-lo mesmo, interrompendo Anna Kariênina, por acreditar que este não seria um livro passageiro.

É, acho que não será. Me surpreendi com a capacidade do autor de encontrar sinônimos para órgãos e posições sexuais, com o senso de humor extremamente aguçado e com a sequência de “absurdos” de seu personagem inconsequente. O tal cineasta maldito não quer nada além de curtir a vida, acredita ter uma relação carinhosa com o filho, mas só porque é distante e ainda deve se lembrar dos desprezos do pai, de perto mesmo só muito sexo, drogas e outras sacanagens. O vocabulário é extremamente rico, dá até para organizar um pequeno dicionário de sacanagens, inspirado no mesmo, e a história um pouco mais longa do que o ideal, mas é impossível o leitor não ter a sensação, ao fechar o livro, de já ter feito muito mais do que já fez, são tantos detalhes que é factível achar que as proezas também aconteceram na nossa vida. Uma leitura extrema.

Estava na fase final, quando ele encara uma velhota, quando o vi chegando no Carrefour, quase o abordei para tirar um sarrinho sobre comer a velha, mas achei que era invasão demais, afinal, tudo aquilo não passa de ficção, mas que ele deve ter tido que se acostumar com olhares assustados, isso teve. Aos profissionais, a leitura vale como check-list, aos pudicos, como quebra-gelo e preparação para a vida real.

Ricardo Amaral: para alguns a vida é uma festa

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Comprei meio sem planejar, comecei a ler e com ele furei a minha fila de leitura. O livro Ricardo Amaral apresenta: Vaudeville, é para ser consumido rapidinho, de início gostei muito, é fácil, divertido e mostra os bastidores de muitas coisas, o autor teve o mérito de encontrar uma linguagem que passa para o leitor um equilíbrio, não conheço todas as histórias, mas parece que ele fala a verdade, dá uma no casco e outra na ferradura. Festeiros têm o hábito de ver tudo como lantejoula, não foi a impressão que tive.

A grande lição é a constatação óbvia de que a noite influencia mesmo bastante o dia e que com bebida na cabeça e vontade de “aprontar” muitos negócios também acontecem…

Para quem gosta de ser provocado, e também de pensar!

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Sendo honesto, mesmo tendo concluído depois da leitura de Contra um mundo melhor, que não tenho a mínima idéia de por que faço isto, pior, se vale a pena, confesso de princípio minha relação ambígua com Luiz Felipe Pondé. Não aceito muito bem sua “conversão” para a religiosidade que no livro não fica explícita. Para os que se dispõem a criticar e questionar a vida, esse é um ponto formador, é por mais amplo que tente ser, é quase uma questão ou eu ou eles, daqueles pontos que não admitem concessão, mas depois da leitura, no mínimo fiquei sem certezas.

Talvez descrever o processo seja válido. Iria passar 4 horas na livraria, tinha que tourear os convidados do autor, ele e família o estavam fazendo bem, restava-me então os meus filhos e os livros. Peguei o do Pondé para mostrar para minha mulher/sócia alguns detalhes do projeto gráfico. Comecei a ler, sentei numa poltrona e depois conclui que deveria comprar.

Li rápido nos dias seguintes, o texto é muito mais denso do que comprido. Talvez tenha entendido melhor minha admiração por ele. É claro que temo virar um conservador, mas é claro que quem mais teme isso é o resquício do jovem que ensaiou ser comunista que vez ou outra incorpora neste ser. Mas minha admiração por ele vem se uma matriz em comum: Nelson Rodrigues.

É isso, Pondé, origem completamente diferente, identificou que não existe um Nelson Rodrigues atual, o outro fã declarado na mídia, Jabor, disputa espaço semelhante, mas Pondé é mais profundo, menos poético, mais filosófico.

Corri o risco de ao terminar a leitura ter virado a casaca, li durante o domingo, apreensivo acompanhei o que acontecia com o São Paulo e Fluminense, querendo das entranhas uma coisa, tentando racionalizar outra, de ter abandonado a família, ter deixado meu lado instintivo mais a solta, um perigo para a sociedade, como seria com qualquer um, pelo menos qualquer um que possa ler Pondé e admitir que ele tem razão, e pior, a razão de nada serve no final, nesta vida sem sentido e sem recompensa. Se você não acredita nisso, passe longe do livro, se prefere admitir apenas para cumprir ou seguir seu papel social, eis uma leitura que recomendo. O cara não alivia, assim como a realidade não alivia. Não há livro de autoajuda que te salve depois, por isso, pense bem antes de ler, mas se ler, bem vindo ao clube, daqui a pouco não será mais preciso sequer criar um crachá de identificação, os outros estão exagerando tanto na fantasia que tudo vai ficar transparente…

Não é fácil continuar depois de algo tão premiado!

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Nunca tive o peso de dar sequência a tamanho acerto. Não é fácil, infelizmente, nunca repercuti tanto quanto Cristovão Tezza e seu Filho eterno, em nenhum campo… Lembro que gostei muito deste livro, mas o li logo que foi lançado, há coisa de mais de três anos, nesta época sequer me imaginava escrevendo e podendo me meter a escrever. Talvez falte então essa base de comparação.

Que Tezza é um escritor maduro, não tenho dúvidas. Mas não consegui acompanhar a história com todo interesse do início ao fim, não fiquei na ansiedade de terminar logo. Se fosse mais longo, pensaria seriamente em abandonar, estou há meses como pano de fundo lendo Anna Kariênina, que tem me interessado mais, mesmo sem conseguir estabelecer um ritmo confortável de leitura. Comparar com Tolstói pode ser sacanagem… Ou seja, um bom livro, mas que não me pegou pelo estômago, grifei pouco, não caminhei com os personagens ao longo dela, precisei interferir com a razão, mas não considerei um erro emocional.

O amadurecimento sufoca a vingança?

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Comecei de forma tímida e fui engrenando, engrenando, engrenando. Sándor Márai conseguiu em As brasas, discutir infidelidade de uma forma pouco usual, adulta. Faz pensar, refletir ao utilizar o tempo, muito tempo, para questionar o que de fato é importante. No triângulo formado pelo amigo, um artista se esforçando para ser militar como seu principal protagonista, explora as relações de amizade, de coragem. Usa o silêncio dos personagens para falar, falar muito.

Além de ter gostado muito do livro, tenho como meta aprofundar no autor, passei a respeitar um ser humano que tem a coragem de se suicidar aos 89 anos, depois de ter vivido as paisagens e mudanças que viveu. Uma definição importante para um húngaro que fugiu em busca de liberdade e democracia, foi que a pátria é a língua, tal como canta Caetano Veloso.

O tema tem muito a ver com o livro que estou escrevendo e vai sim influenciar minha última leitura e varredura no texto.

Outra questão bem demarcada são as diferenças entre estilos de vida e de classes, barreiras que existem e são ou não ultrapassadas dependendo da forma que se escolhe olhar para isso na vida… O tempo se mostra como o mais sábio filtro entre o que importa e o que é apenas um jorro de impulsos. O livro está na nona reimpressão.

Não é que correr e escrever são duas coisas complementares…

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Para quem se prepara para correr a maratona de Nova York e pensa em publicar o seu primeiro livro de ficção, ler Haruki Murakami é obrigatório (Do que eu falo quando eu falo de corrida). Dei prioridade a ele no vôo de vinda, mesmo porque terminá-lo era possível, Ana Kariênina, não…

Nunca li nenhuma ficção de Murakami, não concordo nem um pouco com o endosso da Time Out: arrebatador (…) uma joia magnífica e surpreendente. Mas é um livro que deve ser lido por corredores e por candidatos a artistas que ainda alimentam um ideal romântico e desestabilizado de vida. Murakami traça um belo paralelo entre a disciplina para correr e produzir, o esforço necessário, a repetição física, a concentração mental.

Ao final da leitura, ainda longe de correr os 350 km por mês, ele correu pelo menos uma maratona nos últimos 25 anos e no final também se dedicou ao triatlo, mas perto de fazer a primeira em Nova York, já meio distante de uma meta pessoal de correr abaixo de 4 horas, descubro que também não escrevo todo dia, e como já intuia, esse processo dificulta bastante o resultado final. Ele vendeu o bar e resolveu apenas escrever, compatibilizou a corrida para complementar a concentração e disciplina, eu descobri antes a corrida, também como forma de disciplina. A conclusão maior do livro é a dor é inevitável, o sofrimento opcional, cada um escolhe o que fazer com as dores da vida, se pára ou continua. Nisso a corrida é um ótimo exercício, ele corre ouvindo música, eu apenas minha própria voz.

A festa merecia ser mais bacana…

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Li Em alguma parte alguma, o novo livro do festejado, fez 80 anos, Ferreira Gullar. Gullar parece ter atingido um estágio elevado de celebridade intelectual, alguém que se ouve para saber as opiniões gerais, sobre vários assuntos. E Ferreira Gullar as têm para dar.

O livro não me parece o topo de sua produção, mas é gostoso ver que nos 80 ainda é completamente possível produzir coisas sérias, ter um exercício de lucidez.

Só quem parece não ter percebido que se tratava de uma celebração foi sua editora. O projeto gráfico é sofrível, o senso estético do livro ficou devendo para as margens apertas, a transparência. Ferreira Gullar merecia algo mais elaborado, sua obra merece edições mais bem tratadas. Acorda Record!

Não indicado para orfãos

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Ouço dizer que algumas relações pai-filho são das mais tranquilas e próximas. Acredito? Por vezes me parecem aquele papo entre amigos, quando um narra ao outro a conquista da noite anterior, sempre há muito de exagero. Será porque não tive que fiquei assim? Ou é minha incredulidade?

Já tinha lido Carta ao pai, li agora Ribamar. Depois dos dois, já não sei como me portar diante do meu filho. José Castello foi mais corajoso do que Kafka, este não tinha grandes planos de ser publicado, talvez sonho, entregou para a mãe. Castello fez de forma premeditada. Lavou a roupa suja no tanque público da vida, e o fez de forma bastante densa, tudo o que envolve de maneira não leviana a relação pai e filho é profundamente denso, e com momentos brilhantes.

Leva a vantagem, que também Kafka tinha, de ser apenas estilingue, ser vidraça e olhar para os descendentes deveria impactar a forma de escrever, a busca seria outra, a visão mais completa. Eu já fui estilingue e hoje me vejo mais tempo como vidraça, tentando não esquecer as vezes em que tensionei a borracha e soltei a munição, para que meu filho possa fazer o mesmo, por mais que dou e tenha me preparado para diminuir sua ira.

Além da relação familiar, o livro explora bastante e bem a relação com a literatura, o papel desta na existência. A estrutura é um tanto fragmentada, mas a sequência não se prejudica e poucas vezes se vê um escritor tão nu diante do passado, presente e futuro. Sim, o tal Ribamar já não está aqui, mas tem vários representantes e como o próprio livro deixo claro, está inteiro dentro do autor. Vários grifos, poderia fazer um post enorme aqui só deles, eis alguns para você verificar se tem coragem de ler, não se esqueça que o autor teve a de escrever, mas quem lê olha necessariamente para o seu pai, ou para o espelho como pai de outra forma. Ainda não sei quando será a próxima vez que encararei o meu:

Ainda muito jovem, compreendo que os homens se fortalecem pela capacidade de não ver. Não ver, não sentir, não pensar: isso é a força. E o que chamam de ‘frieza’”.

Posso tudo: e é contra isso - contra esse tudo - que devo lutar para conseguir escrever. Um escritor que pode tudo nada tem a dizer.”

Sua presença desmentia o que a ausência me dava. Eu tinha (todo filho tem) um ideal de pai que o próprio pai desmente. Ausente, eu o sentia. Presente, nós nos perdíamos.”

Leituras parecem voos para fora, com que nos distanciamos (fugimos) do mundo. Na verdade, são voos para dentro, com que cavamos o que estamos destinados a ser.”

Toda pergunta sobre o pai é, sempre, uma pergunta sobre si.”

Só não gostei do final, mas isso não tem a menor importância diante de um livro desses. Aliás, até agora se falou e escrevou pouco, a história e a coragem em escrever pedem mais posições de críticos e jornalistas, que falem do livro, que falem de seus pais, mas não ignorem um assunto tão freudiano e vital como esse. Sim, é um livro para quem tem filho, tem pai, ou reflete e procura qualquer um deles. Há tempos me pergunto se não foi a dureza do meu pai uma das razões principais de minha formação, no sentido positivo e superador da palavra. Há tempos me questiono se preciso me afastar do meu filho, não tenho querido, mas tenho convivido com a dúvida de, ao ser amoroso e próximo, estar sendo mesmo é egoísta e impedindo que ele se forge, masculino demais? Não sei, não tenho a mínima idéia da reação de uma mulher diante deste livro, nem sei se elas deveriam ler… Que leiam então para entender um pouco dos homens e participar das reflexões masculinas de pai e filho, mas nunca com muito cuidado para não misturar tudo e por o meloso carinho feminino, também necessário, mas proveniente de outra fonte!

Boa história, estréia premiada

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Li o novo e primeiro romance do Edney Silvestre apenas para checar os critérios da comissão julgadora do Prêmio São Paulo. Deram a ele o de livro iniciante. Desconfiava que poderia ser um desvio por se tratar de um autor iniciante já famoso, repórter de televisão, apresentador de programa de literatura.

Conclui que não foi, apesar de não ter lido os concorrentes. A história é bem boa, a linguagem me pareceu em determinados pontos uma tentativa de escrever bem, mas a relação dos dois garotos numa cidade do interior para descobrir um crime e um submundo do poder e do desejo humano são muitíssimos bem explorados por Silvestre. Não é possível ao leitor ir construindo sozinho a história, precisa do narrador que surpreende. Estava gostando mas não tão empolgado até que num determinado momento, lá nas páginas finais tive um lacrimejamento espontâneo dos olhos. Acho que literatura isso, uma medida individual, gosto de pensar que o meu sarrafo é elevado, por isso, a recomendação.

Um livro que trata da amizade masculina e do ritmo lento de consciência do verdadeiro jeitão da espécie.

Deve ser a parte mais fraca da trilogia biográfica de Coetzee

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Acabei a leitura de Infância, primeiro livro da trilogia “biográfica” do escritor Coetzee. Me resta agora Juventude, Verão li há pouco e fiquei com a sensação de ter gostado mais do que este.

É claro que são profundas as dúvidas do garoto perdido entre as culturas, não quer ser africânder, parece temer ter que conviver com os locais e encontra dificuldade de se posicionar numa África do Sul marcada pelos contrastes. Também não sabe como se colocar em relação a mãe e ao pai, prefere a mãe, tem com o pai uma relação complexa, mas não entende a mãe e a relação dela com o pai, demonstra em alguns pontos o nojo e o incômodo. Bom aluno, vê as coisas mudarem quando vai para a Cidade do Cabo, mistura interior, vida rural com a vida urbana.

É um homem fadado a ser frio, não teve relações carinhosas na formação. O que disso foi verdade? Só o próprio e seus próximos sabem. Se for verdade, é exposição profunda, se for criação, desnecessária, não para o leitor, sim para os familiares.

Tive uma discussão sobre empresas familiares e usei a seguinte frase como algo verdadeiro que acontece com famílias: “O pai gosta do Partido Unido, gosta de críquete e de rúgbi, porém ele não gosta do pai. Não entende essa contradição, mas também não tem vontade de entendê-la. Mesmo antes de conhecer o pai, isto é, antes que ele voltasse da guerra, já tinha decidido que não iria gostar dele. Em certo sentido, portanto, a antipatia é abstrata: ele não quer ter um pai, ou pelo menos não quer um pai que more na mesma casa.
O que mais detesta no pai são seus hábitos. E os detesta tanto que só de pensar estremece de repulsa: o ruído forte ao assoar o nariz no banheiro de manhã, o odor quente de sabonete Lifebuoy que deixa para trás, junto com um círculo de espuma e barba cortada na pia. Sobretudo odeia o cheiro do pai.”

Pouco, rápido, porém profundo: A máquina de Joseph Walser

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Gonçalo M. Tavares continua a me irritar, não gosto do jeito que ele escreve, simplesmente porque tenho inveja…

Li seu último livro A máquina de Joseph Walser, coleção O Reino, a mesma do premiado Jerusalém. A cada livro dele que leio, sou um leitor mais maduro, exigente e continuo a gostar. Percebi nesse que em alguns pontos a história perde para a forma, nada que afaste o leitor, que diminua a sua experiência, uma experiência diferente, compensada pela densidade das palavras, sem nenhum apelo aos adjetivos fáceis.

Walser é um operário com hábitos esquisitos, tão esquisitos quanto qualquer ser humano, tem problemas com a mulher e o chefe, os dois no mesmo problema e acaba tendo um acidente mutilante de trabalho, próximo ao do nosso presidente, mas perde o indicador. A máquina causadora do acidente pode ser vista como metáfora para regras e outras questões, as relações homem-mulher são questionadas, eis algumas ”pérolas”, no melhor dos sentidos (a que mais gostei não vou botar porque posso incluir como epígrafe do meu livro):

mulheres obesas agarram-se aos homens e não mais os largam: porque sabem qeu provavelmente não terão outro, e odeiam essa possibilidade, a de não terem outro.

… de quem dizem coisas assustadoras mas também maravilhosas, como convém ao currículo dos poderosos.

… porém o aperto de mão entre dois homens faz o que a engenharia demora meses em casas destruídas: os sentimentos são, apesar de tudo, materiais mais leves e recuperáveis que a pedra, o tijolo ou o cimento.

Se busca algo rápido e forte, eis uma excelente indicação. 

Nem todo grande escritor nasce pronto… Como eu desconfiava.

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Como eu desconfiava, um grande escritor é um artista em formação. Ninguém nasce escrevendo da forma que encanta. É claro que existem exceções, gênios, mas a enorme maioria não é assim. Nem um enorme escritor como Mario Vargas Llosa me pareceu ser assim.

O mês de julho foi complicado, acabei lendo menos do que gostaria, dois livros. É verdade que de dois grandes escritores, mas acho pouco, por mais que Ressurreição não seja um livrinho pequeno.

Os chefes, primeiro livro de contos de Llosa, publicado ainda na casa dos 20 e Os filhotes, talvez uma novela, publicado na casa dos 30 ficam na minha opinião bem abaixo dos grandes livros que já li dele, não que seja um especialista. Isso é ruim? Não, é ótimo, para mim um estímulo e tanto, mostra que escrever é sentar e escrever, cortar, ler, aprimorar, ficar ruminando e deglutindo ideias e seu próprio estilo.

Vale ler esse livrinho do peruano? Sinceramente, só se você já gostar muito do que ele escreve, se não for este o seu caso, corre o risco de não mergulhar numa obra que é muito importante e bem construída, mesmo que tenha em seu início, livros não comparáveis com o seu apogeu.

Não foram os anos, foi a vida… Ressurreição

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Refletir sobre as diferenças de mundos e a moral de cada um deles é uma das principais questões que esta obra de Tolstói vai levantar na cabeça do leitor. A história da culpa que cada um carrega e o quanto dela vem da relação das pessoas com religião, algo muito presente, é outra.

Poucas vezes vi um personagem criticar tanto e tão bem a sua classe. Mas o que se questiona mesmo é o funcionamento e a eficácia do sistema judiciário. Neste livro é possível sentir a diferença de um grande escritor, a mão densa de alguém que teve uma vida ampla, experimentou, a frase do título deste blog foi uma das preferidas, mas existem várias outras. Em 1899 assumir que na base de um amor excepcional tem de haver alguma sujeira, não é pouco.

O príncipe de Tolstói viu-se livre da punição que se auto-imputou, ainda sem entender se pela razão certa ou errada, não soube muito bem o que fazer, aí houve a redenção religiosa, apesar de discordar da opção do autor, entender que se a vida não ultrapassar os cinco mandamentos não haverá problemas de culpa, é uma verdade mesmo para ateus, a moral é algo que fica acima da religião, para alguns a razão da existência desta…

De Tolstói agora “só” falta Anna Kariênina e Guerra e paz, só umas 2.000 páginas.

Ótima leitura para quem gosta de ler…

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O mês de junho foi péssimo para minhas leituras. Me dou a desculpa da Copa, apesar de ter assistido poucos jogos. Se não fiquei diante da televisão, li mais os blogs e as matérias de jornal sobre o assunto, é inevitável, é a atração do futebol, um jogo que extrapola em muito as fronteiras do esporte. Onde mais o Brasil é tão respeitado?

Se li pouco, li bem. O livro da conversa de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière sobre livros é dos mais interessantes. Leitura capaz de acrescentar e te fazer sentir-se mais inteligente. Agrega uma visão mais ampla do universo cultural, duas pessoas instigantes, um mediador, Jean-Philippe de Tonnac, também aguçado. Minha biblioteca não tem nenhum incunábulo, acho que por enquanto, mas tem livros que quero que fiquem ao meu lado ao longo da vida, aquela falsa segurança de poder recorrer a eles em caso de extrema necessidade, ou, simples vontade, um desejo nem sempre racional de compartilhar as melhores idéias, de fugir da “rasão” do mundo, não do atual, do mundo de sempre, pois essa é a história da humanidade, como diz Eco: o equilíbrio entre a alta vida intelectual e a baixa idiotice dá um resultado mais ou menos neutro…

Não contem com o fim do livro também diz muito sobre os livros que se tem em casa. Mais três respostas de Eco que me consolaram e deixo como arsenal a ser utilizado diante dos meus poucos milhares de livros: Não, esses livros são apenas os que devo ler semana que vem. Os que já li estão na universidade; Não li nenhum desses livros. Senão, por que os guardaria?; e Você sabe, não leio, escrevo.

Que o digital vai afetar o livro, vai, como homem de negócios desse mercado quero, preciso e vou estar atento. Como leitor e um candidato a uma vida mais profunda, quero os meus livros na estante. Recomendo sim a leitura desse gostoso papo.

Um blog que tem conteúdo, aproveite que não são muitos… Blog da Companhia

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Para quem gosta de livro e do entorno, eis uma ótima recomendação, o blog da Companhia das Letras. Além de informações sobre os lançamentos e falar de livros em geral, não apenas os da editora, um dos melhores, se não o melhor catálogo brasileiro, escrevem autores e colunistas. Um deles é o “dono”, o editor Luiz Schwarcz, com uma coluna sobre os “bastidores” da relação autor-editor, muito interessante.

Vale a leitura. Ah, se andei pegando no pé do Steve Jobs pela cruzada moralista que empreendeu, é preciso reforçar seu suporte para que os jornais continuem a ser os verdadeiros geradores de conteúdo, não a blogosfera. São poucos os blogs que pensam e tem o mínimo de condições de emitir opinião neste universo tão interessante e tão imbecilizado como é a internet, onde nunca foi tão difícil separar o joio do trigo. www.blogdacompanhia.com.br

Autobiografia de um ficcionista

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O novo livro de J. M. Coetzee, Verão,  é sobre um escritor, John Coetzee. Sei pouco da vida dele, li uns 5 livros, assisti o discurso de entrega do Nobel, li algumas entrevistas e sei que não é simpático. Portanto não consigo perceber o quanto é inspiração real, o quanto é jogo de cena, talvez até marketing… Mas a leitura flui, confesso que em alguns momentos não gosto tanto do estilo de um personagem como narrador do capítulo, se bem que nesse há o autor da biografia do Coetzee fazendo a amarração. Umas das entrevistas para a tal biografia é inclusive brasileira.

Se não chega a ser um livro excepcional, é um livro de alguém que sabe escrever de verdade, isso não é pouco, vale o preço e o tempo. Sempre se aprende com esses. Gosto dele, quase como gosto de Roth, quem acompanha este blog sabe que este é um dos maiores elogios…

Como identificar o início ou o fim da decadência: A humilhação

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Como previsto, li A humilhação rapidinho, um pouco mais devagar do que o planejado, precisei de dois aviões para matar o último livro do Philip Roth. Vai virar filme do Al Pacino. É a história de um grande ator que se defronta com o final de suas habilidades profissionais e tenta retomar isso por uma mulher. Falado assim, podia ser o enredo de qualquer escritorzinho que tenha superado os ideais de príncipes, princesas e sereias ou de um mundo ideal.

Nas palavras de Roth tudo fica mais denso, felizmente (quem escolheu esta palavra foi minha inteligência) e a mulher que interage com o ator é a filha de amigos dele que não obtiveram o sucesso e reconhecimento que ele obteve. Também uma mulher que tem seus poucos momentos como tal durante a relação com ele. Roth é música para os meus ouvidos quando se trata da disputa entre humanos, é impressionante nossa capacidade de voltar a pontos, como disputamos as vitórias, nos menores e maiores pontos possíveis.

O personagem de Roth finalmente consegue se mover, abandonado pela mulher tão mais jovem, com raiva dos ex-amigos, desiste de encarar o coach profissional e decide por ele mesmo.

Deixo duas observações despretensiosas do narrador: (esta é de um personagem) O que você vai fazer com todos os papéis que está maduro para interpretar? (não é verdade, para quantas coisas na vida agora você está mais qualificado do que antes, o que faz diante delas?); Ela só queria se livrar dele para satisfazer o desejo humano, tão comum, de tocar para a frente e tentar uma coisa nova… Não me diga que neste exato instante não há uma dúvida desta te atormentando…