Assunto: Indicação de leitura



A ilusão da justiça

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Quem acompanha este blog, meus comentários de leitura e os livros que entram na minha biblioteca, sabe o quanto admiro a Companhia das Letras, mas deixar O processo ficar esgotado é sinal vermelho, ponto negativo no caderno de chamada.

Deu um trabalho comprar nos sebos (por que não quis a edição de bolso? Porque é menor e porque meus outros livros do Kafka são dessa coleção), é fácil encontrar umas edições duvidosas, nem todo livro, é o mesmo livro…

Agora já me sinto menos burro, ainda falta O castelo e outros poucos, mas pelo menos a visão de Franz Kafka sobre culpa, acusação e artimanhas da justiça, já tenho.

Prefiro essa criação do que a da barata, o absurdo tem um paralelo muito próximo às formas normais, possíveis no dia-a-dia, menos caricato. O livro faz a gente pensar sobre como passamos a vida tentando entender sobre o que somos julgados. E também, essa incessante mania humana de agir de um lado, contra a justiça, de forma tacanha, e de outro, querer acreditar que ela existe. É dessa neurose humana que o livro fala, e fala bem. Já tinha lido a história do porteiro e do homem do campo. Não é só para entrar na lei que as barreiras aparecem e precisam ser destruídas. Essa é uma das mais belas criações. A falha é que muitos a lêem e ficam exatamente como o homem rural…

Ah, é claro que parece que o ritmo da justiça brasileira escolheu homenagear o autor tcheco.

Aqui não aderimos à febre de Alice…

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Alice parece tentar invadir a vida de todos. Hoje vi uma vitrine de produtos para casa onde o tema era o livro de Lewis Carroll, na verdade, o filme de Tim Burton, apesar de matérias dando conta da febre de vendas das mais variadas versões do clássico nas livrarias.

Era ignorante no assunto, tentei unir o útil ao agradável e li para a minha filha de 6 anos a versão “chic” de Alice no país das maravilhas, tradução de Nicolau Sevcenko, edição da CosacNaify, aliás, bela edição, minha mulher comprou a de colecionador, supostamente com um papel diferente. Sei que por mais belo que seja o trabalho de Luiz Zerbini, e o é, minha filha ainda prefere ilustrações mais apropriadas à idade. Sei que por melhor que seja a tradução de Sevcenko, também não foi mirada para crianças, como o livro supostamente não foi.

Ler em voz alta não é algo para se prestar atenção no conteúdo, mas eu não gostei do que li. O pior, é que minha filha também não gostou tanto, talvez por influência minha. Mas seria injusto comigo mesmo em não reconhecer meus esforços e disciplina para chegarmos ao final. O posfácio ajuda, esse foi só para mim, mas parece aquelas histórias que viraram literalmente de domínio público, cada um pegando o que interessa, esse pode ser a riqueza e o poder do livro, mas não partiria para as tais edições comentadas, a menos que me torne, por alguma razão distante e amplamente desconhecida até agora, um estudioso do período vitoriano…

Meu filho foi com os amigos, tenho tido poucas oportunidades de sair, talvez perca o fenômeno dos cinemas. Sai menos ignorante no assunto, sem vontade de saber mais.

O que uma maratona não faz… Correr: Jean Echenoz

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No próximo domingo vou encarar a maratona de São Paulo. Dessa vez não tem viagem, não tem surpresas de locais diferentes, só a velha e boa São Paulo, sem nada a ser desvendado, apenas a dureza da prova. Pior, o tempo não está ajudando, a previsão para domingo, melhor do que hoje, melhor do que ontem.

Na sexta, dia do livro, deixo aqui registrado o meu esquecimento, comprei Correr, Alfaguara, do francês Jean Echenoz. Vi que se tratava da vida de Emil Zatopek. Tinha e tenho esse nome no fundo da memória, sabia que era um grande corredor, ouvia do meu avô e em matérias de esporte, referência, mas desde que comecei a correr, e lá se vão quase 5 anos, não mais olhara para seus feitos.

Eles são muitos, só quem já correu sabe o desgaste e como os feitos que ele conseguiu foram impressionantes, 9 recordes mundiais está bom? Mas se a leitura é interessante, ela poderia ser muito mais, faltou vontade de romancear a vida de um gênio que foi manipulado por um regime ditatorial e que sofreu na pele e nas pernas a Primavera de Praga. Echenoz produziu quase um ensaio, não exagerou nas emoções, economizou-as, demais, não deu informações técnicas para um corredor, são poucos os feitos demonstrados em tempos, onde notas de rodapé poderiam explicar a evolução, seu ritmo e como estão os recordes hoje. É por isso que o livro é pequeno, porque ficou na essência e para mim, nesse caso foi uma falha.

Mas precisava de empolgação. Estou longe de Zatopek, mas quero dar minhas passadas por São Paulo.

Uma vida abaixo da literatura - Franz Kafka

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Já li um, com certeza, talvez dois livros de Louis Begley. Foi com essa expectativa que mergulhei na biografia de Kafka, escrita por ele. Esperava uma história narrada com o estilo de seus romances, não é. Frustrante? Talvez, mas é verdade que na capa há a descrição: ensaio biográfico. E o livro tem muito de um ensaio, perdendo a riqueza de uma narrativa com nuances ficcionais.

Mesmo assim é uma leitura das mais interessantes, o personagem é complexo. Kafka morreu com 40 anos e aprovou pouco de sua obra, seu amigo Brod é diretamente responsável pela construção do mito, liberou livros e outros materiais que teriam na visão de Kafka (é verdade que não agiu), como destino a lata de lixo.

Li pouco dele, Metamorfose umas duas vezes, alguns contos e Carta ao pai, incluí O processo e O castelo na listagem de leitura. A relação dele com o pai é interessante, talvez sua sensibilidade não o deixou se impor diante de um homem que nunca deixou de ser o gigante de quem todos se imaginam ser filhos até determinada idade. Por que isso não mudou? De quem é a culpa? Essa não é uma abordagem forte do livro. Fica mais na relação do autor com as mulheres, sem nunca explicar de fato o problema a que sempre se referia nas cartas e nas questões de saúde. Valeu a leitura.

Leitura ou passatempo?

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O novo livro de Ignácio de Loyola Brandão mais parece um almanaque do que um livro, mas isso não é uma crítica, é quase um elogio.

A leitura é fácil e faz lembrar várias coisas do passado, por isso fica gostosa. Você se dá conta que esqueceu muito mais coisa do que consegue lembrar…

É claro que a “levidade” era o objetivo do autor, como diz, serve de papo para quem não tem o que falar, quebra-gelo. Aproximação com quem está ao lado. Diria que estou me aproximando do grupo dos velhos e também que o livro serve como memória de um período. Me peguei rindo sozinho algumas vezes, isso tem valor.

Bom mergulho em Kafka

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Finalizei esse mergulho em Kafka, conduzido pelo seu tradutor consagrado na língua portuguesa, Modesto Carone neste Lição de Kafka. Foi uma ótima degustação, já comprei o ensaio biográfico produzido por Louis Begley (falo depois disso) e também O processo, esgotado na editora e nas livrarias (o primeiro sebo de quem comprei na Estante Virtual pisou na bola, vendeu e depois cancelou porque não tinha mais). Vou tentar dar uma esticada na obra de Kafka, dizer que ele merece é um tanto babaca, melhor dizer que eu preciso…

Além de detalhes interessantes da obra e até da vida de Kafka, há interessantes reflexões sobre tradução e da representação de alguns autores na cultura de países, no caso, Brasil. Confesso que muitas vezes tenho quase a convicção de estar diante de teóricos que se vêem na necessidade de justificar ou criar teorias que a intuição do autor sequer pensou. Acredito na possibilidade da escrita fluida, por mais que saiba da existência do retrabalho, do corte, da busca pela palavra ideal.

Uma forte contribuição do livro é a clareza da definição de Kafka como algo muito distante de realismo mágico ou ou outras tendências distantes apenas do real com um certo estranhamento. 

A dor de um chifre

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Não conhecia Elvira Vigna, mas li bem sobre ela, inclui na lista dos contemporâneos a checar, mais como comparação de minha produção do que outra coisa.

O livro Nada a dizer trata de uma mulher, teoricamente emancipada e resolvida, expondo sua dor e inconformidade com a traição do marido. Sugere que a mágoa maior era por ele não ter falado nada. Sugere mas não convence. Admitir dor de traição é algo complicado, espero estar falando sem conhecimento de causa, mas já fui traído e assumi, é claro que não sem antes empatar o placar e daí, só restava aos dois o final.

Acho que é assim, um passo difícil, se fez e a pessoa ao lado não percebe, não dá para continuar porque é burra ou desinteressada, se percebe e nada faz por comodismo, também não dá para ficar. Se percebe e aceita, é garantia de vários momentos tensos, recaídas.

No final, o livro ganha mais força. Só não gostei do perfil montado para a amante. Coincidência ou não, não era melhor do que a narradora. Ou será que era só ela quem não percebia, isso não dá para saber. Também acho engraçado que mulheres supostamente emancipadas confortem-se em aproximar as amantes das mães, meu medo é de estarem mais preocupadas com os filhos do que com os maridos… Boa leitura para limites de casais!

Amor platônico - Os sofrimentos do jovem Werther

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Acabei ontem a leitura de Os sofrimentos do jovem Werther. Hoje pela manhã, treinava nas montanhas da Aldeia da Serra e conversava com outra atrasada, acabamos nos livros. O filho dela de 15 anos também o lera. Ela declarava algumas razões para que a leitura dele fosse mais ampla do que a minha. Eu já penso o contrário, quando se faz obrigado, por mais que se tenha um guia, corre-se o risco da não absorção total (claro considerando absorção total o máximo relativo que se pode obter, nunca o todo).

Eu li agora, maduro. Algumas partes são excelentes, em outras, fiquei imaginando como Goethe as escreveria agora, livre de amarras morais. O livro inova, apresentar uma dinâmica forte com o leitor, mistura as cartas.

Destaco os seguintes trechos:

Sei muito bem que não somos nem podemos ser todos iguais. Acredito, entretanto, que todo aquele que julga necessário distanciar-se do assim chamado povão, a fim de manter o devido respeito, é tão condenável quanto o covarde que se esconde do inimigo por medo de ser vencido.”

A espécie humana é sempre igual, não muda nunca. A maioria gasta quase todo o seu tempo para sobreviver, e o pouco que lhe resta de liberdade causa-lhe tanta preocupação que ela busca por todos os meios livrar-se desta carga. Ah, destino do homem!”

 ”Que gente é esta cuja alma  se concentra inteiramente na etiqueta, cujo pensar e agir, ano após ano, busca apenas um lugar mais próximo à cabeceira da mesa! E não fazem isso porque não teriam outras ocupações; pelo contrário, o trabalho vai se acumulando, precisamente porque os pequenos aborrecimentos concernentes às promoções desviam a atenção das coisas importantes”.

Esperava um final mais forte, achei que Goethe foi cuidadoso, esperava algo mais intuitivo. Faltou uma pitada de ousadia, mas é uma boa leitura.

Poesia lida na livraria, desculpa Fabrício

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Li várias matérias sobre o novo livro de Fabrício Corsaletti, todas elogiosas. Já dei uma enorme bronca num presidente de empresas que confessou um dia ter lido um livro por mim lançado em algumas visitas à livraria. Ele concordou comigo e depois, quando escreveu seu livro, me procurou.

Achei que podia mudar de lado. Ao invés de dar a bronca, ser passível de recebê-la. Em duas visitas a livraria li o Esquimó. Gostei, não consigo reproduzir aqui nenhuma estrofe, nenhum poema, ao final, quase comprei, mas estava imbuído da experiência, mantenho essa dívida com Corsaletti, o próximo, compro. Me pareceu um poeta maduro com a palavra, apesar da idade. Prefiro ter os livros que leio, mas era um texte. Quem comprar este, não vai se arrepender, eu não comprei e estou arrependido…

Leitura para editores

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Quem já passou pelo mercado editorial conhece Milton Assumpção, o risco de ousar ter uma marca pessoal é ser lembrado por ela. Milton tem uma cabeleira diferente, pode até me acusar de invejoso, já que sou quase careca, mas a dele é comentada nas feiras internacionais.

Isso talvez ajude a compor o personagem que soube diante de uma oportunidade, pegar o cavalo encilhado, e no caso dele, estava mesmo, era a McGraw-Hill, querendo deixar o Brasil, ousou deixar uma posição de executivo e virou empreendedor, fez a empresa crescer, vendeu para outra multinacional e depois voltou a atuar novamente no setor.

O livro conta alguns cases de marketing, interessantes para outros editores, raça tão acostumada a nada fazer, colocar o livro na piscina e ver se algo acontece, calma, eu também reconheço as dificuldades, mas a maioria é mais acomodada, como se diz por aí, joga-se o livro na piscina, se ele souber nada, sobrevive, se não, morre afogado. Milton causava burburinho com seus estandes, lançou livros lá fora. É uma leitura útil para quem é do mercado, para quem não é, existem livros onde se tinha mais grana para a promoção, possivelmente professores melhores.

Com 100 anos de atraso

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Conclui a leitura do perfil de Joaquim Nabuco escrito por Angela Alonso. Trata-se de uma leitura bastante agradável, com um estilo romanesco, bastante elogiável, ainda mais por se tratar de alguém com uma formação acadêmica em humanas, geralmente com cacoetes de intelectualismo e proposital falta de clareza, garantia de sucesso e sinônimo de inteligência entre os colegas.

Angela escreveu um livro muito gostoso. Infelizmente eu pertencia a geração que foi ensinada a louvar Rui Barbosa o Águia de Haia, sabia pouco de Nabuco até esta leitura. O livro também mostra como as coisas aconteciam e ainda acontecem, a junção do político, do social e do econômico. Nabuco foi figura das mais interessantes da história do Brasil, um digno representante de uma elite que faz falta, “que pensa, que assume o posto, faz a festa, mas não arrebenta”…

Ele perseguiu uma causa, descoberta no meio do caminho, por ela e por um lugar mais destacado abriu mão do dandismo. Não quis ou não soube fazer um outro jogo que talvez lhe garantisse uma vida mais confortável. Mas a família de Eufrásia Teixeira Leite não queria ser trampolim para nenhum bonitão, bom de discurso e ruim de bolso.

Nunca fui dos mais simpáticos a reis e imperadores, mas lendo este perfil fica fácil descobrir que a implantação da República também foi uma festa.

Dicas para escrever

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Acabei a leitura de A preparação do escritor de Raimundo Carrero, um livro estruturado em aulas, apresentando a teoria do autor em como escrever, compor um romance.

Não fiz os exercícios e não gostei tanto do tom de intimidade, tentativa de reprodução de um papo, impossível, ou pelo menos forçado, mas o conteúdo, a teoria literária estão lá. Serve como fonte de reflexão e informação, para mim serviu como comparação à primeira versão do livro que escrevi, Infidelimizade, obra que está descansando mais algumas semanas, quando pretendo retomá-la, fazer os ajustes e daí tentar a publicação.

Não sou muito adepto dessas regras, muitas vezes existem apenas para dar parametrização para todos, mas se você sabe e conhece, leu bastante, tem muito mais liberdade do que insinuam esses teóricos. Na literatura, como em qualquer outra área, a regra se adapta ao sucesso de alguém que não a seguiu…

Amigos de infância, expectativas familiares e natureza humana

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Com este livro, Pastoral americana,  Philip Roth ganhou o prêmio Pulitzer de 1997 ou 98, já não sei. O livro narra a história de um jovem bem-sucedido, bonitão, o melhor esportista e com tudo para dar certo na vida. Deu? Até um certo ponto. Ficou muito aquém do que prometia porque queria agradar a todos e acabou não se libertando nem criando vida própria, assumiu a fábrica de luvas do pai.

Viveu à sombra do pai, um judeu imigrante, a quem desafiou apenas ao casar com uma católica, quase miss América. A filha resolveu, num mundo cercado pelas questões da Guerra do Vietnã e pelas transformações do capitalismo americano, ser simpática a causa dos mais pobres. Acabou envolvida em questões guerrilheiras e transformou a vida da família.

O livro em alguns momentos parece um pouco mais longo do que o necessário, mas há momentos de pura dureza e profundidade de Roth. Pai e filho, marido e mulher, filha e pai, marido exemplar e amante, irmão e irmão, são relacionamentos explorados de forma crua e direta.

Daquelas obras que te deixam pensando por tempos e olhando para a sua própria vida e família e tentando encontrar semelhanças, ou melhor, as diferenças para sentir-se um pouco aliviado.

Haicai, não sei se entendi, mas que gostei deles, gostei

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Estava com o livro Boa Companhia, Haicai, organizado pelo Rodolfo Guttila há dois meses na cabeceira. Haicais são leituras fáceis, gostosas. Tinha a expectativa de entender a teoria por trás, confesso que não consegui. Para mim faltou um quadro explicativo, sei que pouco poético, mas talvez útil. Mas isso de nada importa. Se eu fosse você comprava e lia. Por que? Vou responder com apenas 3 Haicais, que parecem dizer pouco, só uma ilusão do tamanho, mas dizem muito…

Falamos tudo e ainda
há o que
silenciar (Carlos Vogt)

Não tenho dinheiro no banco
porém,
meu jardim está cheio de rosas (Carlos Drummond de Andrade)

abrindo um antigo caderno
foi que descobri
antigamente eu era eterno (Paulo Leminski)

4 vai, mas poderiam ser mais.

À bengala
Contigo me faço
pastor do rebanho
de meus próprios passos (José Paulo Paes)

Não erre porque não vai esquecer…

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Tenho algo a te dizer foi o último livro que li em 2009. O psicanalista criado por Kureishi trouxe um pouco do que eu buscava sobre a função, mas o livro é mais sobre o mundo pop do que o divã. Gosto do jeito que Kureishi escreve, escritor maduro, denso. O livro é um pouco mais longo do que deveria, mas mesmo assim fui fácil até o final, aliás, engrenei da metade em diante.

Não me lembro o outro livro que li dele. Assisti Minha adorável lavanderia, filme que o projetou e retirou do anonimato. Lembro pouco, hoje enquanto escrevia e alguém assistia algo na televisão ouvi que foi um dos poucos trabalhos, aliás, quase o de surgimento de Daniel Day Lewis, um ator de verdade, pouco afeito a concessões para apenas faturar mas que sempre acabam influenciando negativamente a filmografia das pessoas.

Neste livro tudo pode, as relações são frágeis e no mínimo fica claro que todos carregamos sim o que fazemos, pela vida toda. Kureishi expõe de forma límpida que cada um traz consigo seus erros, muito mais do que seus acertos…

Balanço da leitura em 2009 - 52 livros

Foram 52 livros lidos em 2009 e comentados aqui neste blog. Continuo a acreditar que o que é medido, pode ser melhor desenvolvido.  Não incluo na listagem livros lidos profissionalmente, para edição. Inclui alguns sobre o mercado ou sobre escrever ou editar, mas não os da Virgília ou Alfaiatar, mesmo porque, alguns desses, leio mais de uma vez…

Eis a listagem mês a mês:
Janeiro
1 - Irmãos Karamabloch - Arnaldo Bloch
2 - O africano - Le Clézio
3 - Entre nós - Philip Roth
4 - Livro dos provérbios, ditados, ditos populares, e anexins - Ciça Alves Pinto

Fevereiro
1 - O eterno marido - Dostoiévski
2 - Inimigos da esperança - Lindsay Waters
3 - A arte de recusar um original - Camilien Roy
4 - A literatura em perigo - Tzvetan Todorov

Março
1 - Desvirando a página - Ignacio Loyola Brandão
2 - Foi apenas um sonho - Richard Yates
3 - Um jogador - Dostoiévski
4 - No mundo dos livros - Jose Mindlin
5 - A cidade perdida - Milton Hatoum

Abril
1 - Elogio da madrasta - Mario Vargas Llosa
2 - O negócio dos livros - Andre Schiffrin
3 - Leite derramado - Chico Buarque
4 - A arte da vida - Zygmunt Bauman
5 - Filha, mãe, avo e puta - Gabriela Leite

Maio
1 - Questões de honra - Louis Begley
2 - Pequeno guia histórico das livrarias brasileiras - Ubiratan Machado
3 - Zazie no metro - Raymond Queneau
4 - Honestidade por aproximação - Wanderléia Farias
5 - Invenção e memória - Lygia Fagundes Telles
6 - A trégua - Mario Benedetti

Junho
1 - Indignação - Philip Roth
2 - A identidade - Milan Kundera
3 - Cine Prive - Antonio Carlos Viana

Julho
1 - Outra vida - Rodrigo Lacerda
2 - A arte de ler - Emile Faguet
3 - Jó - Joseph Roth
4 - Anjo Pornográfico - Ruy Castro

Agosto
1 - Ensaio autobiográfico - Jorge Luiz Borges
2 - Agrestes- Joao Cabral de Melo Neto
3 - O pai dos burros - Humberto Werneck
4 - A marca Humana - Philip Roth

Setembro
1 - Olhos secos - Bernardo Ajzenberg
2 - Lições sobre 7 conceitos cruciais da psicanálise - J. D. Nasio
3 - Fernando Pessoa - poemas escolhidos + A imortalidade
4 - No teu deserto - Miguel Sousa Tavares

Outubro
1 - Os cus de judas - Antonio Lobo Antunes
2 - Os emigrantes - W Sebald
3- Felicidade conjugal - Lev Tolstoi
4 - Vozes do sótão - Paulo Rodrigues

Novembro
1 - O lobo - Joseph Smith
2 - Sobre os escritores - Elias Canetti
3 - O seminarista - Rubem Fonseca
4 - Os bastidores da internet no Brasil - Eduardo Vieira
5 - Estrela distante - Roberto Bolano

Dezembro
1 - O serelepe - Ruy Mendes Goncalves
2 - Em defesa da psicanálise - Elisabeth Roudinesco
3 - Um psicanalista no divã – J.D. Nasio
4 - Clarice na cabeceira – Clarice Lispector
5 -Tenho algo a te dizer – Hanif Kureishi

Fui procurar uma grande escritora, encontrei um mito

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Comprei todo animado o livro de contos de Clarice Lispector, Clarice na cabeceira, na verdade, contos escolhidos por 22 personalidades que fazem uma breve introdução, supostamente a razão pela qual aquele é o conto de preferência.

Como já disse aqui, Clarice não é minha especialidade, não ficou mais depois da leitura. Gostei mesmo de 3, 4 contos, com o restante uma relação fria, são bem escritos, mas, heresia à parte, marcaram-me menos que Antonio Carlos Viana, por exemplo, o melhor livro de contos que li no ano, melhor que Milton Hatoum.

Me impliquei com o texto introdutório da maioria dos selecionadores. Quase sempre pessoas colocando a autora num pedestal distante, mais do mesmo e sem acrescentar muito. Talvez se assumissem um papel de divulgadores da obra de Clarice, se é que ela precisa disso, seriam mais úteis do que fãs assumidos diante de um mito. Vou dar o exemplo de Maria Bethânia, correndo o risco de ser injusto com a cantora: “Não posso fazer um texto sobre Clarice. Minha admiração  por ela e pelo trabalho dela, sua obra, me faz, me obriga a reconhecer que não sou capaz de comentar o que for sobre sua obra. É que sempre parece impossível pra mim dizer não a qualquer coisa sobre Clarice. Mas a consciência deve ser ouvida. A razão também. Não sou capaz. Sou muito pequena para tecer comentários sobre ela. Dizer textos dela posso, como intérprete. Daí a escrever sobre sua obra, ou escolha de sua obra, vai um longo caminho.” Então para que colocar isso?

Por uma questão de razão, continuarei a buscar sua obra, mas essa não é uma decisão de estômago, de coração. Meus preferidos foram: Amor, A bela e a fera, Feliz aniversário e Felicidade clandestina.

Para entender de psicanálise, mas principalmente de humanos

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Continuo meu trabalho de composição de personagem. Acabei de ler Um psicanalista no divã, do argentino, radicado em Paris,  J. D. Nasio. Na verdade o livro é uma grande entrevista onde é possível passar ou repassar pelos principais conceitos constitutivos da identidade humana.

A leitura flui rápido, os exemplos são claros e o assunto é dos mais interessantes. Defende sua causa? Claro que sim, mas também deixa transparente a questão das diferenças entre os vários psis. Gostei especialmente de duas partes: o amor e o prazer sexual e A sós com a criança. O ódio e a amizade, também é de extrema utilidade para quem anda comparando estações erradas. Há nela uma bela definição de amizade.

Na parte que aborda os sexos além da diferenciação entre a homossexualidade masculina e feminina, há uma interessante exposição sobre os homens impotentes e as mulheres abandonadas. Para Nasio, a pergunta essencial para uma mulher é: O que quer uma mulher? Já para os homens: O que pode um homem? São essas perguntas que a espécie não consegue responder e por isso muitas vezes sente-se atormentada. Aí vamos cair no ciúme, inevitável na relação humana. O da mulher é decorrente da angústia de perder, o do homem, pelo desejo de dominar. É claro que no caso do homem há o medo da humilhação e do abalo de sua virilidade, outro ponto bastante discutido no livro. O avanço das mulheres e uma série de mudanças de hábitos deixaram os homens se questionando sobre seu verdadeiro papel no mundo. À muitos só resta o divã…