Assunto: Indicação de leitura



Em defesa da psicanálise: Elisabeth Roudinesco

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Meu principal plano pessoal é escrever uma novela, talvez um romance, estou engrenando. Um dos principais personagens é um psicanalista e isto tem me levado a fuçar livros na área. Acabei de ler o da psicanalista e historiadora Elisabeth Roudinesco. Na verdade, ela não escreveu Em defesa da psicanálise, foi o também psicanalista Marco Antonio Coutinho Jorge, quem organizou e compilou textos e entrevistas dela.

A leitura me acrescentou vários novos conhecimentos. Soube um pouco mais de Freud, Lacan, mas fiquei mesmo surpreso foi em descobrir o envolvimento de Jung com o movimento nazista. Roudinesco aponta o quanto os Jungianos manipularam traduções, interpretações e tudo o mais para diminuir a ligação que existiu. Vou procurar um pouco mais, até já fiz terapia com um Jungiano, mas na época não sabia para discutir. Há também a contestação de que Freud nunca falou que estaria levando a peste para os Estados Unidos. Parece ter sido um jogo dramático de Lacan. Aliás, fica claro que a psicanálise conseguiu resistir a muitas disputas, vaidades e manipulações. Interessante leitura para quem quer conhecer um pouco mais do que se passa num divã, antes, durante ou depois.

Do privado ao público: O serelepe, história de Ruy Gonçalves da Saraiva

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No início da semana fui ao lançamento do livro do vice-presidente do conselho da Saraiva, Ruy Mendes Gonçalves, O serelepe. Não conheço o Ruy pessoalmente, mas já ouvi muitas histórias dele, como fornecedor ou agora como parceiro da Saraiva, os livros da Virgília são editados e comercializados pela Saraiva.

Mas minha “ligação” com o Ruy começou muito antes, logo na minha entrada no mercado editorial. Quando a Negócio Editora era ainda um plano, minha mulher e sócia tinha uma representação de peças de design. Estávamos vendendo para uma loja no Shopping D&D quando comentamos que estávamos abrindo uma editora. A dona da loja riu, perguntamos por que? Respondeu. O pai trabalhava na Saraiva. Com o conhecimento de então perguntamos se a Saraiva não poderia imprimir os livros para nós. Ela ligou depois de alguns dias e disse que não era possível, tinham vendido a gráfica, mas indicava uma outra, deveríamos falar em nome de Ruy Mendes Gonçalves. Seguimos o conselho e fomos muito bem atendidos, nenhum cadastro solicitado, tudo pareceu muito fácil.

Demorou para descobrirmos que era o presidente da Saraiva, figura importante no crescimento da história, história aliás que vim a descobrir de fato agora, na leitura de O serelepe.

A leitura é rápida e gostosa, Ruy foi buscar um amigo meu bastante competente, o escritor Thales Guaracy. Thales respeitou o estilo do Ruy, até acho que poderia ter sido mais insistente em alguns pontos. Mas pelo que sei, Ruy é persistente e determinado, imprimiu seu estilo à sua história.

O livro é corajoso, diferente do que se vê por aí, o projeto gráfico para mim deveria ser mais clean, se em alguns momentos carrega nas tintas pessoais, em outros abre precedente importante para que empresários e executivos bem-sucedidos sejam mais sinceros em tratar de importantes questões pessoais. Poderia ter tido mais da história da Saraiva, mas esse é um livro de um Mendes Gonçalves, fundamental para que a Saraiva se tornasse o que se tornou, mas não apenas um Saraiva. Num mercado tão carente de histórias, eis uma que dá ao leitor a oportunidade de saber sobre livros, livrarias, editoras e leitura, e também sobre relações pessoais.

Não sou mais virgem de Bolaño

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Acabei de ler Estrela distante, um dos primeiros romances de Roberto Bolaño. Demorei para engatar, fala de oficinas literárias, fala de literatura, mas no fundo fala de política, de regimes políticos, de ditadura, de esfacelamento de vidas e sonhos.

É um autor que exige do leitor, cheio de citações, pessoas e livros, parte criadas, parte eruditas. Não pensei muito bem se é alguma metáfora as poesias escritas por aviões que o personagem duplo escreve pelos ares. Tem algumas descrições e comparações brilhantes, e outras um tanto enfadonhas. Tem um absurdo aceitável e esse talvez seja sua graça. Cabe lembrar que, se pudesse, Bolaño seria apenas um poeta alternativo. A responsabilidade da vida, os filhos, o fizeram partir para a ficção e ser visto como um dos principais nomes da literatura latino-americana do século XX. Não dá aquela sensação de apego, de compulsão, você vai indo, tentando descobrir onde chegar, nãáo existem caminhos óbvios, e para decepção de alguns, nem conclusões…

Uma história gostosa de ler e de ver que os Fodas também erram…

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Tive uma reunião com o Eduardo Vieira na quinta passada, discutimos alguns projetos interessantes e ele me deu seu primeiro livro: Os bastidores da internet no Brasil. Disse que era rápido de ler.

Eu estava lá na Vila do Silício, mas vivia de livros, não embarquei na onda da internet (arrependido?), conheço alguns dos depoentes, já fui sócio de outro e continuo amigo dele, sou amigo de outros, não era algo distante. Comecei a dar uma espiada e quando me dei conta, não queria parar de ler. Foi minha leitura de feriado, como escrevi para o autor, furando fila de Bolaño e a biografia do Plínio Marcos.

É um livro reportagem e mostra os acertos, erros, pretensões, furadas e bolas dentro da internet brasileira. É interessante ler agora, passados 6 anos. Muito ainda vem sobre o assunto, mas já deu para dar uma consolidada em outros pontos. Conclusão? Com muito dinheiro, se ganha muito dinheiro. Mas também, com muito dinheiro, se perde muito dinheiro.

Se você enriqueceu com a internet, já deve ter lido. Se você ficou no sonho, talvez descubra alguns porquês.

Rubem Fonseca na fila do Bradesco

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Fui fazer uma operação que imaginava um tanto demorada na fila do Bradesco. Como sempre, livro salvador a tiracolo. A operação demorou bem mais do que o imaginado, não surtei porque lia o novo Rubem Fonseca, O seminarista.

A leitura prende a atenção, se impõe aos vários e repetidos comentários dos motoboys sobre futebol, churrasco e é claro, Geisy da Uniban. Me tomou pouco mais do que 3 horas. Quando acabei o livro, aí sim, pressionei por uma solução.

Não lia Rubem Fonseca há vários anos. Ele continuou recluso, eu mergulhei fundo em vários autores. Nos distanciamos um pouco. É gostoso, mostra o mundo como “ele pode ser e preferimos imaginar que não seja”. Mas fica muito no policialesco, senti falta de um pouco mais de drama íntimo do narrador, se não narrado por ele, pelo menos por outro. Gostaria de conhecê-lo melhor. Mas gostei, um bom presente.

Um livro sobre escritores, mas de alto nível, não tão atrativo.

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Li o livrinho do Canetti, Sobre os escritores. Primeiro, não dá para não citar o desprazer com um projeto gráfico tão pouco cuidado, a mancha não deixa espaço para anotações, não há nenhum tentativa de charme.

O texto é uma série de compilações feitas depois de sua morte, conferências, discursos, aforismos, anotações. Isso não dá ritmo. Logo no início o leitor é avisado que não se tratam de visões integrais de escritores, sim recortes personalíssimos. Resolvi ir adiante. Há alguns comentários interessantes, agrega numa visão do todo, mas não é nada introdutório. Como já tinha “abandonado” Auto de fé, não quis parar novamente, me acharia muito ignorante. No mínimo, ouvi falar pela primeira vez sobre alguns importantes escritores, sem nenhum livro em português.

Valeu a descoberta deste pequeno trecho: (sobre Karl Kraus) “Graças a ele comecei a compreender que cada indivíduo possui sua própria configuração linguística graças à qual se destaca de todos os outros. Compreendi que pessoas falam umas com as outras, mas não se entendem; que suas palavras são golpes que ricocheteiam nas palavras dos outros; que não há nenhuma ilusão maior do que achar que a linguagem seja um meio de comunicação entre as pessoas. Falamos com o outro, mas de forma a que ele não nos entenda.” Já não vale o livro?

O lobo, uma fábula que não alterou meu mundo

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Comprei O lobo pela promessa do diferente, uma fábula, um jovem escritor, tudo muito distante do meu tradicional agarramento ao homem e ao maduro. O inglês Joseph Smith conseguiu ser publicado em nove línguas no seu livro de estréia. Não é pouco, ainda mais se considerado o que é de fato o livro.

O comentário do The Observer promete que o livro altera levemente o mundo do leitor. Não alterou o meu, talvez por puro preconceito, por ler sobre bichos e ficar atado ao humano, por mais que essa tenha sido a intenção do autor. É claro que existe a possibilidade do paralelo, mas nossa caça é muito mais errante. Eu como predador não atingiria a idade adulta, talvez seja apenas um preconceito e sem livros e pensar, saísse-me muito bem na selva, no matar ou morrer.

Smith consegue humanizar a dúvida e a insegurança, talvez esse seja o maior mérito deste pequeno livro, que também fui até o final porque era curto e diferente, esperava alguma surpresa, mas mantive meu ritmo morno até o fim.

As vozes aparecem, mas a história poderia ser mais atrativa: As vozes do sotão

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Primeira leitura de Paulo Rodrigues, levado pelas críticas positivas nos cadernos de cultura, As vozes do sotão agradou mas não deslumbrou. Se mostra um escritor maduro, de verdade, não foi capaz de me dar vontade de continuar no drama do personagem, Damiano/Guido.

Vários ótimos momentos e uma vida complexa, distante dos contos de fada, como qualquer vida na maioria do tempo, mas sem uma conexão entre tudo e um desejo de ir seguindo o personagem ou a voz para as instâncias mais fundas da identidade humana.

A edição é bem cuidada, CosacNaify, apesar de não ter certeza se gosto das páginas com fundo escuro, atrapalham as anotações. Meu resumo é este, um bom escritor, denso, mas que me pareceu mais encantando com sua criação do que com a história.

Vida de casal: Tolstói e a Felicidade conjugal

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Eis um pequeno livro de Lev Tolstói, Felicidade conjugal,  que te deixa do começo ao fim a espera de uma ação mais abrupta, mas ela não acontece, e não tem problema. Narrada do ângulo da mulher, pela própria jovem que casa com um homem bem mais velho, no “final da vida”, para minha sorte, 43 hoje é ainda antes do meio, conta a história desse relacionamento e da evidente diferença de expectativa e comportamento, ainda vigentes e que devem ser uma questão muito importante para vários segundos casais, por mais que as mulheres reclamem, e minhas amigas reclamam, homens de 40, 50 quando separam-se buscam refúgio na juventude e viço dos 20, 30, depois podem até se arrepender, mas a grande maioria quer afastar seu envelhecimento, convivendo com mulheres que lhe exigem menos da libido.

Aliás libido é o único ponto fraco do texto de Tolstói, a falta desse elemento. De resto é um livro muito gostoso de ler, todos os dramas internos de Mária e suas dúvidas, primeiro em relação a assumir o amor pelo amigo jovem do pai, depois por perceber que nenhuma relação suporta o mesmo tipo de sentimento do começo ao fim. Se Tolstói foi pouco moralista neste livro, serei eu nos meus comentários. Este é o principal problema dos relacionamentos, talvez o segundo principal, a expectativa que as coisas irão sempre ser como foram no início, nunca serão, caberá a cada um dos dois encontrar e construir em conjunto o novo formato da relação. Qual é o principal problema? As pessoas não se abrem de fato para o outro, muitos ainda acreditam que tem na família de origem ou em algo não presente, a verdadeira conexão, ou seja, a humana vontade de se esconder, de fugir de seus lados menos nobres.

Tolstói monta a solução de uma relação, o ápice, a desilusão das duas partes e a aceitação das circunstâncias. No lado pessoal ainda acredito que depois da desilusão pode vir uma reinvenção, mas essa exige muito trabalho. Depois desse comecei a ler As vozes do sotão, e há uma outra relação, onde os limites de respeito não foram mantidos, assunto para post futuro.

Gostei bastante, vale ler e utilizar trechos para “discutir a relação. Se não quiser saber o último parágrafo do livro, não leia o seguinte: A partir desse dia, terminou o meu romance com meu marido; o sentimento antigo tornou-se uma recordação querida, algo impossível de trazer de volta, e o novo sentimento de amor aos filhos e ao pai dos meus filhos deu início a uma nova vida, de uma felicidade completamente diversa, e que ainda não acabei de viver…

Os emigrantes - W.G. Sebald

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Há meses vinha ensaiando conhecer a obra do alemão W. G. Sebald. Comprei dois livros, Austerlitz e Vertigem, mas só no terceiro é que de fato fui à leitura, também influenciado por um comentário de Michael Dirda, supostamente do The Washington Post: “se você é novato na obra de Sebald, talvez deva começar por esta jovem obra-prima”. É claro que além de um jornalista, havia também o aval de Susan Sontag.

Depois de acabar a leitura, confesso que tomarei ainda mais cuidado aos escrever orelhas e quarta-capas de livros, é claro que um editor quer vender livros, mas para a sorte de Sebald, eu já comprei os dois anteriores a Os emigrantes, se não, acredito que não compraria. Assim, já que está em casa, por alguma razão posso pegar para lê-los.

São quatro histórias, gostei mais da última, tudo bem, foi leitura de avião, Alemanha de fundo, mas não conseguiu me pegar pelo estômago, talvez seja sutil demais para mim, comecei agora a novela Felicidade conjugal de Tolstói, muito mais o que me atrai, rabisco mais.

Sebald trata de forma inteligente vidas sem maiores esperanças, junta histórias de suicídio, mas não achei nenhuma graça adicional nas fotos que conversam com o texto, para mim leitura não precisa de foto, aliás, leitura não deve ter foto, se é para formar a imagem, sento no cinema ou no teatro, e tenho um quadro mais completo.

Coloco Sebald naquele estágio de quem vou ler as próximas críticas, preocupado em saber se estou “errado”, mas vou ter que confiar muito na pessoa e nos argumentos para passar os dois livros na frente de tantos outros da minha interminável e crescente pilha de leitura.

Os cus de judas - meu primeiro Lobo Antunes

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Desde a Flip estava por ler António Lobo Antunes. Lá, só encontrei um livro pelo qual não queria começar, comprei, mas esperei até o relançamento de Os cus de judas, um livro premiado, para mergulhar neste escritor que me cativou muito na feira.

Comecei durante uma viagem, esqueci na pasta e li outras coisas na frente. Me dei conta e voltei ao português. Uma amiga me lembrou que ele declarou na mesma Flip que agora escreve de forma mais objetiva, vou testar.

Mas só vou testar porque existem momentos no livro que são puro “deleite de linguagem”, esses compensam a “falta de história”. Se tem uma história, como o que entendo por isso, não a percebi. A forma supera o conteúdo. Não é meu estilo preferido, mas Lobo Antunes domina a linguagem e consegue colocar metáforas e paralelos dos mais interessantes. Deixa claro se estar diante de um escritor maduro, que tomará tenha feito alguns ajustes na produção atual para ficar menos rebuscado, coisa que o vocabulário empregado já o é e fica aumentado por não haver “tradução” para o nosso português.

Vou continuar a ler Lobo Antunes, como um exercício de elevação de estilo, dois exemplos:

Quer um uísque? Este banal líquido amarelo constitui, nos tempos de hoje, depois da viagem de circum-navegação e da chegada do primeiro escafandro à Lua, a nossa única possibilidade de aventura: ao quinto copo o soalho adquire insensivelmente uma agradável inclinação de convés, ao oitavo, o futura ganha vitoriosas amplidões de Austerlitz, ao décimo, deslizamos devagar para um coma pastoso, guaguejando as sílabas difíceis da alegria…

Escute. Vai começar a amanhecer, os despertadores do prédio em frente empurraão brutalmente para fora do sono as pessoas que dormem, extraindo-as do útero lunar dos lencóis na direcção de quotidianos sem alegria, de empregos melancólicos, dos rissóis de plástico das cantinas…

Entendeu 0 que quero dizer? A beleza do texto o deixa menos fluído, no fundo, só requer concentração e dedicação.

Abaixo do Equador: No teu deserto

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O mês passado foi duro, trabalho ativo intenso, menos espaço para leitura, é por isso que argumento que o trabalho emburrece. Lendo o caderno Equilíbrio da Folha de hoje, comprovo a segunda parte da minha equação, o trabalho brocha… Isso porque há uma matéria sobre casais sem sexo, explicando que as pressões do dia-a-dia muitas vezes levam a uma relação sem contato sexual, coisa que perdura por, 10, 20, 30 anos. Não sou adepto. E foi de um período sabático que cunhei a tese: o trabalho emburrece e brocha. Sem trabalhar, li e fiz muito mais outras coisas… Mas como não fiquei milionário e também porque o trabalho está inserido na vida das pessoas, voltemos a ele e ao livro que acabei de ler (sim, apelei para livros mais curtos durante o mês de setembro, quando se começa a contabilizar a leitura, é frustrante demais abaixar a média).

Mas estava animado para ler o novo e curto livro de Miguel Sousa Tavares, No teu deserto. Chavões à parte, descobri que é só na geografia que os desertos onde se passam a história ficam acima do Equador. Parece outro autor, o tanto que gostei de Equador, achei este morno, em poucas frases se sente a escrita forte e marcada, prato cheio para um livro de máximas, grifei pouco.

Já que falei de sexo no início, faltou sexo neste livro, parece que foi o jogo encontrado por Tavares para “surpreender”. Confesso que a alternância de narradores entre os capítulos me pareceu um tanto infantil, acredito que algo que perdure por tanto tempo na memória, como sugerido, traz consigo um tanto maior de arrependimento que o autor não colocou.

Não sou melancólico, mas gosto de reler Fernando Pessoa

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Minha mulher voltou de uma exposição coletiva em Portugal. Trouxe além de doces, queijos e vinhos, um carimbo de um Ex libris, sem meu nome porque não daria tempo, iam visitar a Bienal de Veneza, falo disso depois e alguns livros muito bem editados e que dão prazer.

Um deles é de uma pequena coleção sobre Fernando Pessoa: a coleção instrumentos para a melancolia. Me deu o número 7, Fernando Pessoa, poemas escolhidos. Algumas páginas são verdes, outras brancas e todas para serem lidas requereram que se acabasse o corte dos cadernos. Fernando Pessoa não é meu Fernando Pessoa favorito, acho que prefiro Alberto Caeiro, aliás, nas próximas releituras vou atentar a esse detalhe, escolher e descobrir se consigo explicar a escolha.

Gostar de Fernando Pessoa para mim é a vitória da beleza, da estética, sobre o estilo, explico melhor, consigo gostar de pessoa mesmo não vendo na minha prática, comportamento tão melancólico. Além deste livrinho, trouxe outro, A imortalidade, um pequeno tratado sobre como são os homens: intelecto, sentimento ou vontade. E também sobre as variações e combinações deles. ainda não terminei, fala das diferenças de tipos humanos e da sua relação com a inteligência, e arte, bem curto e que traz uma visão interessante do sentimento para a produção: “qualquer pessoa que seja, de algum modo, poeta sabe muito bem que é mais fácil escrever um bom poema (se os bons poemas estiverem ao seu alcance) acerca de uma mulher que lhe interesse muito do que acerca de uma mulher por quem esteja profundamente apaixonado”. Por que? Responde Pessoa: “Uma grande emoção é excessivamente egoísta;  chama a si todo o sangue do espírito e a congestão deixa as mãos demasiado frias para escrever.” Já sentiu isso na prática?

Agora eu gostei mesmo é do baralho, 54 cartas/pensamentos, já que no baralho há os coringas, que podem e devem ser lidos e relidos de tempos em tempos. Um exemplo? 6 de copas: “A loucura, longe de ser uma armadilha, é a condição normal humana. Não ter consciência dela, e ela não ser grande é ser homem normal. Não ter consciência dela, e ela ser grande, é ser louco. Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido. Ter consciência dela e ela ser grande é ser gênio.”

Você é o que?: (  ) homem normal; (  ) louco; (  ) desiludido; (  ) gênio

Este baralho não deixarei meu filho pegar para jogar truco…

Para aprofundar os conceitos de psicanálise

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Gosto de ler sobre psicanálise, procuro com isso entender o ser humano. Passeando pela Cultura de Porto Alegre dei de cara com um livro de J. D. Nasio, Lições sobre os 7 conceitos cruciais da psicanálise, resolvi incluí-lo na minha lista de leitura, era promessa de simplificar Freud e Lacan.

Comecei empolgado na Castração, o autor estava entregando, na sequência vieram Falo, Narcisismo, Sublimação, Identificação, Supereu e Foraclusão e o meu ritmo de leitura foi diminuindo, no final, não parava de pensar em parar, mas o livro era curto, 170 páginas, não valia a pena parar, cometia o mesmo erro da maioria dos livros da área, conceitos abstratos supostamente utilizando linguagem simples e direta. Mas não era bem assim, senti falta de exemplos mais interessantes. Mesmo assim, obtive o que queria, afinei os conceitos e incorporei algumas reflexões para um texto de ficção que estou desenvolvendo. Recomendação parcial!

Olhos secos: um homem em busca de si, mas que só encontra o pai

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Nunca tinha lido nada de Bernardo Ajzenberg (talvez só seus artigos de jornal, mas os dele não o levarão a nenhuma Academia…). Olhos secos foi minha primeira incursão na obra deste jornalista que montou um sebo que está na minha lista de visitas futuras. Gostei da história do Leon que busca se encontrar, trabalha num cartório, tal qual meu pai, e busca se livrar da imagem do pai, acho que já consegui.

O personagem de Ajzenberg mistura seu diário de uma viagem a Europa e dos sonhos de uma juventude com o presente, quando recebe ameaças e compartilha a crise dos 40 com um amigo, também não bem-sucedido. O pai, antes de morrer dá uma dura final no filho. A estrutura é boa, convencional, passado interpelado pelo presente e revelando os sonhos, concretizados e não, que assombram o homem.

A trama também é bastante boa, Ajzenberg é corajoso nas relações familiares. A linguagem é que para mim ficou prejudicada, mas a culpa não é do autor, é que eu li seu livro logo na sequência de A marca humana de Philip Roth. A essa comparação, poucos ganhariam. Um livro maduro, muitas vezes também tenho a sensação de ter olhos secos, mas fujo dos dilemas do personagem…

Não são só a digitais, principalmente as mentais: A marca humana

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Comecei a tal trilogia americana de Philip Roth pelo final. A marca humana analisa os anos Clinton como presente e toda o desenvolver da questão racial como pano de fundo. Sem querer, cai num tema muito atual no Brasil, veja o destaque dado ao novo livro do Demétrio Magnoli sobre isto.

Se eu pudesse escolher um único escritor para ser, escolheria Philip Roth, para ser não, para escrever. Sou menos ranzinza do que ele, mas nada que o tempo não consiga esculpir. Mas, pretensões inclusas, acredito que também tenho acidez de diagnóstico.

Coleman Silk procurar o Nathan Zuckerman para pedir que ele escreva um livro sobre o que aconteceu na faculdade. A partir daí Roth aborda com mão pesada, necessária, não só a questão racial, mas também a questão dos efeitos da guerra do Vietnã nos americanos que lá estiveram ou mesmo que a viveram à distância, a questão da intelectualidade, a questão da intelectualidade feminina, e muito da relação de pais com filhos. Também coloca Bill Clinton como humano no que fez na Casa Branca e apresenta o que deveria ter feito para calar Monica Lewinsky. Isso me faz olhar para Hillary ainda mais com estranheza…

Alguns momentos me pareceram excessivos, mas é um belo livro, entrega o que o título sugere. Vou acelerar minha tarefa de ler sua obra.

O pai dos burros, pena que não é um software…

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Se você é metido a escritor, tal como eu, eis uma leitura fundamental. Se você é editor, tal como eu, eis um livro que se fosse um software seria muito melhor. Adoraria poder pegar um original e tirar dele um cálculo do percentual de lugares comuns e frases feitas. Daí, me restaria a escolha das faixas: de tanto a tantos %, nem mandar resposta, não se dar ao trabalho de responder. De tanto a tantos %, enviar email agradecendo a preferência pela editora mas avisar que não se trata assim de uma obra-prima, nem sequer tão original. Apenas se tivesse próximo a 5% de lugares comuns e frases feitas e que valeria a pena um passar de olhos…

Brincadeiras de editor à parte, o novo livro do Humberto Werneck serve para o leitor ter noção de que estilo utiliza: o seu, ou o dos outros. Para minha felicidade, passei no teste da auto-leitura, utilizo bem poucas dessas expressões de domínio público, mas sou capaz de identificar vários amigos que ficariam mudos se acesso a elas não mais tivessem. Tê-lo lido de uma vez só foi importante para se dar conta de como é fácil apelar para o “senso comum”, utilizar “a voz do povo” e ficar muito distante da autoria de um texto. Ou seja, se quiser escrever algo erudito e autoral, fuja dessas expressões, se quiser escrever algo popular e um best-seller, eis as expressões a serem utilizadas, a escolha é sua.

Por mais que o autor diga no prefácio que não quer cercear ninguém, está é para mim uma das maiores utilizações do livro.

Copio-o e também cito Hannah Arendt (por ele posta no prefácio): “Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e conduta convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de proteger-nos da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera exigência. Se respondêssemos todo o tempo a essa exigência, logo estaríamos exaustos”.

Você decide se encara a realidade ou simplesmente apela ao O pai dos burros

Agrestes - João Cabral

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Numa palestra de um publicitário ouvi-o comparar João Cabral a Drumond, dizia preferir o primeiro, por ser mais seco, mais duro, como ele. Fui em busca deste livro e encontrei sim essas descrições da comparação, mas não seria por este livro, por mais que contenha alguns trechos muito fortes, que me entregaria de todo a este e não ao outro, por mais que mais próximo me veja deste “primo” na falta de doçura, pelo menos como alguns próximos me relatam.

Mesmo sem ser um profundo conhecedor, as vezes acredito que na média, Drumond prevalece, em pontos específicos, talvez João Cabral possa prevalecer, mas hoje, ao acabar a leitura de agreste, e ter de Drumond a lembrança do popular que sua poesia incute nos brasileiros, sou mais este. Meu Agreste ficou pouco rabiscado, pode ser que me faltasse a inspiração, mas deve ser que o poeta não me passou. Mas não desisto, no futuro volto a ele:

Nele houve o insano projeto
de envelhecer sem rotina;
e ele o viveu despelando-se
a toda pele que o tinha.