
Ontem tive um encontro de amigos. Um de 30 anos, outro de 36 anos, ou seja, amigos de longa data, rejuntados pela vida, chegando até aqui por caminhos dos mais diferentes.
Ganhei do que é frade, sim, um ateu com um amigo frade, um exemplar do novo livro do Frei Betto, Diário de Fernando. Exemplar com a dedicatória direta: muita fome de justiça.
Encontro poucos interlocutores nos representantes divinos, tenho um especial respeito pelos dominicanos, passado recente e presente. Admiro Frei Betto, escreve artigos no limite, passou pelo poder e foi dos poucos que de lá se afastou, me parece que por descordar do rumo dado, pelos que supostamente lutaram mais ao extremos, ao sentarem-se nas cadeiras do poder (não li A mosca azul, mas lá isso deve ser mais abordado, aliás, fica a provocação a Betto, escrever um perfil de Lula, antes, durante e depois do poder, será ilustrativo e legitimo).
Pretendo ler Diário de Fernando, ainda sinto uma culpa de outro por não ter nascido alguns anos antes e ter combatido de forma mais efetiva a ditadura, mas agora tenho um “programa” de leitura montado. As condições em que foi escrito e viabilizado, pelo frei Fernando de Brito, em letras minúsculas de papel de seda, posteriormente enroladas dentro de uma caneta bic trocada pelo visitante da semana, já justificam. Antes de colocá-lo nesta seção da biblioteca, li a introdução e também acho que as memórias de alguns, de várias matizes, precisam sim tornar-se perenes e subversivas (quando o autor cita o filósofo Walter Benjamin).
Mas fazendo uma auto-análise, talvez os três amigos de ontem, 20 anos atrás aderissem a luta contra a ditadura de corpo e alma. Nos dias de hoje, talvez colocássemos apenas a alma. Será que o mesmo se passaria com os frades dominicanos presos? Com os outros jovens que perderam suas vidas ou ganharam marcas em seus corpos e mentes? Ou seja, mudei eu, mudou o entorno, mudamos todos?