Espelho LXV
Ser humano é utilizar a energia final dos seus músculos para o último esforço da comemoração. Mas é também desperdiçar a mesma energia, em besteira, em culpa, no dia-a-dia…
Ser humano é utilizar a energia final dos seus músculos para o último esforço da comemoração. Mas é também desperdiçar a mesma energia, em besteira, em culpa, no dia-a-dia…
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Roger Federer, esse é o cara de verdade, sem jogo de palavras ou político.
A Nike preparou um vídeo para homenageá-lo com ninguém menos do que Michael Jordan, Pete Sampras, John McEnroe, Serena Williams e Tiger Woods. O equivalente ao mundo da literatura de Kafka, Dostoiéviski, Roth, Flaubert e Lessing, não é pouco.
Se Lobo Antunes disse ontem que um escritor deve jogar como Garrincha, pela alma, deve também ter a determinação mental de Federer, para não cair na tentação diante das palavras…
Ser humano é sentir o corpo reagir rebelde ao comando do cérebro, é admirar o que nem se consegue compreender direito…
Ser humano é diante de uma disputa lutar contra a derrota, mesmo sem questionar se era necessária, desejada, justa ou a melhor solução…
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A edição de junho da revista The Atlantic traz uma interessante matéria sobre felicidade. A vantagem de tratar deste assunto se utilizando de mídia séria é enorme, pelo menos longa.
A matéria de quase 12 páginas sobre o assunto cobre o trabalho de George Vaillant, um psiquiatra de 74 anos que dedicou 42 anos de sua carreira, quase minha vida toda, a um estudo chamado Grant Study. Já ouviu falar do Grant Study?
O Grant Study é um dos maiores acompanhamentos de seres humanos que se tem notícia. O nome vem do patrocínio de W.T. Grant, um milionário proprietário de lojas de departamento que bancou inicialmente o acompanhamento freqüente de 268 indicações do reitor de Harvard para os formandos dos anos de 1942, 43 e 44. De tempos em tempos essas pessoas eram entrevistadas e examinadas. A partir de 67 Vaillant encampou a causa como sua. Nem todos os arquivos estão abertos: o de John Fitzgerald Kennedy foi retirado e somente será público em 2040.
A turma tinha outros integrantes famosos, um escritor, Norman Mailer e vários políticos, pelo critério de partida, uma turma de Harvard já é uma seleção privilegiada. Até hoje os sobreviventes são avaliados, Vaillant faz poucas outras coisas da vida além de olhar para essas avaliações e tentar tirar conclusões. Recomendo a leitura de todo artigo, coloco aqui algumas conclusões de Vaillant:
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Finalmente Roger Federer ganhou Roland Garros, não teve a oportunidade de bater o rival Rafael Nadal, mas bateu quem bateu Nadal. Não deixa ser uma vingança de quem perdeu 3 finais seguidas no torneio que nunca havia ganhado. Agora Federer é o sexto jogador a conseguir ganhar os 4 Grand Slams. Igualou também o número de vitórias neste tipo de torneio, o principal do tênis, 14 títulos, igual a Pete Sampras, quem bateu como o melhor jogador da história.
Quem já pegou uma raquete sabe o que este suíço de 27 anos faz com a dele nas mãos. Além de tudo, é uma exceção em comportamento, alguém diferenciado. Soube amargar uma baixa, imagino que agora esteja mais liberado para a vitória, tirou um peso das costas. Por mais rápido e violento que esteja o tênis atual, ver Federer jogar é algo muito plástico, também uma experiência estética. Este soube manter um elevadíssimo nível por muito tempo, acho que vem mais por aí…
Ser humano é fingir que dá ao outro o que ele gosta, mesmo consciente de que não precisa de nada daquilo, pelo contrário. Daria mais trabalho e menos retorno educar para a verdade…
Ser humano é precisar da diferença do outro para completar nossas aspirações, mas é também cuidar para que essas diferenças funcionem muito mais como uma separação, a que garante que iremos continuar como estamos, quer nos achemos, melhores, e mesmo se nos achemos piores, no mínimo, continuamos buscando a completude que de fato não queremos…
Ser humano é olhar para o outro, diferente, algumas vezes para aprender, mas muitas outras para garantir a distância, mesmo que voluntariamente trabalhe. A fiança da distância é a proximidade falsa que conforta o lado que quer esconder…
Ser humano é embarcar em qualquer moda que pareça novidade e de onde se intua que não é necessário enfrentar as questões que se sabem complexas…
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Ontem à noite assisti a entrevista do Silvio Meira na Marília Gabriela, ja falei sobre ele aqui, que levantou o tema. Hoje, tem uma ótima entrevista com o Marcelo Coutinho, meu contemporâneo de GV na Gazeta Mercantil, sugiro a leitura.
Confesso que ando meio cabisbaixo, exagero, com a hipótese do fim dos jornais, o pior é que tem uma parte da “galera” que não está nem aí, acha que já deveria ter acabado. Fico triste em imaginar a perda do meu companheiro, talvez quem já causou mais ciúme na minha mulher, várias batidas na porta seguidas de um “vai demorar” e muita reflexão, leio 4 jornais por dia há mais de duas décadas (um período de três, quando o Valor não existia e num período que abandonei a Gazeta) e ainda complemento com o Globo de final de semana. Para onde viajo leio o jornal local e sofro na volto com uma pilha enorme me esperando.
Já fui formado, espero que o meu filho tenha a mesma chance, assumo como minha a responsabilidade de mostrar que nem tudo que é googado é confiável, faz sentido, vale a pena.
Voltando ao Coutinho, veja sua análise sobre a cultura do fã, criada por Henry Jenkins ou então a discussão sobre hard news x análise a la Economist e a necessidade de se criarem novos modelos de negócios. Que você vai precisar de um filtro, vários filtros, não tenho dúvida, aliás, um filtro de informação vai ser muito mais indispensável do que um filtro solar, sem este você vai queimar a pele e ganhar um câncer, sem o de informação, você vai queimar os neurônios e ficar maluco…
Eis a resposta do meu teste…




Você é… “Carmen – Uma biografia”, de Ruy Castro
Boa história é com você mesmo. Adora ouvir, contar, recontar. As de pessoas interessantes e revolucionárias são as suas preferidas. Tem gente que liga para você só para saber das últimas fofocas. E confesse: com seu jeitinho manso e detalhista, você dá aos fatos um sabor todo especial. Além disso, não se contenta em reproduzir o que já foi dito. Por isso, se fosse um livro, você só poderia ser uma boa biografia, daquelas que faz os leitores deitarem na rede do fim de semana e se entregarem às peripécias de uma grande personagem. Aliás, você já pensou na profissão de repórter? Ou de escritor?
“Carmen – Uma Biografia” (2005), sobre Carmen Miranda, é uma das aclamadas biografias publicadas por Ruy Castro, também jornalista e tradutor, considerado um dos maiores biógrafos brasileiros.


Ser humano é aceitar indevidamente a cisão entre a essência e a sobrevivência, deixando que a vida vá se afastando de seu núcleo, transformando-se em algo paralelo, supostamente próximo e retornável, mas definitivamente inatingível…
Ser humano é cobrar dos outros a incoerência que eles apontam em nós mesmos…
Ser humano é testar seus limites e sua própria capacidade de aceitação diante dos modelos de outros. Alguns se encaixam e ficam menores, outros se encaixam e acham que ficam maiores, pouquíssimos criam os seus próprios modelos, eles costumam doer muito antes de mostrar qualquer sentido …
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Um amigo, enquanto escrevo esse post, deve estar curtindo um jantar na casa de seu pai, a família toda foi convidada para a comemoração dos 200 anos do nascimento do inglês Charles Darwin. Nunca tinha visto nada parecido, mas o pai, com quem já tive interessantes conversas, reconheceu e achou importante para os netos a celebração da possibilidade do abandono das trevas. Sim, Darwin e sua seleção natural e a teoria da evolução, apesar de alguns buracos, deixou como legado conceitos para mim muitos mais críveis do que o tal design inteligente. A teoria por ele composta ainda se sustenta, na mídia, várias matérias mostraram o que Darwin fez e também o quanto ele sofreu, exatamente por ter noção da dimensão da repercussão das suas idéias.
Vale lembrar que o jovem da foto da esquerda iniciou estudos para ser pastor, já o senhor da direita, ainda que atormentado pelos receios religiosos, sua mulher então desesperou-se por ter certeza que o marido iria para o inferno após a divulgação das teorias, e nunca mais o veria, já que ela tinha um comportamento de acordo com os desejos e prescrições divinas, viu-se obrigado a declarar que diante das evidências de toda a teoria que construiu, uma outra solução para a criação do mundo era inviável. Até hoje é difícil as pessoas aceitarem ser descendentes de um mesmo ancestral que as ditas outras formas menos desenvolvidas que habitam o planeta. É o homem tem dessas coisas…
Não custa lembrar que nos diários de sua passagem pelo Brasil há fortes menções aos gritos dos escravos, muitas décadas depois, mais de século e meio, se passasse por aqui Darwin ainda iria se assustar com os não mais escravos, mas agora “apenas” excluídos. A teoria da evolução tá precisando dar mais as caras por aqui, a tal da seleção natural está deixando que muitos homens públicos com aptidões apenas pessoais prevaleçam, os públicos são facilmente descartados.
Valeu Darwin!
Morreu ontem John Updike, e eu continuo perdendo para a imensidão da literatura. Não tinha lido nada dele, tinha considerado o Cidadezinhas, lançado no final de 2008, mas pelas críticas achei que seria melhor focar na tetralogia do Coelho: Coelho em crise, Coelho cresce, Coelho corre, Coelho cai. Toda ela esgotada. Acho que a Companhia das Letras deverá reeditá-la.
Além do estilo de Updike meu interesse é descobrir se o campeonato de basquete que perdi é minha garantia para ter um destino “melhor” que o do coelho. Do que li, é um retrato de muito do que temo e vem para cima de mim de forma natural. Resta a dúvida se antes encaro o coelho ou tento reescrever o meu coelho…
Ser humano é ter preguiça e medo de encarar questões morais e éticas que quase sempre acabam com a zona de conforto, é preferir o superficial, fingir que não processa, adiar o espelho, sempre com a esperança que o perdão sobreporá. Em termos individuais, funciona, em coletivos, não se anda.