Março de 2010

Morrou ontem Johnny Alf, alguém completamente ligado a MPB, meio esquecido, mas que agora talvez tenha seu valor reconhecido além das fronteiras dos experts da música. Gravado por muitos, estava recolhido há tempos. É melhor Eu e a brisa falar:
Ah, se a juventude que esta brisa canta
Ficasse aqui comigo mais um pouco
Eu poderia esquecer a dor
De ser tão só pra ser um sonho
Daí então quem sabe alguém chegasse
Buscando um sonho em forma de desejo
Felicidade então pra nós seria
E, depois que a tarde nos trouxesse a lua
Se o amor chegasse eu não resistiria
E a madrugada acalentaria a nossa paz
Fica, ó brisa fica pois talvez quem sabe
O inesperado faça uma surpresa
E traga alguém que queira te escutar
E junto a mim queira ficar
Fevereiro de 2010

Morreu hoje aos 95 anos o advogado, empresário, imortal, homem da cultura, mas principalmente bibliófilo e amante do livro, José Ephim Mindlin.
Se a Metal Leve teve seus dias de glória, será a biblioteca que o imortalizará. O prédio da biblioteca Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP está atrasado, espero que a doação não seja revogada.
O conheci já com mais de oitenta de cinco anos, tive alguns momentos dos mais interessantes. Alguém que soube levar uma vida com significado. E isso é bastante, muito mesmo.
Fevereiro de 2010

Morreu ontem o jornalista e escritor argentino Tomás Eloy Martinez, autor de um livro sobre Evita Perón, uma ficção sobre os caminhos e confusões que envolveram o corpo da “deusa” portenha, e de alguns livros de ficção e outros ensaios.
Ganhador de vários prêmios, foi também um combatente da ditadura militar. Seu câncer deve ter acelerado com a família Kirchner perseguindo a imprensa…
Janeiro de 2010

Morreu hoje em Curitiba o crítico literário Wilson Martins, um dos mais destacados intelectuais brasileiros. Num tempo onde internacionalmente se discute a relevância das críticas, a empresa Kirkus Review anunciou a interrupção de suas atividades e depois parece que foi salva, e em sites de editoras existe a visão de que os prêmios poderiam ser os substitutos dos críticos, a perda de alguém com o conhecimento de Wilson é dificilmente substituível, por mais que já não mantivesse uma produção rigorosa.
Deu aulas nos Estados Unidos e escreveu em alguns volumes A crítica literária no Brasil e A história da inteligência brasileira entre outras obras.
Janeiro de 2010

J. D. Salinger morreu hoje em Nova York aos 91 anos. O último livro que publicou foi em junho de 1965, seis meses antes de eu nascer… Não dava entrevistas e não se deixava fotografar. O apanhador no campo de centeio foi um enorme sucesso mundial, escrito quando tinha 30 e poucos anos, na década de 1950 e tratando sobre um adolescente.
Li há alguns anos, não achei nada demais. Mas inspirou escritores ao redor do mundo, a escrever e também a adotar comportamento parecido…
Janeiro de 2010

O terremoto no Haiti matou a brasileira Zilda Arns. Figura conhecida da sociedade civil do país ganhou respeito e admiração por estar próxima de pessoas carentes. Contribuiu com um livro que editei: Ah, se eu soubesse… Brasil (respostas para uma pergunta simples: o que você gostaria de ter sabido 25 anos atrás), eis a resposta dela:
Que a organização da comunidade e uma rede de voluntários são fundamentais para a diminuição da mortalidade infantil e da violência dentro de casa.
Talvez hoje não tivéssemos tantos jovens violentos se, 25 anos atrás, se tivesse cuidado melhor das crianças em suas famílias.
Dra. Zilda Arns Neumann (Fundadora e Coordenadora Nacional, Pastoral da Criança - CNBB)
Janeiro de 2010

Morreu na segunda-feira o diretor Eric Rohmer (fiquei ontem e parte de hoje desconectado). Assisti poucos filmes dele, acho que nem a série das estações completa. Sempre ensaiei pegar na 2001 e acabava me concentrando em outros diretores. Teve uma carreira consistente e importante na Nouvelle Vague além de participar editorialmente das principais publicações sobre cinema.
Janeiro de 2010

Meu avô era de São Luiz do Paraitinga, cidade que mais sofreu com as chuvas do réveillon. Há dois anos fomos visitar com aquela curiosidade humana de busca de origens. Passamos pelas igrejas, casa de Oswaldo Cruz, mercado e outros pontos de interesse que se foram. O homem não está se relacionando direito com a terra. A taipa é frágil, mas durou todo o século XX…
Dezembro de 2009


Fechou no sábado em São Paulo o primeiro hotel cinco estrelas da cidade. Usado por poderosos, políticos e artistas já representava pouco na cultura da cidade, mas acho que vale uma lágrima porque comprova que é difícil remar contra a corrente. É possível que os donos não tenham acompanhado as movimentações, mas o baixo Augusta voltou a se valorizar, com um público muito diferente do que se imagina entrando no aristocrático lobby do hotel.
Comi no restaurante poucas vezes, mas lá ganhei a aposta com um amigo, ou seja, já foi local ”sonho de consumo”. Seu bolito foi exportado para o Parigi. A lágrima é principalmente pela morte dos independentes diante das cadeias todas com a mesma cara, é pelo medo que os que podem tem da vida real. Passe pelo baixo Augusta e veja se aquilo tudo também não é um lado seu, talvez o que mais negue, diante dos outros, mas um lado dentro de todo mundo. O Ca’d’Oro dava a impressão de ser a intersecção possível do luxo e do lixo. Seu fechamento mostra a dificuldade desta convivência, mas mostra mesmo a certeza que nem um, nem outro existem isoladamente…
Novembro de 2009


Acho que quando assisti ao O pagador de promessas, ainda era católico, lembro pouco do filme. Mas sempre esteve ao meu redor algumas das discussões do por quê este filme ter chegado tão longe. Lendo sobre a morte do diretor Anselmo Duarte nos jornais acompanhei algumas de suas declarações: a inveja causada, principalmente na turma do Cinema Novo, atrapalhou bastante. E como dizem os mais preconceituosos, inveja de homem é bem pior.
Anselmo Duarte corre o risco de ficar lembrado como homem de uma obra só. Mas melhor isso, do que nada, afinal, bateu em 1962 Buñuel, Antonioni e, se não me engano, Robert Bresson. No juri, Francois Truffaut. Não é pouco. Ainda mais se considerarmos que foi alguém que fez de tudo para fugir do estigma de galã e partiu para a direção. Não sei se houve um impacto da ditadura militar segurando sua ação, mas é claro que os militares jogaram contra tudo o que pudesse representar consciência, em detrimento de um ufanismo mais massivo, como o futebol.
Uma das poucas glórias dos últimos anos foi ainda em Cannes, na festa de 50 anos do ainda festival mais importante do mundo, por mais que não consiga convencer meu filho de 12 anos que Cannes é melhor “rótulo” do que Oscar. Valeu Anselmo!
Novembro de 2009


Morreu hoje o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss aos 100 anos. Lecionou por aqui há mais de 70 anos e contribuiu com interpretações sobre nossa origem. Deixo aqui o link para o blog do Daniel Piza, inspiração confessa para o nome e razão de ser desta seção do blog, ele conhece melhor a obra e tem mais propriedade para os comentários.
Uma demonstração da originalidade pode ser sentida nos títulos disponíveis em português:
O cru e o cozido (CosacNaify)
Do mel às cinzas (CosacNaify)
Mito e significado (Edições 70)
A origem dos modos à mesa (CosacNaify)
Saudades de São Paulo (Companhia das Letras)
Saudades do Brasil (Companhia das Letras)
O suplício do Papai Noel (CosacNaify)
Tristes trópicos (Companhia das Letras)
Antropologia estrutural (CosacNaify)
De perto e de longe (CosacNaify)
As estruturas elementares do parentesco (Vozes)
O pensamento selvagem (Papirus)
Raça e história (Presença)
O totemismo hoje (Edições 70)
Outubro de 2009

Foi anunciado hoje o fechamento da Fundação José Sarney, duro golpe na cultura brasileira. Não é possível que empresários tenham a visão tacanha e não colaborem com a continuidade e possibilidade de conhecimento e pesquisa de todos os documentos (publicáveis, é claro) que construíram a história da presidência de Sarney.
Nunca mais o Convento das Mercês, obra do século XVII encontrará ocupação tão nobre e compatível com sua representatividade arquitetônica, Padre Antonio Vieira deve estar desolado em sua tumba…
Outubro de 2009



Família e Estado brigam e todos ficam sem memória. É lamentável que um acervo da importância de Hélio Oiticica tenha sido 90% destruído em incêndio ontem no Rio de Janeiro. Agora é que ele começava a desfrutar de um maior reconhecimento internacional.
Que sua obra era frágil, todos sabiam, mas no sentido de manipulação, não na guarda. Acidentes acontecem, mas quem deixaria um ativo avaliado, notícias de imprensa, em 200 milhões de dólares, sem seguro e num local passível de destruição tão completa? Não sei detalhes da história, mas não queria ser este César, não sei que relação os dois mantinham, mas ele não conseguiu cuidar da obra do irmão. A prefeitura do Rio de Janeiro vai ter que cuidar de muito mais coisa, mas nem disso deu conta…
Incompetência ou crime?
Outubro de 2009

Morreu hoje a argentina Mercedes Sosa, cantora ligada aos protestos e a criação de uma identidade latino-americana nas décadas de 1970 e 1980. Já fui a shows dela e já tive seus LPs, perdidos nessas alterações tecnológicas.
Não mais a acompanhei, mas é uma das minhas saudosas recordações da esquerda. Sua música, ouvi algumas agora na net, emocionam bem mais do que os comícios e ações de alguns companheiros que eu acreditava naqueles tempos… Gracias a la vida, Anõs e algumas músicas de Milton Nascimento ficam muito boas na sua voz.
Setembro de 2009

Fiquei surpreso e fui obrigado a pensar no passar do tempo. A Emília da minha época, adaptação da década de 1970 levada ao ar pela rede Globo da obra de Monteiro Lobato, O sítio do pica-pau amarelo, Dirce Migliaccio faleceu hoje no Rio de Janeiro aos 75 anos.
Lembro da mesma como uma das irmãs solteironas de O bem amado, depois que passei a tentar o papel de “metido a intelectual” assisti muito pouca televisão. Mas lembro com carinho da série e de tentar motivar meus filhos a seguirem as versões de sua época. Afinal Emília foi um dos grandes personagens da infância de quem optou por tentar ser mais um Visconde de Sabugosa…
Julho de 2009

É claro que cargo político tem suas demandas. Mas a presidente do Sindicato dos Editores de Livros, Sônia Machado Jardim, exagerou na sua defesa da isenção de PIS e Cofins no setor. Para mim apesar de defendermos a mesma causa, sim o livro depende de alguns incentivos, o discurso é choroso, catastrofista, mal focado.
Parece ameaça de fraco. Está na hora de uma autocrítica. O setor editorial tem sido incompetente em apresentar soluções para o baixo nível de leitura do país. Isso precisa ser repensado, é difícil, sim, mas talvez esteja na hora de uma renovação, a relação com o grande comprador não tem trazido novos ares, nem novos leitores. Alguém tem alguma idéa?
Julho de 2009

Ainda não adquiri o controle sobre as palavras para ser sucinto, deixar apenas as emoções falarem, talvez não seja a minha praia. A dança para mim é isto. Tenho poucas palavras para descrever, um monte de sensações. Há uns 15 anos abandonei um ballet para assistir um jogo da copa do mundo, dificilmente farei isso novamente.
Assisti a dois espetáculos de Pina Bausch na vida. Talvez tenha sido a mídia que me convenceu de sua importância, não lembro muito, sim de ter gostado bastante no geral, misturou-se na minha formação cultural.
Hoje li o texto de Deborah Colker no Estadão, algo curto e emocionado. Se alguém que respeito tanto como a Colker ao encontrar Bausch sentiu as pernas trêmulas e a dificuldade de falar ou perguntar, eis de fato reações humanas, e isto é o mundo da dança ao extremo. Já me senti assim diante de alguns ídolos…