Assunto: Lágrima



A coragem de contestar tradições

gaiarsa.jpg

Morreu ontem José Ângelo Gaiarsa, psiquiatra e terapeuta, mas principalmente alguém dedicado a questionar alguns padrões de vida social, o casamento e a família. Autor de vários livros, dos quais li um ou dois, há muito tempo. Se não tinham um vigor e profundidade argumentativa, tinham o enorme mérito de ser cheios de coragem e persistentes.

Seu Nenê não entra mais na avenida, infelizmente, mas de lá nunca sairá!

nene.jpg

Morreu Seu Nenê da Vila Matilde, o homem que virou escola de samba. É dele um belo depoimento sobre criatividade no livro da Virgília, Jeito brasileiro.

Wesley Duke Lee

wesley.jpg

Morreu ontem o artista plástico Wesley Duke Lee. De um tempo onde a arte brasileira tinha uma presença mais regional, por meses eu “sofria” sessões de rolfing olhando para uma obra dele, devidamente permutada com a rolfista. Eu saia de lá muito bem, corpo e mente.

Morreu Claude Chabrol: uma razão a menos para ir ao cinema…

chabrol.jpg

Aos 80 anos Claude Chabrol morreu deixando uma das obras mais interessantes para quem gosta de cinema um tanto quanto pouco superficial. Se não temos filmes novos, ainda me restam vários para assistir.

Faltaram duas homenagens na sexta: Adoniran Barbosa e Tony Judt

adoniran.jpg tony-judt.jpg

Na sexta comemorou-se o centenário de nascimento de Adoniran Barbosa. Trem das onze, Saudosa maloca e Tiro ao Álvaro foram músicas que marcaram a minha juventude, é claro que existiam outras, mas essas apesar de não cantar há anos, continuam vivas no meu emocional.

Na sexta Tony Judt morreu. Grande pensador abatido por uma doença cruel e avassaladora. Não quero com isso ser dramático, mas iniciou uma luta de frente contra a doença, produziu um livro e se comunicou com o mundo por sinais dos olhos.

Paulo Moura arrancou sons e melodias das mais emotivas

paulomoura.jpg

Já fazia muito tempo que não ouvia Paulo Moura, mas alguns sentimentos da época do Sesc Pompéia e alguns bares que já nem lembro mais ficaram. Tinha alguns cds ou ainda lps seus com Clara Sverner, perdidos pelo tempo. Alguém de quem não deveria ter ficado tão distante… Perdi eu, perdeu minha sensibilidade. Uma singela e minúscula homenagem.

Ensaio final sobre a cegueira…

saramago.jpg

O mundo de Saramago passou a ter a mesma visão de seus personagens acometidos pela cegueira em seu livro que virou filme pela direção de Fernando Meirelles. Mas quem morreu foi um português aguerrido, teimoso, recolhido às Ilhas Canárias. Fica a sua obra, muitas vezes densa, longos parágrafos, assuntos fortes e provocativos. O primeiro representante de nossa língua a levar um Nobel e pelo tamanho dela, talvez um ocupante de espaço em prêmios tantas vezes políticos.

Vai encontrar Camões e Pessoa, além de outros portugueses, e escritores de primeiro time, não num céu onde nem ele nem eu acreditamos, mas no imaginário e nos arquivos da história, mas principalmente no imaginário e arquivos emocionais dos leitores.

Editar poesia…

massao-ohno.jpg

Morreu no dia 12 o editor Massao Ohno. O mercado editorial brasileiro, mas principalmente a poesia brasileira, têm uma dívida com esse maluco. Editar poesia, apesar da beleza, nobreza e vários outros eza, é f*da, precisa de muito amor a arte e um desprendimento com a própria família, que vai pagar o pato.

O Ricardo, um amigo editor, iniciou sua carreira com Massao Ohno e me contou algumas boas histórias. Numa bienal fui quase vizinho. Daqueles que via o livro como algo importante, capaz de mudar a vida sensível das pessoas, daqueles que achava que as palavras e a forma como eram esparramadas na página podiam tocar pessoas. Foi jovem e é claro, não teve o retorno merecido enquanto atuou.

Louise Bourgeouis não virou centenária

bourgeois-1.jpg bourgeois2.jpg bourgeois3.jpg bourgeois4.jpg bourgeois5.jpg

Morreu na terça em Nova York a artista Louise Bourgeois, 98 anos. Uma das principais artistas do século XX, uma das mulheres de maior destaque no cenário cultural. Louise impôs uma estética nova, suas obras, muitas vezes, fálicas e eróticas traziam um tanto de suas experiências e relação com o pai e mãe (todos devem trazer, embora alguns disfarcem).

Os brasileiros, especialmente os que moram em São Paulo e frequentam o Parque Ibirapuera já se acostumaram com uma imensa aranha na ponta do MAM. Mas a obra dela vai além, há boas peças no Dia Becon, perto de Nova York e todo museu importante, tem suas peças.

Quem já assistiu a peça de Denise Stocklos em homenagem a artista não deve ter se arrependido, se houver repeteco, não perca. Na minha visão, a estética de Louise é bruta, agressiva, como se ela falasse pela mãe que se calava diante do pai, amante da professora. Abandonou a pintura e não se conteve em apenas expressar idéias diante de elementos harmônicos. Mas também viveu bastante e produziu muito. Cravou seu nome no cenário da arte, mas além do nome, cravou sua presença. Sua obra assumiu as rugas que o tempo lhe trouxe, não correu atrás de botox e cirurgias, mostrou a beleza do natural.

Armando Nogueira se foi, o pior que mudo

armando-nogueira.jpg

Morreu vítima de câncer no cérebro o jornalista Armando Nogueira. Depois de várias contribuições ao jornalismo geral, voltou para o esportivo, do início da carreira. Não deve ter sido fácil ter mantido a dignidade em tempos sombrios. O destino o levou sem condições de se expressar, ó destino maroto.

Calaram o Geraldão a tiros: Glauco Vilas Boas

glauco.jpg

O cartunista Glauco Vilas Boas, criador do Geraldão, dona Marta entre outros foi assassinado hoje em casa, seu filho também morreu.

Já não acompanhava mais os cartuns dele na Folha, mas já me diverti e refleti bastante com seus personagens. A charge acima mostra um pouco do que era capaz. Pena

Uma brisa levou Johnny Alf, mas ele fica

johnnyalf.jpg

 Morrou ontem Johnny Alf, alguém completamente ligado a MPB, meio esquecido, mas que agora talvez tenha seu valor reconhecido além das fronteiras dos experts da música. Gravado por muitos, estava recolhido há tempos. É melhor Eu e a brisa falar: 

Ah, se a juventude que esta brisa canta
Ficasse aqui comigo mais um pouco
Eu poderia esquecer a dor
De ser tão só pra ser um sonho
Daí então quem sabe alguém chegasse
Buscando um sonho em forma de desejo
Felicidade então pra nós seria
E, depois que a tarde nos trouxesse a lua
Se o amor chegasse eu não resistiria
E a madrugada acalentaria a nossa paz
Fica, ó brisa fica pois talvez quem sabe
O inesperado faça uma surpresa
E traga alguém que queira te escutar
E junto a mim queira ficar

O mundo do livro ficou menor sem José Mindlin

mindlin.jpg

Morreu hoje aos 95 anos o advogado, empresário, imortal, homem da cultura, mas principalmente bibliófilo e amante do livro, José Ephim Mindlin.

Se a Metal Leve teve seus dias de glória, será a biblioteca que o imortalizará. O prédio da biblioteca Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP está atrasado, espero que a doação não seja revogada.

O conheci já com mais de oitenta de cinco anos, tive alguns momentos dos mais interessantes. Alguém que soube levar uma vida com significado. E isso é bastante, muito mesmo.

Tomás Eloy Martinez - a imprensa argentina tem uma grande baixa

tomas-eloy-martinez.jpg

Morreu ontem o jornalista e escritor argentino Tomás Eloy Martinez, autor de um livro sobre Evita Perón, uma ficção sobre os caminhos e confusões que envolveram o corpo da “deusa” portenha,  e de alguns livros de ficção e outros ensaios.

Ganhador de vários prêmios, foi também um combatente da ditadura militar. Seu câncer deve ter acelerado com a família Kirchner perseguindo a imprensa…

A crítica literária brasileira diminuiu bastante de estatura hoje

wilson-martins.jpg wilson-martins-1.jpg

Morreu hoje em Curitiba o crítico literário Wilson Martins, um dos mais destacados intelectuais brasileiros. Num tempo onde internacionalmente se discute a relevância das críticas, a empresa Kirkus Review anunciou a interrupção de suas atividades e depois parece que foi salva, e em sites de editoras existe a visão de que os prêmios poderiam ser os substitutos dos críticos, a perda de alguém com o conhecimento de Wilson é dificilmente substituível, por mais que já não mantivesse uma produção rigorosa.

Deu aulas nos Estados Unidos e escreveu em alguns volumes A crítica literária no Brasil e A história da inteligência brasileira entre outras obras.

O recluso se foi para sempre…

salinger.jpg

J. D. Salinger morreu hoje em Nova York aos 91 anos. O último livro que publicou foi em junho de 1965, seis meses antes de eu nascer… Não dava entrevistas e não se deixava fotografar. O apanhador no campo de centeio foi um enorme sucesso mundial, escrito quando tinha 30 e poucos anos, na década de 1950 e tratando sobre um adolescente.

Li há alguns anos, não achei nada demais. Mas inspirou escritores ao redor do mundo, a escrever e também a adotar comportamento parecido…

Dra. Zilda Arns Neumann

zilda.jpg

O terremoto no Haiti matou a brasileira Zilda Arns. Figura conhecida da sociedade civil do país ganhou respeito e admiração por estar próxima de pessoas carentes. Contribuiu com um livro que editei: Ah, se eu soubesse… Brasil (respostas para uma pergunta simples: o que você gostaria de ter sabido 25 anos atrás), eis a resposta dela:

 Que a organização da comunidade e uma rede de voluntários são fundamentais para a diminuição da mortalidade infantil e da violência dentro de casa.
Talvez hoje não tivéssemos tantos jovens violentos se, 25 anos atrás, se tivesse cuidado melhor das crianças em suas famílias.
Dra. Zilda Arns Neumann (Fundadora e Coordenadora Nacional, Pastoral da Criança - CNBB)

Assisti poucos filmes de Eric Rohmer

eric-rohmer.jpg

Morreu na segunda-feira o diretor Eric Rohmer (fiquei ontem e parte de hoje desconectado). Assisti poucos filmes dele, acho que nem a série das estações completa. Sempre ensaiei pegar na 2001 e acabava me concentrando em outros diretores. Teve uma carreira consistente e importante na Nouvelle Vague além de participar editorialmente das principais publicações sobre cinema.