Assunto: Lágrima



Patrimônio que se esvai

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Meu avô era de São Luiz do Paraitinga, cidade que mais sofreu com as chuvas do réveillon. Há dois anos fomos visitar com aquela curiosidade humana de busca de origens. Passamos pelas igrejas, casa de Oswaldo Cruz, mercado e outros pontos de interesse que se foram. O homem não está se relacionando direito com a terra. A taipa é frágil, mas durou todo o século XX…

Uma lágrima pelo Cadoro

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Fechou no sábado em São Paulo o primeiro hotel cinco estrelas da cidade. Usado por poderosos, políticos e artistas já representava pouco na cultura da cidade, mas acho que vale uma lágrima porque comprova que é difícil remar contra a corrente. É possível que os donos não tenham acompanhado as movimentações, mas o baixo Augusta voltou a se valorizar, com um público muito diferente do que se imagina entrando no aristocrático lobby do hotel.

Comi no restaurante poucas vezes, mas lá ganhei a aposta com um amigo, ou seja, já foi local ”sonho de consumo”. Seu bolito foi exportado para o Parigi. A lágrima é principalmente pela morte dos independentes diante das cadeias todas com a mesma cara, é pelo medo que os que podem tem da vida real. Passe pelo baixo Augusta e veja se aquilo tudo também não é um lado seu, talvez o que mais negue, diante dos outros, mas um lado dentro de todo mundo. O Ca’d’Oro dava a impressão de ser a intersecção possível do luxo e do lixo. Seu fechamento mostra a dificuldade desta convivência, mas mostra mesmo a certeza que nem um, nem outro existem isoladamente…

Anselmo Duarte - a única palma se foi, deixa um discurso sobre a inveja

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Acho que quando assisti ao O pagador de promessas, ainda era católico, lembro pouco do filme. Mas sempre esteve ao meu redor algumas das discussões do por quê este filme ter chegado tão longe. Lendo sobre a morte do diretor Anselmo Duarte nos jornais acompanhei algumas de suas declarações: a inveja causada, principalmente na turma do Cinema Novo, atrapalhou bastante. E como dizem os mais preconceituosos, inveja de homem é bem pior.

Anselmo Duarte corre o risco de ficar lembrado como homem de uma obra só. Mas melhor isso, do que nada, afinal, bateu em 1962 Buñuel, Antonioni e, se não me engano, Robert Bresson. No juri, Francois Truffaut. Não é pouco. Ainda mais se considerarmos que foi alguém que fez de tudo para fugir do estigma de galã e partiu para a direção. Não sei se houve um impacto da ditadura militar segurando sua ação, mas é claro que os militares jogaram contra tudo o que pudesse representar consciência, em detrimento de um ufanismo mais massivo, como o futebol.

Uma das poucas glórias dos últimos anos foi ainda em Cannes, na festa de 50 anos do ainda festival mais importante do mundo, por mais que não consiga convencer meu filho de 12 anos que Cannes é melhor “rótulo” do que Oscar. Valeu Anselmo!

Claude Lévi-Strauss, lágrima por uma obra original e uma vida intensa e longa.

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Morreu hoje o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss aos 100 anos. Lecionou por aqui há mais de 70 anos e contribuiu com interpretações sobre nossa origem. Deixo aqui o link para o blog do Daniel Piza, inspiração confessa para o nome e razão de ser desta seção do blog, ele conhece melhor a obra e tem mais propriedade para os comentários.

Uma demonstração da originalidade pode ser sentida nos títulos disponíveis em português:

O cru e o cozido (CosacNaify)
Do mel às cinzas (CosacNaify)
Mito e significado (Edições 70)
A origem dos modos à mesa (CosacNaify)
Saudades de São Paulo (Companhia das Letras)
Saudades do Brasil (Companhia das Letras)
O suplício do Papai Noel (CosacNaify)
Tristes trópicos (Companhia das Letras)
Antropologia estrutural (CosacNaify)
De perto e de longe (CosacNaify)
As estruturas elementares do parentesco (Vozes)
O pensamento selvagem (Papirus)
Raça e história (Presença)
O totemismo hoje (Edições 70)

Lágrima pela Fundação José Sarney - a mais irônica das lágrimas…

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Foi anunciado hoje o fechamento da Fundação José Sarney, duro golpe na cultura brasileira. Não é possível que empresários tenham a visão tacanha e não colaborem com a continuidade e possibilidade de conhecimento e pesquisa de todos os documentos (publicáveis, é claro) que construíram a história da presidência de Sarney.

Nunca mais o Convento das Mercês, obra do século XVII encontrará ocupação tão nobre e compatível com sua representatividade arquitetônica, Padre Antonio Vieira deve estar desolado em sua tumba…

Lágrima pela obra de Oiticica e pela incompetência no cuidar

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Família e Estado brigam e todos ficam sem memória. É lamentável que um acervo da importância de Hélio Oiticica tenha sido 90% destruído em incêndio ontem no Rio de Janeiro. Agora é que ele começava a desfrutar de um maior reconhecimento internacional.

Que sua obra era frágil, todos sabiam, mas no sentido de manipulação, não na guarda. Acidentes acontecem, mas quem deixaria um ativo avaliado, notícias de imprensa, em 200 milhões de dólares, sem seguro e num local passível de destruição tão completa? Não sei detalhes da história, mas não queria ser este César, não sei que relação os dois mantinham, mas ele não conseguiu cuidar da obra do irmão. A prefeitura do Rio de Janeiro vai ter que cuidar de muito mais coisa, mas nem disso deu conta…

Incompetência ou crime?

Lágrima pela obra - Mercedes Sosa

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Morreu hoje a argentina Mercedes Sosa, cantora ligada aos protestos e a criação de uma identidade latino-americana nas décadas de 1970 e 1980. Já fui a shows dela e já tive seus LPs, perdidos nessas alterações tecnológicas.

Não mais a acompanhei, mas é uma das minhas saudosas recordações da esquerda. Sua música, ouvi algumas agora na net, emocionam bem mais do que os comícios e ações de alguns companheiros que eu acreditava naqueles tempos… Gracias a la vida, Anõs e algumas músicas de Milton Nascimento ficam muito boas na sua voz.

Morreu a Emília do meu tempo: Lágrima para Dirce Migliaccio

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Fiquei surpreso e fui obrigado a pensar no passar do tempo. A Emília da minha época, adaptação da década de 1970 levada ao ar pela rede Globo da obra de Monteiro Lobato, O sítio do pica-pau amarelo, Dirce Migliaccio faleceu hoje no Rio de Janeiro aos 75 anos.

Lembro da mesma como uma das irmãs solteironas de O bem amado, depois que passei a tentar o papel de “metido a intelectual” assisti muito pouca televisão. Mas lembro com carinho da série e de tentar motivar meus filhos a seguirem as versões de sua época. Afinal Emília foi um dos grandes personagens da infância de quem optou por tentar ser mais um Visconde de Sabugosa…

Lágrima pela obra: Mario Cravo Neto

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Morreu ontem em Salvador o fotógrafo Mario Cravo Neto, de família de artistas, sei que pelo menos pai e filho são, foi um dos mais originais e importantes fotógrafos brasileiros, aceito há tempos no circuito das artes, precursor da inserção da fotografia neste patamar. Insistia em criar com o olhar e os recursos da câmara, sem photoshop, fazia melhor do que os melhores operadores desse programa.

Lágrima - Pelo discurso do SNEL no Estadão

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É claro que cargo político tem suas demandas. Mas a presidente do Sindicato dos Editores de Livros, Sônia Machado Jardim, exagerou na sua defesa da isenção de PIS e Cofins no setor. Para mim apesar de defendermos a mesma causa, sim o livro depende de alguns incentivos, o discurso é choroso, catastrofista, mal focado.

Parece ameaça de fraco. Está na hora de uma autocrítica. O setor editorial tem sido incompetente em apresentar soluções para o baixo nível de leitura do país. Isso precisa ser repensado, é difícil, sim, mas talvez esteja na hora de uma renovação, a relação com o grande comprador não tem trazido novos ares, nem novos leitores. Alguém tem alguma idéa?

Lágrima pela obra: Pina Bausch

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Ainda não adquiri o controle sobre as palavras para ser sucinto, deixar apenas as emoções falarem, talvez não seja a minha praia. A dança para mim é isto. Tenho poucas palavras para descrever, um monte de sensações. Há uns 15 anos abandonei um ballet para assistir um jogo da copa do mundo, dificilmente farei isso novamente.

Assisti a dois espetáculos de Pina Bausch na vida. Talvez tenha sido a mídia que me convenceu de sua importância, não lembro muito, sim de ter gostado bastante no geral, misturou-se na minha formação cultural.

Hoje li o texto de Deborah Colker no Estadão, algo curto e emocionado. Se alguém que respeito tanto como a Colker ao encontrar Bausch sentiu as pernas trêmulas e a dificuldade de falar ou perguntar, eis de fato reações humanas, e isto é o mundo da dança ao extremo. Já me senti assim diante de alguns ídolos…

Michael Jackson, morreu sem se encontrar

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Nunca gostei muito da produção de Michael Jackson, talvez tenha preferido as músicas do tempo do Jackson Five, mas é inegável a importância dele para a música pop mundial. Lendo um de seu obituários descubro que já vendeu 750 milhões de disco, é muita coisa.

Mas o que me chamou mais a atenção foi como alguém chega aos 50 anos vivendo tão superficialmente, tão sem coragem de se enfrentar. Foi o preço do sucesso? Da exposição? Não sei detalhes se brigou com a cor ou com o vitiligo, pouco interessa, nos dois casos há a recusa psicológica por trás. Brigou com preferências, com formas, com o tempo, aceitou poucas coisas, não se satisfez com nada, nunca se encontrou. Triste.

Gazeta Mercantil

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Morreu hoje a Gazeta Mercantil, na verdade, o que aconteceu hoje foi o enterro (não foi o primeiro, não sei se será o último), apesar do imenso esforço das pessoas que lá trabalhavam, a situação era insustentável há muito tempo.

Escrevi por quase dois anos lá, alguns bastidores são por demais complexos. Sempre o fiz por gostar de escrever e falar sobre livros, por ter amigos que respeitava, mas sempre tive dramas de consciência por saber como tudo aquilo era tratado pelo dono.

Aliás, não foi apenas privilégio do dono Nelson Tanure tratar o jornal dessa forma, a família Levy “brincou” de jornal, uma brincadeira que sempre confere enorme poder político. Não tenho condições de avaliar a história toda, mas é um capítulo triste da história da mídia, num momento onde o digital ameaça e requer respostas rápidas, talvez tenha sido melhor assim, retirar o time de campo. A mídia séria carece de quem guerreei com o melhor das intenções e recursos, para o bem do jornalismo. Centenas de pessoas ainda esperam receber seus direitos, numa situação que se arrasta há anos, é um emaranhado de decisões políticas e judiciais, que agora deve aumentar.

Agora não faço mais resenhas na mídia impressa, mantenho aqui os comentários sobre minhas leituras.

Lágrima pela obra - Zé Rodrix: Já cantei muito suas músicas

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Anteontem morreu Zé Rodrix, cedo, 61 anos. Desde um último show do Joelho de Porco, ainda no Pool Music Hall em São Paulo, não tinha tanto contato, mas já ouvi muito Casa no campo na voz da Elis Regina. E várias outras músicas do tempo de Sá, Rodrix e Guarabira, num período da minha vida, Sá e Guarabira eram os mais recorrentes, ainda na vitrola, e várias músicas tinham a participação de Rodrix que depois enveredou para a propaganda e apareceu bem menos no cenário artístico. Sobre a irreverência do Joelho de porco, não consigo lembrar muito. Mas algumas músicas de Rodrix ainda seguirão no meu repertório emocional.

Hoje me dei conta do quanto cantei e me emocionei com Casa no campo, num período onde morava no interior e o que eu mais sonhava era vir para São Paulo, talvez fosse o que Jung chamava de arquétipo…

Lágrima pela obra - Mario Benedetti

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Morreu ontem Mario Benedetti, escritor uruguaio de quem já li dois livros e enrolava para ler o melhor, A trégua, tarefa que inicio hoje, como homenagem póstuma.

Foram 88 anos de vida e 80 livros, entre poesia, contos, ensaios e novelas. Vale conferir.

Lágrima pelo que pensa - O segredo

De agora em diante vou separar os posts Lágrimas, antes de mais nada, a inspiração desse título veio da coluna do Daniel Piza, adotei porque tenho dificuldades com as lágrimas que insistem em rarear na minha face, devo ter levado a sério o que meu pai falava, mas não posso culpá-lo e creio que já trabalhei o emocional para tentar substituir as líquidas que não caem.

Assim existirão duas categorias de lágrimas, a positiva, pela obra que não deverá agregar mais nada pela morte ou aposentadoria, e a negativa, pelo que pensa, ou melhor, pelo que deveria pensar ou fazer, mas faz numa direção contrária.

 A estréia da Lágrima pelo que pensa vai para Lula Vieira da Ediouro em entrevista em O Globo da semana passada. Ao explicar o que os levaram a investir em O Segredo, a única explicação plausível para alguém com a mínima capacidade de raciocínio seria: ambição comercial. Ver neste livro que já vendeu mais de milhão e meio de exemplares uma boa leitura é algo que me deixa pasmo para alguém que já foi um publicitário de quem eu já até li um livro, se alguém leu O Segredo é gostou, já está mais do que na hora de elevar a leitura, e isso, sem precisar cair no literato criticado pelo incoerente Viera (tem um programa chamado “Livraria Paradiso”), que acaba sua entrevista dizendo que detesta lugar-comum. O que é o tal do segredo?… 

Lágrima pela obra

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Morreu ontem Augusto Boal, aos 78 anos, uma das mais criativas e ativas personalidades do teatro brasileiro. Juntou teatro e a ação ideológica ao criar o Teatro do Oprimido e obter reconhecimento mundial. Foi no ano passado designado embaixador do teatro pela Unesco. De seu obituário de O Globo de hoje é possível retirar a definição para o que criou: “É um teatro sem dogmas e realizado por meio de um conjunto de exercícios que ensina o ser humano a utilizar uma ferramenta que ele já possui e não sabe. O homem traz esta característica teatral dentro de si. O que este tipo de teatro faz é liberar esta capacidade e ensinar à pessoa como dominá-la”.

Fui um admirador mais intelectual do que praticante ou espectador da obra de Boal, mas confesso que cantei muito a música Meu caro amigo, Chico Buarque e Francis Hime, durante minha adolescência e só hoje tive consciência de quem foi o homenageado.

Lágrima

E viva a mediocridade humana! Mesmo reconhecendo a importância da diversidade, é com um misto de inveja, raiva e desconsolo que reproduzo a notícia que o tal do Dan Brown acabou finalmente seu novo livro. Depois de um atraso de anos, sai em Setembro The lost symbol. O que me deixou assim foi a tiragem inicial: 5 milhões de cópias, a maior da história da Random House.

Tom Hanks terá seus dólares garantidos…