
Grandes obras, grandes homens Por Thales Guaracy
Você provavelmente nunca ouviu falar de Wilson Quintella, embora ele esteja presente no seu dia a dia. Toda vez que você acende a luz de sua casa, ali está, de certa forma, o doutor Quintella. Quando passa pela ponte Rio Niterói, pela Dutra, pela Castelo Branco e outras importantes rodovias do país, deve algo a Wilson Quintella. Cada vez que pousa no aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, no Aeroporto Tom Jobim, no Rio, em Manaus, em Goiânia e outros tantos lugares, ele também está lá.
Não é à toa que você não conhece Wilson Quintella. Eu mesmo pouco sabia a seu respeito, até ser convidado para ajudá-lo a terminar seu livro de memórias, que está sendo publicado agora pela editora Virgília, em associação com a Saraiva (“Memórias do Brasil Grande”, título que eu me orgulho de ter sugerido). Advogado de formação, ele trabalhou por 35 anos no grupo Camargo Correa, começando de baixo, até se tornar o presidente da empresa e braço direito do legendário Sebastião Camargo.
E, como se sabe, o doutor Camargo e seus homens de confiança sempre primaram pelo trabalho silencioso, longe dos holofotes – uma discrição considerada essencial para o sucesso de seu negócio, que ajudou a levar a Camargo Corrêa a ser a maior empreiteira do mundo, e o doutor Camargo a se tornar, com seu velho cachimbo e olhos de chinês, o primeiro bilionário do Brasil, tendo saído praticamente do nada.
O que eu descobri? Que Wilson Quintella é figura essencial para conhecer a história das grandes obras que permitiram ao Brasil um salto econômico do qual hoje ainda dependemos. Na Camargo Corrêa, o doutor Quintella teve participação decisiva na construção das grandes hidrelétricas, como Itaipu e Tucuruí. Da Transamazônica. Dos grandes aeroportos. Das nossas ferrovias e do metrô paulistano, em sua fase pioneira. Além de outras obras essenciais para a vida contemporânea, tantas que não cabem neste parágrafo. Em seus empreendimentos particulares, ele acabou sendo uma figura fundamental no atual boom das exportações de soja e tornou-se um inovador até mesmo na criação de cavalos e de gado.
Descobri mais, que Wilson Quintella é uma figura essencial para compreender as políticas desenvolvimentistas no Brasil desde Juscelino Kubitschek. Homem que privou da amizade de presidentes da República, ministros, governadores, empresários e figuras anônimas cujo papel ele procura resgatar em suas memórias, conheceu os bastidores da política e da economia de ponto de vista mais que privilegiado: como participante direto. E ajudou a influenciar de forma decisiva a economia brasileira ao longo dos últimos 50 anos. Esteve por trás de grandes eventos nacionais, de empreendedores e homens que faziam funcionar a máquina do governo.
Essa é a maior qualidade do doutor Wilson: sem ser engenheiro, conduziu a maior empreteira do Brasil e do mundo, ao lado de Sebastião Camargo, com a receita de que os negócios, as obras e um país são feitos com os homens, e não com os números. Por isso, diferente de um tratado seco de negócios, administração ou engenharia, suas Memórias são uma deliciosa, instrutiva e importante coleção de histórias sobre os personagens que fizeram a história recente do Brasil, onde aparece gente como Adhemar de Barros, Fernando Henrique, Jânio Quadros, presidentes e superministros militares, Jango Goulart, JK e empresários de igual importância.
Estas Memórias são sobre gestos magníficos, bobagens monumentais, empreendimentos inacreditáveis. É um livro sobre covardia e coragem. Sobre grandes homens, desde o mais humilde, capaz de arriscar a vida numa obra, até estadistas ainda hoje pouco compreendidos, sobre os quais doutor Wilson ajuda a lançar luz. E que tinham a preciosa qualidade de não se levarem tão a sério quanto estes nossos governantes contemporâneos.
Para quem tem uma empresa, a leitura de Memórias do Brasil Grande é fundamental. O livro relata em detalhes como foi construída a maior empresa privada do país, seus valores e procedimentos. Num ramo que sempre foi tocado em ambiente fechado, as memórias do doutor Wilson funcionam como a abertura de uma velha caixa preta. Ele conta as idéias, o método de trabalho e as malandragens do doutor Camargo, nem sempre disposto a seguir o mandavam os livrinhos.
Dá uma boa idéia de como funcionavam as relações entre as grandes empreiteiras e os governos, sempre um mistério para a opinião pública, dando margem a suspeitas de grandes negócios ilícitos. (Minha conclusão? Bem, nesse departamento, era um tempo de inocência, se comparado com o que vemos hoje).
Ainda mais importante, o livro do doutor Wilson nos aponta como se pode fazer um país grande, que pensa grande e age grande. Capaz de olhar para o futuro e prepará-lo. Descortina as condições necessárias para um crescimento extraordinário. E sai do forno justo num momento em que se pede uma nova onda de crescimento para atender aos imensos desafios do Brasil de hoje. Daí, sua importância imediata.
As memórias do doutor Wilson têm uma pitada da melancolia dos mais velhos, à qual ele tem direito, chegado na casa dos seus 80 anos. Por vezes, nos dá aquela sensação de que estamos num momento em que não se fabricam mais homens como aqueles, nem se reproduz o seu tipo de conduta, que ainda deveria ser um exemplo. Ao mesmo tempo, nos mostra como esses grandes homens podiam ser também tão humanos e cheios de fraquezas, movidos muitas vezes por amor ao dinheiro, mas em outras por desinteressado patriotismo ou pela mais genuína vontade de fazer.
Surpresa, o livro do doutor Wilson traz ainda muito humor, um humor peculiar, um tanto britânico, à moda dos antigos cavalheiros, que ele dividia com o próprio Sebastião Camargo. Uma fina ironia de quem sabe rir de si mesmo e tratar como se não fosse nada os desafios dignos de um faraó que eles enfrentavam. É como ele mesmo diz: “Nós fazíamos as coisas porque não tínhamos idéia dos problemas e dos riscos, porque se tivéssemos, jamais entraríamos naquilo”.
Ao revelar como alguns homens fizeram o Brasil ser realmente grande, doutor Wilson nos dá a certeza de que podemos ser ainda mais. É uma iluminação, uma inspiração, e uma diversão. Pode ser que você desconfie do que estou escrevendo, ou da minha capacidade de isenção, porque depois de alguns meses de convivência, e de trabalho árduo, ao qual o doutor Wilson continua acostumado, acabei me tornando seu sincero amigo e profundo admirador. Tenho certeza, porém, de que com a leitura de Memórias do Brasil Grande ele dificilmente deixará também de conquistá-lo.
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O do escritor: http://www.thalesguaracy.com.br/
e o do resenhista: http://www.pensomasexisto.blogspot.com/