LIVROS - Jeito brasileiro - Introdução

À procura da criatividade

Nunca pensei muito a respeito da criatividade. Nunca me perguntei de onde vinha tudo a minha volta. Músicas, filmes, livros, roupas, aparelhos eletrônicos, enfim, tudo simplesmente existia ou aparecia nas lojas, na TV, no rádio ou no cinema. E a arte? Sendo eu das ciências, ela não fazia parte do meu mundo. Nunca entendi por que meus colegas das humanas veneravam pinturas gigantes, rachadas de sombrios cenários religiosos, retratos escuros de aristocratas endogâmicos, desenhos feitos em creches ou objetos bolados com restos de materiais de construção.

Na escola, decorava ciência descoberta por gênios mortos, lutava com livros pesados escritos por célebres (nunca entendi o porquê) escritores (também mortos) e tentava analisar sopas de letras (também frutos dos célebres mortos) que o professor jurava ser poesia. Tirando as aulas de latim, essa análise de literatura era o exercício mais incompreensível, fútil e sem sentido que conhecia.

Quando criança, eu construía modelos de aviões de guerra, devorava livros de Steven King, Sven Hassel e J. R. R. Tolkien – depois de ser convencido por meu professor a ler O Hobbit – e qualquer outro autor de fantasias. Ao mesmo tempo, aprendia a tocar violão clássico lendo partitura. Algo curioso, apesar de poder lembrar de coração todas as marcas, preços, tamanhos, vantagens e desvantagens de cada bicicleta de corrida ou acessório no país, eu não conseguia lembrar sequer a primeira linha de uma partitura de música. Sem a partitura, nas minhas mãos, o violão virou uma caixa de madeira com cordas.

Vinte anos mais tarde, desempoeirei aquele violão e decidi tocar um pouco de rock. Afinal, os violões são para isso, não? Quando não achei música escrita no tipo de notação que sabia ler, fui obrigado a aprender um sistema chamado tab. Apesar de mostrar onde colocar os dedos, o tab não indicava a marcação do tempo e do ritmo. Para isso, foi necessário escutar, e imitar, o CD.

Um dia, ouvindo “Angie”, dos Rolling Stones, tentando separar a melodia do violão da dos outros instrumentos, fiquei arrepiado. Tive a chocante epifania de que aquela música não apareceu do nada. Ela foi escrita por um ser humano. E não foi por Mozart, Bach ou Beethoven, saiu da cabeça de Keith
Richards, um antiquado roqueiro expulso da Sidcup Escola de Arte, nem sequer do Conservatório Real de Música! Como aquele junkie pensou naquela melodia divina? De onde veio a idéia para aquele conjunto de notas? O que essa fera fez para criar aquela bela?

Outro dia, depois de assistir ao fi nal agonizante da novela “O clone”, jurei nunca mais assistir a nenhuma telenovela. Para matar o tempo, decidi pintar. Depois de passar uma semana olhando para uma tela branca até a hora de dormir, resolvi copiar obras de um livro. Escolhi o “Retrato de Ambroise
Vollard”, de Picasso, porque parecia uma obra bastante fácil de copiar. Não era nenhum Rafael ou Caravaggio. Era uma cabeça despedaçada, as peças jogadas juntas na tela como se fossem estilhaços de vidro.

Aos poucos, fui percebendo que não era tão fácil. O jeito de Picasso pintar não fazia sentido. Por que tanta disciplina nas pinceladas mas tão pouca na representação do rosto? Por que usava aquelas formas, aquelas linhas e triângulos? Por que pintou a mão assim? E esse pedaço de amarelo? O que era? Luz? Uma lâmpada? Por que tão pequena? Minha cabeça explodia de perguntas. Por quê? Para quê? Como?

Com cada pincelada sentia-me como se estivesse entrando na cabeça do artista, mas também fiquei cada vez mais perdido. A forma de ele pensar não era nada como a minha. Não enxergava a lógica nem o padrão que ele usava para juntar as linhas, formas e cores na tela. Como conseguia pensar daquele jeito? Qual era seu objetivo? Era assim que ele via o mundo? Tinha problemas com os olhos? Com a cabeça? De onde ele tirou aquela visão tão estranha de Ambroise Vollard?

Pela primeira vez na vida, comecei a pensar a respeito da criatividade. De onde vinham essas idéias tão… diferentes? Estranhas? Belas? Originais? Nem sabia que palavra usar. Bom e ruim, os critérios que usei até então para definir a arte, não serviam mais. De um lado, a pintura de Ambroise Vollard era ruim porque, apesar de não conhecê-lo, tinha certeza de que a obra não parecia em nada com ele. Mas, de outro, tinha algo que me impressionou, prendendo minha atenção e deixando-me muito confuso, inquieto, e até, confesso, com ciúmes.

Naquele momento, do meu mundo preto-e-branco, com pincel na mão, percebi que tomava os primeiros passos em um caminho de pedras amarelas. Um caminho que levava às portas de um armário mágico, dentro do qual existia um país de maravilhas, sem limites ou regras. Pessoas como Keith e Picasso já haviam trilhado o caminho, e tinham suas próprias chaves. Mas como eu podia conseguir uma? Aprender, conversando com pessoas criativas, parecia um bom começo.

Daí surgiu a idéia de conversar com pessoas criativas a respeito de sua criatividade. O nome do livro, Jeito brasileiro, surgiu naturalmente. Enquanto gringo, recém-chegado ao Brasil, meus colegas adoravam me impressionar com suas soluções improvisadas, sempre confiantes de que dariam um jeito. Para alguns, esse termo pode ser pejorativo, mas para mim não, expressa o espírito brasileiro de otimismo, luta e inovação.

A divisão de capítulos pode servir como guia, e segue minhas tentativas de responder às perguntas que surgiram durante as mais de 80 entrevistas. Essa estrutura funcionou para mim, e percebi que o mais rico é a junção das diferentes visões. É nessas junções que surgem as oportunidades para a criatividade.

Todos nós temos a capacidade de sermos criativos. Basta querer e, como um músculo, exercitá-lo quanto puder.

Jeito brasileiro virou quase um dossiê sobre criatividade para brasileiros. Junta biografias e experiências práticas a teorias e visões de mundo. É universal, mas é brasileiro, reunindo histórias da música, circo, literatura, propaganda, ciência, artes plásticas, cinema, esporte, arquitetura, teatro, negócios, gastronomia, moda e psicanálise, deste momento e deste país. Mergulhe nessas vidas e prepare-se para ser contagiado tanto quanto eu.

O compositor Gilberto Mendes é um dos nomes fundamentais da música contemporânea brasileira, um signatário do Manifesto Música Nova e fundador do Festival Música Nova de Santos.

Hugo Possolo, antes de mais nada, é palhaço. Ele é um dos fundadores dos Parlapatões, um grupo circense que há 16 anos deleita crianças (e adultos!) paulistanas. Também é diretor, dramaturgo e, quando a bilheteira do Espaço Parlapatões está lenta, bate carteiras e faz carretos com Kombi!

Laerte é um dos grandes quadrinistas do Brasil e seus quadrinhos e tiras estão divertindo os leitores dos principais jornais brasileiros desde os anos 1970.

Uma ovelha negra anda pelo website da agência de publicidade Neogama BBH, da qual Alexandre Gama é presidente e diretor de criação. Zagueando quando outros zigam, ele é um dos publicitários mais destacados do Brasil na atualidade.

A Dra. Analívia Cordeiro é bailarina, coreógrafa e arquiteta. Em 1973, aos 19 anos, ela foi pioneira na dança moderna e no uso da mídia eletrônica, quando criou a dança computadorizada.

Antônio Peticov é artista plástico mundialmente reconhecido por suas pinturas, esculturas, gravuras e ilustrações.

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