LIVROS - Memórias do Brasil grande - Prefácio
O tempo dos empreendedores
Antonio Delfim Netto
Com Memórias do Brasil grande, Wilson Quintella desperta-nos um sentimento de admiração e uma ponta de inveja. Admiração pelo conjunto da obra que ele ajudou a fazer, literalmente “pondo a mão na massa” na construção da infra-estrutura de um país onde antes existia um vazio geográfico de dimensões continentais. Inveja pela experiência que a vida lhe proporcionou de participar diretamente do processo de desenvolvimento do Brasil ao longo de meio século e poder contar hoje aos mais jovens um pouco de sua saga e a de seus companheiros de trabalho.
Sinto-me extremamente honrado com a inclusão de meu nome nessa categoria de trabalhadores e mais ainda por ter sido escolhido, dentre tantos outros, para prefaciar a sua “História das maiores obras do país e dos homens que as fizeram”. Se há uma história para ser contada, esta é a da construção da estrutura física que permitiu a modernização da economia brasileira na segunda metade do século XX. Sabe-se que o Brasil foi um dos países de maior desenvolvimento nos primeiros 80 anos desse século e que, em certos períodos entre 1955 e 1980, o crescimento foi tão rápido que se compara ao fenômeno chinês deste início do século XXI.
Conhecem-se os entes políticos que presidiram essas fases de forte investimento na abertura e pavimentação de estradas, construção de portos e aeroportos, no desenvolvimento de uma espetacular matriz energética alicerçada na hidroeletricidade e na implantação de extensa rede de comunicações. As referências em termos de modernização da infra-estrutura são claramente os governos Juscelino Kubitschek, na década de 1950, e os do período autoritário (Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, nas décadas de 1960 e 1970, além de João Figueiredo, na década de 1980). Foram períodos absolutamente diferenciados em termos de atmosfera política, mas guardaram uma notável semelhança em dois aspectos-chave: não apenas garantiram um nível bastante razoável de investimentos públicos como deram estímulo e suporte às empresas privadas nos setores de engenharia e construção, as empreiteiras de obras.
Nestes campos de atividade (compreendendo escritórios de projetos de engenharia, de montagem da logística para permitir a interiorização de grandes obras e sua execução a partir de recursos nacionais), surgiram as grandes empresas e os empreendedores que vieram a ser alguns dos fascinantes personagens lembrados nas memórias de Quintella. Até o final do governo de Getúlio Vargas, em 1954, eram poucas as empreiteiras brasileiras de porte, em condições de construir barragens, por exemplo. As que existiam estavam em São Paulo e Minas Gerais, onde dois governadores de espírito desenvolvimentista, Adhemar de Barros e Juscelino Kubitschek, o JK, iniciavam projetos ambiciosos nos campos da energia e de expansão rodoviária. Isso abriu espaço para o crescimento de pequenas empreiteiras, na medida em que elas iam realizando obras de menor porte, inclusive federais, descartadas pelas grandes. Foi numa dessas pequenas, cujo negócio principal na época era o loteamento de terrenos no Jardim São Bento, na capital paulista, que Wilson Quintella, ainda estudante de direito, encontrou trabalho como chefe de vendas, em 1949. Ele foi o quinto funcionário contratado da casa.
A empresa era a Camargo Corrêa, com dois sócios maiores, Sebastião Camargo e Sílvio Brand Corrêa, duas personalidades carismáticas que iam transformá-la na maior empreiteira de obras públicas do Brasil — e uma das maiores do mundo. A esta empresa, Quintella dedicou trinta e cinco anos de sua vida de trabalho, percorrendo os mais diversos postos na escala hierárquica até tornar-se seu presidente. Bem, essa trajetória, com todos os percalços, dificuldades, lances extraordinários, sustos imensos e imensos sucessos de que ele participou diretamente, quem conta é o próprio autor.
No que me diz respeito, o que desejo é partilhar com os leitores a minha admiração por esses corajosos personagens, muitos deles quase desconhecidos, mas que são os verdadeiros construtores do desenvolvimento brasileiro. E, ainda, realçar a lembrança de episódios dos quais eles foram parte, reveladores da força de caráter e do verdadeiro espírito republicano de que eram dotados.
Quintella lembra de histórias incríveis na Amazônia durante o governo JK, quando se realizaram as incursões na selva para a abertura da estrada que iria ligar Brasília a Porto Velho, em Rondônia. E do governo Médici, quando a Camargo aceitou o desafio de participar da construção dos primeiros quinhentos quilômetros da Transamazônica. Há capítulos que poderiam figurar realmente em um livro de aventuras, com personagens heróicos como o operador de motoniveladora de Jupiá, que numa noite de dezembro de 1959 impediu a destruição da barragem ameaçada pelo aumento inesperado do volume de águas do rio Paraná.
Há ainda a figura carismática de Sebastião Camargo, a quem os amigos mais próximos chamavam de “Velho China”, por causa dos olhos puxados, e que tive o privilégio de conhecer bem. O livro conta alguns episódios durante a construção da ponte Rio-Niterói, inclusive um entrevero que Sebastião teve com o ministro Mário Andreazza. O que poucas pessoas sabem é que os maiores responsáveis pela conclusão da obra a tempo de ser inaugurada durante o mandato do presidente Médici foram exatamente os dois “brigões”. Estou convencido de que, se ela não tivesse sido entregue no prazo, muito provavelmente seria interrompida, como aconteceu com a Transamazônica.
Outra convicção minha é que sem a disposição leonina de Sebastião Camargo para correr riscos e seu verdadeiro caráter de varão republicano muito dificilmente teríamos conseguido cooptar o setor privado para o projeto Carajás, de extração de minério de ferro — sem dúvida, depois de Itaipu, a melhor realização do chamado regime autoritário em favor do desenvolvimento do Brasil.
Para terminar: a leitura das memórias de Wilson Quintella reavivou em mim o sentimento de que todos nós, brasileiros, temos uma antiga dívida de gratidão para com essa figura do “barrageiro”, tão pouco conhecida e, creio, até, muito pouco recompensada. Afinal, trata-se de alguns milhares de homens e mulheres, de peões a engenheiros, de mestres-de-obras a cozinheiros, que, à maneira dos antigos exércitos, se deslocaram de barragem em barragem ao longo dos rios brasileiros, construindo as usinas que mantiveram o país aceso, com energia limpa, durante meio século.
Foram esquecidos pelo caminho. Se algum dia tivermos a ventura de um governo iluminado, quem sabe não se empregariam os nossos barrageiros aposentados no IBAMA, a título de indenização por serviços prestados à nação brasileira, ao mesmo tempo em que eles continuariam a ser de grande utilidade.
