LIVROS - Mergulho na base da pirâmide - Prefácio
Prefácio
Sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009. Verão quase insuportável. Em algum lugar da América do Sul. Mais precisamente Vila Fundão.
O piche do asfalto acima parece lava de um vulcão abaixo, vai derreter. Carros e motos evaporam combustível e dinheiro a cada marcha, e a economia gira como manda a nova velha ordem do consumo.
Os corpos não motorizados, de saúde já frágil, se desgastam no limite e o “morrão” tá só na metade. O desconforto é rotineiro e constante, haja bom humor, haja cristianismo.
Um pouco de dinheiro faria diferença na vida destas pessoas, um calçado mais macio, no mínimo. Mas, acima de tudo, um “queimador de gasolina” desses aí.
Desde que o homem inventou a roda, se descobriu que há maneiras e instrumentos para que a vida seja menos hostil e cansativa. E essa busca pelo conforto nunca mais parou.
A subida do morro é um mal-estar pré-histórico. Descrições geográficas à parte, uso os automotores como exemplo de um bem de consumo emergencial para esta parcela da população, entre todas as outras carências materiais desta massa. Não falamos ainda da comida preferida, da roupa mais adequada, do perfume, de um telefone bom, da TV a cabo… E todas as outras coisas que o mundo moderno pode oferecer.
A visão aguçada da indústria reconhece aí a mina de ouro. A massa excluída, consumidora voraz. Reconhece o poder dos números desta massa reunida, mas por herança colonialista não reconhece a pessoa, o indivíduo. Nem como ser, nem como humano. O nome técnico para isso é classe C, D e E. Imagine alguém cumprimentando o outro:
– Satisfação, sou o “Classe D dos Santos”.
– Toda minha, sou o “Classe E da Silva”.
Saber vender bem para estas pessoas não significa ter respeito e ética para com elas. “Açúcar para os diabéticos”, o importante é a venda.
Falando estritamente sobre o Brasil, é necessário entender as nossas raízes e toda a mistura física e comportamental do brasileiro original. Entender onde está a beleza, o estilo e as prioridades deste povo.
Ainda não usei o termo “periferia”, agora discordo dele. Estamos ao redor de quem mesmo? Sou a favor do boicote em massa quando necessário.
Talvez este livro signifique realmente uma nova visão.
Mano Brown,
vocalista do grupo de rap paulista Racionais MC’s
