LIVROS - O mundo não é plano - Prefácio

O Massacre Cotidiano da Fome: ou Onde está a Esperança?

O massacre de milhões de seres humanos pela desnutrição e pela fome continua sendo o principal escândalo do começo do terceiro milênio. É um absurdo, uma infâmia que nenhuma razão saberá justificar nem nenhuma política legitimará. Trata-se de um crime contra a humanidade.

A fome matou, em 2008, mais pessoas que todas as guerras reunidas durante aquele mesmo ano. Onde estamos na luta contra a fome? Em 2001, 826 milhões de pessoas se tornaram inválidas de uma forma ou de outra por causa da desnutrição grave e crônica. Hoje, elas são um bilhão (FAO, State of Food Insecurity in the World, 2001 e 2008). A fome significa o sofrimento agudo do corpo, o enfraquecimento da capacidade motriz e mental, exclusão da vida ativa, marginalização social, angústia em relação ao amanhã, perda de autonomia econômica. Ela abre o caminho à morte.

A desnutrição se define pelo déficit de energia em uma alimentação consumida pelo homem. Ela se mede em calorias – sendo que a caloria é a unidade de medida da quantidade de energia queimada pelo corpo (Pour la méthode d’évaluation, cf. Jean Pierre Girard, L’Alimentation, Genève, Goerg, 1991). No mundo, cerca de 62 milhões de pessoas – ou seja 1% da humanidade – morrem a cada ano somando todas as possíveis causas. Em 2008, 36 milhões dessas mortes ocorreram pela fome ou por doenças geradas pela carência de micronutrientes. A fome, portanto, é a principal causa de morte em nosso planeta. E essa fome é feita pelas mãos do homem. Hoje, a cada cinco segundos uma criança com menos de 10 anos morre de fome.

O mesmo relatório da FAO, que, a cada ano, mostra o número de vítimas, indica que a agricultura mundial, em seu estado atual de desenvolvimento, poderia alimentar sem problemas 12 bilhões de seres humanos, com 2.700 calorias por dia por pessoa. Ora, não somos mais de 6,7 bilhões sobre a Terra. Não existe nenhuma fatalidade. De acordo com o Banco Mundial, as 500 maiores empresas multinacionais controlavam, em 2008, 52% do PIB do planeta.

Elas têm um poder que nenhum imperador, rei ou papa jamais obtiveram na história da humanidade.

No início do terceiro milênio, essas oligarquias capitalistas transcontinentais reinam sobre o universo. Suas práticas diárias e seus discursos de legitimação são radicalmente contrários aos interesses da imensa maioria dos habitantes da Terra.

A mundialização realiza a fusão progressiva e forçada das economias nacionais em um mercado capitalista mundial e um cyberespaço unificado. Esse processo provoca um crescimento formidável das forças produtivas. Riquezas imensas são criadas a cada instante. O modo de produção e de acumulação capitalista testemunha uma criatividade, uma vitalidade e um poder absolutamente estupefante e, certamente, admirável. Em pouco menos de uma década, o PIB mundial dobrou e o volume de comércio foi multiplicado por três. Quanto ao consumo de energia, ele dobra em média a cada quatro anos no mundo.

Pela primeira vez em sua história, a humanidade goza de uma abundância de bens. O planeta desaba sobre riqueza. Os bens disponíveis são em muitas vezes superiores às necessidades incompreensíveis dos seres humanos. Mas os locais onde se faz o
charco também aumentam.

Os quatro cavaleiros do Apocalipse do subdesenvolvimento são a fome, a sede, as epidemias e a guerra. Eles destroem todos os anos mais homens, mulheres e crianças que a carnificina da Segunda Guerra Mundial durante seis anos. Para os povos do Terceiro Mundo,a Terceira Guerra Mundial está em andamento.

Eu repito: um bilhão de seres humanos sofrem do que a FAO chama de “fome extrema”, sua ração diária se situa em média a 300 calorias abaixo do regime de sobrevivência. Os países mais afetados pela fome extrema estão situados na África subsaariana (18 países), Caribe (Haiti) e na Ásia (Afeganistão, Bangladesh, Coréia do Norte e Mongólia).

Uma criança que não tenha alimentos em quantidade adequada entre seu nascimento e os 5 anos de idade levará as seqüelas disso por toda sua vida. Privada de alimentos, suas células cerebrais serão afetadas por danos irreparáveis. Régis Debraychama essas crianças de “crucificados de nascimento” (Régis Debray et Jean Ziegler, Il s´agit de ne pas se rendre, Paris, Arléa, 1994).

A fome e a desnutrição crônica constituem uma maldição hereditária: cada ano, dezenas de milhões de mães gravemente desnutridas dão à luz dezenas de milhões de crianças irremediavelmente afetadas.

Todas essas mães desnutridas e que, assim mesmo, dão a vida se assemelham às mulheres condenadas de Samuel Beckett, por “dar à luz a cavalo sobre um túmulo… O dia brilha por alguns instantes, depois vem a noite mais uma vez”. (Samuel Beckett, En attendant Godot, Paris, Éditions de Minuit, 1953).

Uma dimensão do sofrimento humano é ausente dessa descrição: a da angústia intolerável que tortura todos os seres desde que acordam. Como, durante o dia que começa, ele vai poder garantir a subsistência de seus filhos, e se alimentar? Viver nessa angústia é provavelmente mais terrível que resistir a doenças múltiplas e dores físicas afetando esse corpo desnutrido.

A destruição de milhões de seres humanos pela fome ocorre em uma espécie de normalidade glacial, todos os dias, e em um planeta que transborda de riqueza. A equação é simples: qualquer um que tenha dinheiro, come e vive. Quem não tem sofre, se transforma em inválido ou morre. A fome persiste e a desnutrição crônica é feita pelas mãos do homem.

Mais de 2 bilhões de seres humanos vivem no que o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) chama de “miséria absoluta”, sem renda fixa, sem trabalho regular, sem moradia adequada, sem cuidado médico, sem alimento suficiente, sem acesso à água potável, sem escola.

Sobre esses bilhões de pessoas, os senhores do capital mundializado exercem um direito de vida e de morte. Por suas estratégias de investimento, por suas especulações monetárias, pelas alianças políticas que fecham, eles decidem a cada dia quem tem o direito de viver sobre este planeta e quem está condenado à morte.

O aparelho de dominação e a exploração mundializada erguida pelas oligarquias desde o início dos anos 1990 estão marcados por um pragmatismo extremo. Ele é fortemente segmentado e não tem coerência estrutural. Ele também tem uma complexidade
extraordinária e se encontra com várias contradições internas.

Em seu seio, facções opostas se enfrentam. Uma concorrência feroz atravessa todo o sistema. Entre eles, os mestres se enfrentam constantemente em batalhas homéricas.

À destruição e ao sofrimento infligido aos povos por essa oligarquia do capital mundializado, de seu império militar e de suas organizações comerciais e financeiras mercenárias, juntam-se aqueles que provocam a corrupção recorrente em grande escala em vários governos, principalmente os dos hemisfério sul e em particular na África. Pois a ordem mundial do capital financeiro não pode funcionar sem a cumplicidade ativa da corrupção dos governos instalados. Walter Hollenweger, teólogo reputado da Universidade de Zurique, resume bem essa situação: “A avidez obsessiva e sem limite dos ricos de nossos países, aliada à corrupção praticada por algumas elites dos países que se dizem em vias de desenvolvimento, constitui um gigantesco complô da morte… Em todo o mundo e cada dia se reproduz os massacres dos inocentes de Belém” (Walter Hollenweg, Das Kindermorden von Bethleem geht weiter. Der Blick, Zurich, 21 de dezembro de 2001).

No dia 12 de outubro de 2008, os 15 chefes de estado e de governos da zona do euro se reuniram no Palácio do Eliseu, em Paris. Pela tarde, às 18 horas, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, em uma conferência de imprensa, declararam: “Acabamos de liberar US$ 1,7 trilhão para revitalizar o crédito interbancário e aumentar a base de autofinanciamento dos bancos de 3% a 5%”.

Naquele mesmo mês, os estados europeus reduziram de forma drástica suas contribuições aos programas de ajuda humanitária da ONU. Consequência: o Programa Mundial de Alimentação perdeu 41% de seus recursos. Em Bangladesh, por exemplo, a entidade foi obrigada a suprimir o programa de alimentação escolar para 700 mil crianças desnutridas. Nos campos de refugiados na Somália, o Programa Mundial de Alimentação distribui rações diárias que são 500 calorias abaixo do mínimo vital.

Um pouco menos de um bilhão de seres humanos vive na África. Entre 1972 e 2002, o número de africanos gravemente desnutridos ou em desnutrição permanente aumentou de 81 milhões para 203 milhões. Por quê? As razões são múltiplas. Uma das principais é a política agrícola comum da União Europeia.

Os países industrializados da OCDE pagaram a seus agricultores, em 2008, mais de US$ 350 milhões em subsídios à produção e exportação. A União Europeia, em particular, pratica um dumping agrícola com um cinismo sem fendas. Resultado: a destruição sistemática dos agricultores africanos.

Tomemos o exemplo da Sandaga, o maior mercado de bens de consumo do Oeste da África. A Sandaga é um universo ruidoso, colorido, perfumado, maravilhoso, situado no coração de Dakar.

Lá, a dona de casa pode comprar, dependendo da estação do ano, legumes e frutas portuguesas, francesas, espanholas, italianas e gregas – por um terço ou metade do preço dos produtos autóctones equivalentes. Alguns quilômetros mais adiante, sob um sol ardente, o agricultor wolof, com suas crianças e sua mulher, trabalha até 15 horas por dia… e não tem a mínima chance de conquistar um salário mínimo vital decente.

Dos 53 países africanos, 37 são quase que totalmente agrícolas. Poucos seres humanos sobre a Terra trabalham tanto e em condições tão difíceis quanto os agricultores wolof do Senegal, bambara do Mali, mossi de Burkina Faso e bashi de Kivu. A política européia de dumping agrícola destrói suas vidas e de suas crianças.

Onde está a esperança?

Na recusa provada do homem de aceitar um mundo onde a miséria, a falta de esperança, a exploração, a fome de uma multidão alimentam o relativo bem-estar de uma minoria, geralmente branca e na maioria das vezes inconsciente.

O imperativo moral está em cada um de nós. Georges Berna nos escreve: “Deus não tem outras mãos senão as nossas”. Precisamos despertar, mobilizar a resistência, organizar o combate.

Eu sou o outro. O outro sou eu. Immanuel Kant define assim o imperativo categórico, o imperativo moral: “A desumanização infligida a outrem destrói a humanidade em mim”. Jean Paul Sartre escreveu: “Conheça o inimigo, combata o inimigo”.

Jamil Chade escreveu um livro apaixonante. Grande jornalista internacional, correspondente credenciado perante a ONU, ele conhece perfeitamente não apenas vários países do hemisfério sul e principalmente a África, mas também e sobretudo o universo complicado das Nações Unidas, as estratégias escondidas dos estados-membros, o disfuncionamento das organizações interestatais especializadas. Seu livro é apaixonante, repleto de informações, de análises lúcidas. Brilhantemente escrito, ele transborda de vida, de imagens e de encontros.

E de cólera também. Sua análise é sombria. Mas lúcida. Jamil Chade cria a transparência, desperta a atenção e prepara a insurreição das consciências. Devemos a ele gratidão e uma admiração profunda.

Jean Ziegler
Autor de La Haine de L´Occidente. Sociólogo e ex-relator da
ONU para o Direito à Alimentação

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