LIVROS - Plano B - Introdução

Este livro não é sobre o futuro e também não se refere ao novo. Organizei os capítulos que se seguem ao redor de dez temas que lidam com a vida cotidiana como ela é vivida hoje — não ao redor de futuros fantásticos de ficção científica. E discorrerei sobre aspectos da vida cotidiana na qual a inovação radical já está surgindo.

Uma das coisas que me levaram a escrever este livro foi o tédio com o pouco valor do novo. Muitas das “situações preferíveis” das quais Herb Simon falava já existem — mas em um contexto diferente e muitas vezes inesperado. Uma das coisas que você pode fazer na próxima segunda-feira de manhã, depois de ler este livro, é sair de sua casa e dar uma olhada ao redor. Estou certo de que você se surpreenderá com a variedade de inovação social que está ocorrendo no seu ambiente. Eu me surpreendi.

Dito isso, abordar a questão “Onde queremos estar?” nos coloca diante de um dilema de inovação. Construímos uma sociedade focada na tecnologia que é notável no que se refere aos meios mas nebulosa em relação aos fins. Não está mais claro a que pergunta todas essas coisas — a tecnologia — respondem ou que valor elas agregam a nossa vida. Mas muitas pessoas que conheço presumem que ser inovador significa “agregar tecnologia”. A tecnologia se transformou em um poderoso sistema auto-replicável acostumado com o respeito e a receber a maior parcela dos fundos de pesquisa. No NASDAQ, a tecnologia chega a ter a própria bolsa de valores.

Durante a primeira parte da era industrial (e ainda estamos na era industrial, por falar nisso), progresso e desenvolvimento significavam a produção contínua da tecnologia e mais produtos, ponto final.

Com base nesse quadro conceitual, a tecnologia evoluiu de uma coletânea de ferramentas utilizadas para fazer as coisas a um sistema que se autoperpetua. Mas a extensão da penetração da tecnologia na vida cotidiana se ampliou e as diferenças entre as parafernálias diminuíram; a tecnologia se tornou, na melhor das hipóteses, uma commodity e, na pior, uma violação do espaço pessoal — até mesmo uma forma de transgressão, ou poluição. Uma das razões pelas quais as ponto.coms fracassaram é que elas ofereceram pouco valor além da “tecnologia” em um momento no qual a cultura tinha mudado e a tecnologia não era mais uma finalidade em si na nossa vida cotidiana.

Não estou sugerindo que tenhamos nos desapaixonado pela tecnologia, mas que estamos retomando a valorização e o respeito pelo que as pessoas são capazes de fazer e a tecnologia não. No decorrer da era moderna, subordinamos os interesses das pessoas aos da tecnologia, uma abordagem que levou à destruição impensada de culturas tradicionais e à destruição de formas de vida que julgamos, no passado, retrógradas. As vítimas dessa abordagem à modernização não foram apenas povos desafortunados nas florestas tropicais. “Fazer com que as pessoas se adaptem” à nova tecnologia nos afetou a todos. Acreditávamos que a linha de montagem e a padronização fariam do mundo um lugar melhor, mas, junto com a eficiência, veio uma desumanização do trabalho. Agimos como escravos da máquina hoje em dia, criticando os professores como obstáculos ao progresso quando eles não adotam a mais recente panacéia tecnológica para a educação.

O surgimento de uma nova tecnologia de massa —telégrafo, ferrovia, eletricidade, rádio, telefone, televisão, automóveis, aviões — sempre foi acompanhado de um espetacular pacote de promessas. Uma certa ingenuidade é justificável para os inventores dessas novas tecnologias: eles não tinham como saber das conseqüências inesperadas de suas inovações. Hoje em dia, não temos mais esse álibi. Nós sabemos que as novas tecnologias têm conseqüências inesperadas.

O pior tipo de impulsionador da tecnologia combina irresponsabilidade com um excesso de esperança. Um dos piores exemplos atuais é a biotecnologia. Quando Eugene Thacker estudou a indústria de biotecnologia para um livro que estava escrevendo, ele encontrou uma “flagrante disparidade entre o hiperotimismo e uma escassez geral de resultados concretos”. As promessas da biotecnologia para o futuro são muitas e de longo alcance, mas Thacker não conseguiu evitar notar a ausência comparativa de quaisquer resultados concretos,amplos e sustentáveis da aplicação da biotecnologia na medicina e na saúde. Somos vítimas, diz Thacker, da “imaginação biotecnológica” de interesses velados que participam da construção de visões futuras sedutoras.

O ceticismo em relação à tecnologia não implica sua rejeição. Há muita tecnologia neste livro. Para começar, não temos escolha: a terra firma e os terabytes estão aqui para ficar. Banda larga, materiais inteligentes, computadores que podem ser vestidos, computação pervasiva, eletrodomésticos interconectados e outras parafernálias que ainda não conhecemos continuarão a transformar o modo como vivemos. A questão é: Como?

Meios e fins foram mantidos separados durante tempo demais nas discussões sobre a inovação. Entender por que as coisas mudam e refletir sobre como elas deveriam mudar não são questões distintas. Nas páginas que se seguem tentarei mudar a perspectiva em relação a questões de tecnologia e inovação de forma a facilitar aos não especialistas o envolvimento em um diálogo significativo — à medida que as coisas acontecem. Theodor Zeldin chama a isso de transição de uma era de especificações a uma de deliberação.

Não podemos impedir a tecnologia, e não há razão para isso. Ela é útil. Mas podemos mudar o direcionamento da inovação e insistir que as pessoas vêm antes da tecnologia. Será, sem dúvida, uma luta contínua. Dos proprietários de fábricas do século XIX aos empreendedores das ponto.coms do século XX, os empresários têm buscado maneiras de remover as pessoas da produção, utilizando a tecnologia e a automação. Muitas organizações continuarão nesse caminho, mas elas estão obsoletas.

Este livro se refere a um mundo no qual o bem-estar se baseia em menos coisas e mais pessoas. Descreve uma abordagem à inovação na qual as pessoas voltam a fazer parte das situações. Nessas situações, deixaremos de ser convencidos de que, para estar em melhores condições, devemos consumir mais parafernálias e lixo.

Aqui se descreve a transição da inovação orientada pela ficção científica à inovação inspirada pela ficção social. Apresento os melhores exemplos de serviços e estruturas projetadas para permitir que as pessoas se envolvam em atividades rotineiras e cotidianas de novas formas. Alguns desses serviços envolvem a utilização de produtos, ou equipamentos, para serem executados. Os equipamentos variam de implantes corporais a aviões gigantescos. Mas os objetos, via de regra, exercem um papel de apoio. Novos princípios — acima de tudo, a leveza — informam os modos como eles foram projetados, construídos, utilizados e cuidados. O foco do design é em grande parte em serviços e sistemas, não em coisas.

Além de colocar as pessoas de volta ao cenário, precisamos nos dar mais tempo para transformar esse cenário. Muitos dos chamados efeitos ricochete da inovação — resultados que acabam sendo o contrário do que se pretendia — ocorrem porque o tempo que nos damos é insuficiente para testar as coisas, observar o que acontece e observar como o quadro global está mudando. Como eu argumento no capítulo 2, a velocidade pode ser fundamental na indústria de computadores, mas pode ser prejudicial em situações sociais.

Uma questão sobre a qual precisamos de tempo para refletir diz respeito ao enorme número de pessoas que temos no mundo. A população do planeta dobrou na minha geração — algo que nunca tinha acontecido antes a uma geração. Você e eu somos os primeiros seres humanos que precisaram se ajustar a uma explosão dessa grandeza. E, no entanto, insistimos na busca de equipamentos e serviços para “poupar mão-de-obra”— utilizando a tecnologia como o meio.

Não que sejamos idiotas. Pelo contrário, muitos milhões de pessoas utilizaram de grande inteligência e criatividade para construir o mundo moderno. Mas estamos sendo varridos para águas desconhecidas e perigosas pelo crescimento econômico acelerado. Dos dias que passei escrevendo este livro, em apenas um dia o volume de comércio mundial realizado foi o mesmo que em todo o ano de 1949; foi publicado o mesmo volume de pesquisas científicas que em todo o ano de 1960; foi feito o mesmo número de ligações telefônicas que em todo o ano de 1983; foi enviado o mesmo número de emails que no ano de 1990. Os nossos sistemas naturais, humanos e industriais, que evoluem lentamente, estão tendo dificuldades de se adaptar. Leis e instituições para
controlar esses fluxos ainda não conseguiram acompanhar o ritmo acelerado destes.

Para mudar a forma como fazemos as coisas, precisamos mudar a forma como as percebemos. Nas discussões sobre onde queremos estar, idéias revolucionárias muitas vezes surgem quando as pessoas olham para o mundo através de novas lentes. Um dos desafios de design mais importantes que lanço neste livro é fazer com que os processos e sistemas que nos cercam sejam inteligíveis e desvendáveis. Precisamos projetar macroscópios, além de microscópios, para nos ajudar a entender de onde as coisas surgem e por quê: a história da vida de um hambúrguer, ou a pressão do tempo, ou a expansão. Munidos de um entendimento mais claro do porquê de nossas situações presentes serem o que são, podemos descrever melhor onde queremos estar. Com situações alternativas em mente, podemos planejar nosso percurso daqui até lá.

Os macroscópios podem nos ajudar a compreender sistemas complexos, mas também é importante olhar para a realidade a olho nu. Modelos alternativos de organização da vida diária estão sendo experimentados e testados no mundo todo neste exato momento. Basta procurar por eles. Ezio Manzini encontrou dezenas de exemplos que nunca tinha imaginado — além de novas atitudes. Em muitas culturas diferentes, ele descobriu que “uma obsessão pelos objetos está sendo substituída por um fascínio pelos eventos”.

Em um mundo com menos coisas e mais pessoas, ainda precisaremos de sistemas, plataformas e serviços que permitam que as pessoas interajam de maneira mais eficaz e prazerosa. Essas plataformas e infra-estrutura demandarão alguma tecnologia e muito design. Alguns serviços nos ajudarão nas atividades cotidianas, como lavar roupas, cuidar de crianças, cozinhar etc.

Há muitas coisas erradas com o design no nosso mundo, mas os designers, como um grupo de pessoas, não são o problema. Trinta anos atrás, em Design for the Real World, Victor Papanek observou que “há profissões mais prejudiciais do que o design industrial — mas só algumas poucas”. Esse tipo de culpa e desonra é contraproducente e injustificado. O mundo tem sua parcela de designers egoístas e apáticos, é claro. Mas nenhum designer que conheci está determinado a acabar com o planeta, nos forçar a comer fast-food ou fazer da nossa vida um inferno. O nosso dilema é que pequenas ações de design podem ter grandes efeitos — muitas vezes inesperados — e os designers só foram informados recentemente, com o resto de nós, como precisamos ser incrivelmente sensíveis às possíveis conseqüências de quaisquer passos de design que tomamos.

Uma outra razão para não culpar os designers pelas nossas mazelas é que muitos deles estão se empenhando, neste exato momento, para combatê-las. Eles estão projetando novos serviços e sistemas que são radicalmente menos prejudiciais ao ambiente e mais socialmente responsáveis do que os que temos atualmente. Sistemas complexos são moldados por todas as pessoas que os utilizam e, nessa nova era de inovação colaborativa, os designers estão tendo de evoluir de autores individuais de objetos, ou construções, a facilitadores da mudança entre grandes grupos de pessoas.

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