LIVROS - Sonhar acordado - Prefácio

Prefácio

Daquela Santos em que Raul e eu fomos criados nunca pudemos nos esquecer e nem mesmo nos afastar. Nossas raízes familiares lá se encontram até hoje, lá também recolhemos a matéria-prima de nossos sonhos.

Durante um bom tempo, vivemos muito próximos e, embora não convivêssemos com tanta frequência, sabíamos como andavam as coisas para ambos os lados. Morávamos ao redor de uma praça, contígua a um colégio estadual, e passeamos muito por ali com nossas bicicletas de pneu-balão.

Acho importante essa questão de raízes e de matéria-prima de sonhos porque para o Raul e para mim esses dois vetores formaram a base sobre a qual nossas histórias, que guardam certa similaridade, foram construídas. Explico: o santista, como comumente se diz, é nômade. O Raul é um excelente exemplo desse pensamento popular porque ele só se lançou ao mundo por duas razões básicas: a primeira, porque os laços familiares e o seu grupo social inicial fortaleceram a sua personalidade; a segunda, graças à cultura global à qual nossos ancestrais – que tiveram contato com os inúmeros imigrantes que desembarcaram no porto dessa cidade, de grande importância econômica desde o ciclo do café – foram expostos. Nossos pais aprenderam coisas admiráveis. O pai de Raul, por exemplo, interessou-se pela catedral de Notre-Dame, em Paris; o meu, pela Bolsa de Fretes do Báltico, em Londres.

Em Santos vivíamos, também intensamente, as relações familiares e sociais, pois além das famílias se visitarem, existia o hábito de frequentar clubes sociais: o Raul, o Tênis Clube, e eu, o Clube XV. Os exemplos que tivemos e a vida durante a nossa infância e juventude justificam a decisão do Raul em dedicar o primeiro capítulo deste livro “ao espaço do trabalho na vida” e a “voltar, primeiramente, para o interior das pessoas”. O início da formação, lá em Santos, explica essa priorização.

A formação do Raul enfatizou o valor de se priorizar a família, os amigos e de sonhar com o mundo, sem que isso significasse deixar em segundo plano a busca pela qualidade, pelo fazer bem feito, e a busca do conhecimento maior, mais sofisticado. É sempre bom lembrar que de lá, da nossa Santos, vieram alguns luminares, como por exemplo, os Andradas. Longe de mim querer estabelecer qualquer comparação. Desejo simplesmente mostrar o tipo de ambiente que fez parte da formação cultural da cidade e de seus cidadãos.

Acredito que esses fatores foram relevantes na determinação do Raul em buscar incansavelmente a formação acadêmica do mais alto nível. Ele “sumiu”, para privilegiar seu objetivo naquele momento; fez escolhas duras, como ele mesmo aponta neste livro. Sua prática fundamental: ter a coragem de fazer escolhas, saber o que quer e o que não quer. Sua determinação e firmeza se contrapõem a uma personalidade descontraída, de bem com a vida, que cativa as pessoas. Para ser assim firme, determinado, e, ao mesmo tempo, afável, alegre, é necessário preservar as raízes e, ao longo da jornada, fazer escolhas. Quando vejo o Raul desempenhando seus vários papéis na vida, pessoal ou profissional, com aquele jeito brincalhão – que até o bigodão ajuda – lembro-me da música de um seriado de TV norte-americano, cuja letra dizia: “acredite você ou não, eu estou caminhando nas nuvens, eu nunca pensei que pudesse ser tão livre…”

É muito interessante notar, ao longo do seu relato, quão importante é estar atento e disponível. Raul descreve com muita pertinência a natureza fluida do tempo, da vida, e quão importante é o uso da intuição, a disposição em abraçar desafios novos e, além disso, o foco e a persistência na direção traçada.

Conhecendo o Raul, eu já esperava por sua abordagem sobre o “mergulho dentro de si”, sobre o entendimento evolutivo do holismo e, principalmente, sobre o sonho como alimento da alma, da busca, da justificação da existência. Tudo isso reunido neste livro – de forma, ao mesmo tempo, simples e fundamentada em experiência pessoal – será muito útil principalmente aos jovens que se lançam na aventura da construção da vida profissional, neste momento de tanta mudança.

Como observo de perto os movimentos profissionais feitos pelo Raul, não me causou surpresa a maestria com que ele operou a transição entre a vida executiva – na qual além da atividade profissional deve haver espaço para o exercício da criatividade – e transmissão de experiências. Por ter dado mais essa prova de extrema competência, acredito que muitas outras coisas importantes, como a densidade deste livro, ainda estão por ser oferecidas pelo Raul a todos nós.

Nossa geração testemunha e vivencia uma transformação muito importante na nossa linha de vida profissional – que tende a ser mais longa do que para outras gerações –, aumentando os trabalhos encorpados por força da continuidade das experiências de pessoas como o Raul. Entretanto, a forma como essas experiências serão recolhidas nesse tempo extra poderá surpreender cada um de nós.

Raul é do tipo de pessoa para quem os deuses sempre existirão porque ele nunca deixa de acreditar e sonhar. Sempre acreditei na necessidade de se produzir o que fosse possível para ajudar as pessoas mais jovens a se descondicionarem, a se libertarem das amarras que tiram a liberdade de buscar entender melhor o próprio “eu”, ou seja, entender as interconexões do mundo e da vida, para, finalmente, conquistarem a liberdade de sonhar.

Este livro do Raul dá um depoimento importante e contribui, de forma concreta, para que esses jovens possam evoluir nessas práticas que certamente os tornarão não só bem-sucedidos, mas, acima de tudo, felizes.

José G. Monforte
Presidente da Pragma Patrimônio

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