LIVROS - Tempo a Favor - Introdução

NUM TOM MUITO PESSOAL

Quais as razões para que uma pessoa, com 65 anos de vida, escreva um livro sobre questões que possam interessar, influir, fazer pensar e, quem sabe, eventualmente até provocar aqueles que estão próximos da barreira dos 40 ou já a ultrapassaram a pouco tempo?

Esse questionamento me foi colocado pelo editor Marcelo Melo, quando discutíamos os detalhes finais do livro. Ele foi um pouco além na sua provocação, solicitando que escrevesse uma crônica em tom mais pessoal. Algo que pudesse proporcionar ao leitor um certo “toque” de depoimento e intimidade, ampliando esse eventual relacionamento que se estabelece entre leitor e autor. Antes mesmo que ocorra o eventual mergulho nos vários temas que permeiam este livro.

Estou na categoria daquelas pessoas que desenvolveram uma vida nada linear. Pouco previsível e com muitas decisões, e encaminhamentos, de caráter puramente intuitivo. Diria até, com um estilo de criar desconfortos, intelectuais e práticos, para tentar crescer e realizar descobertas.

Tive uma educação severa numa pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul. Meu pai era um imigrante alemão que fugiu da guerra e seus horrores e minha mãe brasileira, mas de mesma origem. Tive por tudo isso uma consciência e um reconhecimento tardios. Além disso, era o mais velho de um conjunto de cinco filhos. Quem sabe, nem Freud explica tudo o que veio ao longo do tempo e da vida.

Com 16 anos dei meu primeiro “grito” de liberdade e iniciei um interessante percurso pelo mundo. Pelo menos um pequeno — ou amplo — mundo que me permitisse a aventura e o desfrute de conhecer, mas também aprender, com pessoas e lugares diferentes.

Comecei em Porto Alegre, onde encontrei o fundamental apoio de uma família, ao iniciar minha vida profissional como empacotador numa editora-livraria. Meu prazer pela escrita se iniciou nessa fase, quando, na solidão de um pequeno quarto, escrevia meu “diário”, alçado a meu confidente. Especialmente nos momentos em que fraquejava na minha decisão de seguir em frente na vida “por conta e risco próprios”.

Lá fiquei, até completar o serviço militar e sair “apto para o posto de terceiro sargento”. Que maravilha! Vejam só do que se salvou o Exército brasileiro. Mas foi no jornalzinho de uma escola, que pouco e mal freqüentei, que tive minhas primeiras experiências de escrever para ser lido por outros. Nessa época também me entusiasmei com as leituras de um cronista que, no seu estilo, me influenciou pela vida toda. Falo de Humberto de Campos. Hoje, um ilustre e injustamente, desconhecido.

A etapa seguinte foi em Curitiba, onde também encontrei acolhida de uma família de origem nipônica, especialmente para os momentos de solidão e saudade, que eram provocados pela vida em uma pensão numa área central da cidade. Nessa fase fui vendedor de máquinas de escrever. Confesso que ganhava mais trocados com a revenda das máquinas usadas do que das novas. E foi em Curitiba que surgiu a primeira oportunidade para um salto mais ousado. Conhecer outro país.

Como participava ativamente dos movimentos de jovens em uma comunidade cristã, conheci uma missionária que me propôs participar, como voluntário, de um programa de desenvolvimento comunitário no México. E lá fui eu, pelo período de três anos, em uma das experiências mais marcantes da minha vida. Morar e trabalhar numa comunidade do interior do México — estado de Morelos — convivendo com outros catorze jovens de oito países diferentes.

Nossa missão era contribuir para o desenvolvimento da comunidade através de programas que visavam ao aumento da renda familiar. Envolvia três instituições: Unesco, Ministério da Agricultura do México e uma organização pacifista internacional — Friends Service Comitee.

Após três anos, retornei ao Brasil e fui morar em Belo Horizonte, onde teve inicio minha fase de atividade jornalística. Trabalhando em importantes jornais, primeiro como “foca” e depois como repórter, vivi com relativa intensidade o golpe militar de 1964, já que Minas Gerais foi seu foco irradiador.

Enfrentando dificuldades de convivência com a situação política e a crise de emprego nos meios de comunicação, fui “salvo” por um convite, da mesma instituição com que tinha trabalhado no México, para realizar uma atividade semelhante em Lima, no Peru. Lá fui eu, sem muito pestanejar. E essa mudança representou uma alteração radical no percurso da minha vida.

Após “aterrisar” na cinzenta cidade de Lima, fui recebido por uma pequena comitiva de futuros companheiros de trabalho. Entre eles estava a Rosa — linda e cativante morena limenha — que, três meses depois, se tornou minha esposa e mãe dos nossos filhos. É bom deixar claro que não estou inventando. Casamos-nos depois de três meses de namoro e paixão intensos. E continuamos juntos por mais de quatro décadas. Brinco sempre que uma das causas possíveis para isso, era minha carência afetiva, pois, afinal, já fazia vários anos que andava “vagando”, solitariamente, pelo mundo.

Para encurtar um pouco esse relato, vale registrar que nos anos seguintes residimos em Lima, retornamos ao Brasil, onde voltei às minhas atividades jornalísticas em Belo Horizonte, depois moramos em Trujillo — norte do Peru — São Paulo e finalmente Curitiba. Ao longo desse “caminhar” nasceram Leonor (Noy), Carmen (Gringa), Maria Elsa (Marita,) Renata (Pitóca) e Gustavo (Gu). O curioso é que nenhum deles nasceu na mesma cidade. Esta turma está hoje agradavelmente ampliada por genros, nora (Gregório, Carlinhos, Gaspar, Tânia e Wagner), e os netos, Ana Belén, Martín, Manuela e Luisa.

E, com cinco filhos pequenos e 36 anos de idade, tomei a decisão que, possivelmente, mais riscos continha. Mas também terminou sendo aquela que mais oportunidades nos ofereceu ao longo dos últimos anos. Tornei-me um empreendedor. Iniciei a atividade que até hoje marca a minha vida pessoal e profissional. Criei um empreendimento de consultoria para empresas familiares. E devo também confessar que esta decisão não teve nada de racionalidade ou “plano de negócios”. A justificativa mais sensata que tenho para essa virada de vida foi imaginado que, após vários empregos onde tinha apenas um “patrão”, era melhor ter vários, ou seja, os clientes.

Mas, com certeza, embora tenha vivido até esta altura da vida, vários períodos de medos e apreensões, esta foi uma das fases mais preocupantes. Agora não tinha mais férias remuneradas. O que fazer nas fases de “baixa”do mercado. Desconhecia uma expressão importante na vida de um empreendedor, que é a “sazonalidade”, o que passa a exigir um comportamento mais cauteloso do ponto de vista da vida financeira. Quando estamos empregados em uma organização desconhecemos, em muitos casos, a diferença entre custos fixos e variáveis. Todas as despesas, inclusive aqueles almoços com clientes, são pagos por um “centro de custos” que nem ao menos sabemos onde está localizado. As contas de água, telefone, luz, condomínio, empregados etc., passaram a ser da minha responsabilidade. Como sair de férias e admitir que estará só gastando enquanto o faturamento está no zero? De que maneira desfrutar momentos de lazer com a família sem demonstrar preocupação com a empresa, clientes, fornecedores, tributos etc ? Possivelmente devo admitir que nestes momentos minha história pessoal valeu muito. Viver com austeridade, fazer reservas para emergências, compartilhar com a família todas estas inseguranças e manter o entusiasmo à cada novo amanhecer foram fundamentais. Sem falar nas noites mal-dormidas.

Olhar-se no espelho e concluir que, no seu reflexo, está o único responsável pela sua vida e decisões. E, no meu caso, não apenas a minha, mas de outras seis pessoas, das quais cinco não pediram para vir ao mundo. Pelo menos naquelas condições. Mas tenho que confessar também que aprendi muito com os clientes. Aliás, esta tem sido uma constante na minha vida. Tanto aqueles mais “abonados” — das empresas familiares —, como os executivos que viviam seus dramas e dilemas nos seus vínculos com as empresas.

Entre os primeiros constatava, claramente, a importância de não alimentar nenhum ressentimento ou inveja por sua condição financeira. Afinal, os “ricos” eram eles. Eu devia comportar-me como um prestador de serviços que encontrava, nos seus dramas e dificuldades, uma excelente oportunidade para atendê-los de forma respeitosa, profissional e com afeto. Em relação aos executivos, percebia o quanto seu desconforto era produto de indefinições da sua própria vida. Ou seja, não se apropriavam do seu destino e decisões. Suas existências, pessoal e profissional, se confundiam num emaranhado de falta de motivação e inseguranças. Com a agravante que não podiam demonstrar, publicamente, suas fragilidades.

E, realmente, não era nada disso que desejava para minha vida e dos nossos filhos. Todos estes episódios foram fundamentais para meu aprendizado e crescimento. As crises, dúvidas e incertezas são as que nos fazem crescer e ganhar estrutura para encarar os percalços e “tombos”da vida. O conforto, e a aparente segurança, podem se tornar geradores de uma conduta passiva. Recordo sempre que ao sair de férias com a família — cinco crianças num “fusca”, super usado — uma das primeiras conversas que provocava com a “turma”, ao longo da viagem, era para que cada um contasse o que de bom e ruim, tinha acontecido durante o ano que estava terminando. Insistia mais ainda para que falassem um pouco sobre seus planos para o novo ano que se iniciava.

Reconheço perfeitamente — hoje mais do que naquela época — ser esta uma provocação que os incomodava muito. Mas tenho certeza, foram reflexões importantes para os seus encaminhamentos futuros. Hoje me divirto constatando que algumas destas condutas, que tanto os incomodava, na infância e adolescência, estão se repetindo no diálogo que os mesmos mantêm com os filhos, sem dúvida, de uma forma mais pedagógica e modernizada. Ao fazer esse relato posso registrar quanto tudo isso foi importante, bem como agradecer por todo o apoio e compreensão que recebi.

A Rosa por acreditar nas minhas ousadias e transformá-las em suas, também; aos filhos, por “aceitarem” as ausências e o abandono, provocados pelas viagens e trabalhos; e aos clientes, por acreditarem — e continuarem acreditando — em nossa proposta de trabalho.

Mais recentemente aos sócios — Renata, Wagner e Édio — que estão dando continuidade ao legado que representa a Bernhoeft Consultoria Societária.
Curiosamente, quando estava na “curva” dos 40 e realizava um trabalho dirigido para executivos sobre administração do tempo e qualidade de vida, constatei algo que me chamou a atenção. A maioria das pessoas colocava a questão do “desfrute” da vida e seus sonhos pessoais como algo que poderia esperar até a época da aposentadoria. Aquilo me intrigou. Foi a partir dessa constatação que criei o Programa de Pós-Carreira (Preparação de Executivos para a Aposentadoria). E essa também tem sido uma experiência fantástica.

Mais de uma dezena de livros foi escrita, e publicada, ao longo desse percurso, além de muitos artigos em jornais e revistas.Vários tropeços, perdas, decepções e fracassos ocorreram, mas que foram compensados pelas alegrias e conquistas. E acredito, como é possível verificar, que estou na categoria das pessoas que conseguiram transformar o que gostam em seu empreendimento e ganha-pão.

Enfim, esta não é uma crônica-referência. Não sou nenhum modelo para ninguém. Continuo sendo, apenas, uma pessoa em busca da razão de viver e desvendando os mistérios daquilo que pode marcar uma passagem do ser humano pelo mundo. Confesso que tudo o que fiz, e vivi, o fiz intensamente. Nada foi “mais ou menos”. Uma das manifestações que mais me assusta nas pessoas é quando começam a demonstrar arrependimento pelo que não fizeram. Ou, também, claro, a dificuldade de lidar com as conseqüências daquilo que fizeram.
Lembro-me de uma frase — entre tantas — que me marcou. “Você está ficando velho quando os arrependimentos são maiores que os sonhos. O meu convite nesta crônica, muito pessoal, é para que você, caro leitor, jamais deixe de sonhar. Seja dormindo, seja acordado… sonhe para viver plenamente.
Assuma ser o autor da sua biografia.

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