Blog da Editora Virgília - Sobre Livros e Cultura

Deve ser a parte mais fraca da trilogia biográfica de Coetzee

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Acabei a leitura de Infância, primeiro livro da trilogia “biográfica” do escritor Coetzee. Me resta agora Juventude, Verão li há pouco e fiquei com a sensação de ter gostado mais do que este.

É claro que são profundas as dúvidas do garoto perdido entre as culturas, não quer ser africânder, parece temer ter que conviver com os locais e encontra dificuldade de se posicionar numa África do Sul marcada pelos contrastes. Também não sabe como se colocar em relação a mãe e ao pai, prefere a mãe, tem com o pai uma relação complexa, mas não entende a mãe e a relação dela com o pai, demonstra em alguns pontos o nojo e o incômodo. Bom aluno, vê as coisas mudarem quando vai para a Cidade do Cabo, mistura interior, vida rural com a vida urbana.

É um homem fadado a ser frio, não teve relações carinhosas na formação. O que disso foi verdade? Só o próprio e seus próximos sabem. Se for verdade, é exposição profunda, se for criação, desnecessária, não para o leitor, sim para os familiares.

Tive uma discussão sobre empresas familiares e usei a seguinte frase como algo verdadeiro que acontece com famílias: “O pai gosta do Partido Unido, gosta de críquete e de rúgbi, porém ele não gosta do pai. Não entende essa contradição, mas também não tem vontade de entendê-la. Mesmo antes de conhecer o pai, isto é, antes que ele voltasse da guerra, já tinha decidido que não iria gostar dele. Em certo sentido, portanto, a antipatia é abstrata: ele não quer ter um pai, ou pelo menos não quer um pai que more na mesma casa.
O que mais detesta no pai são seus hábitos. E os detesta tanto que só de pensar estremece de repulsa: o ruído forte ao assoar o nariz no banheiro de manhã, o odor quente de sabonete Lifebuoy que deixa para trás, junto com um círculo de espuma e barba cortada na pia. Sobretudo odeia o cheiro do pai.”

Parcerias com Gestores de Educação: Aula Nota 10 - Doug Lemov

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O livro Teach like a champion, do educador Doug Lemov vai se chamar Aula Nota 10 no Brasil. É uma co-edição entre a Da Boa Prosa, selo da Livros de Safra, também editora da Virgília, e a Fundação Lemann, entidade que faz um excelente trabalho na busca da sua missão de: Contribuir de forma relevante para modernizar a gestão dos sistemas públicos de ensino no Brasil, com o objetivo de melhorar o desempenho dos estudantes nas avaliações externas internacionais, aproximando-os dos alunos de países mais desenvolvidos (OCDE).

É resultado de pesquisas práticas do autor na busca das melhores maneiras de inspirar as crianças e conduzir uma aula que ele o nível do aprendizado e envolvimento. O livro chega muitíssimo bem traduzido, revisado e adaptado em outubro. Desde já é possível que secretarias de ensino e entidades públicas ou empresariais ligadas à educação e interessadas em adquirir lotes especiais, inclusive com possibilidade de inclusão de mensagens personalizadas, negociem conosco: 11 3081-2510 ou então pelo email: rogerio.gomide@livrosdesafra.com.br.
 

Aula nota 10: o bom professor inspira e fascina!

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A internet é ótima, mas muitas vezes ainda não possibilita às pessoas entenderem o peso das notícias e matérias. Quem se interessar por educação e procurar notícias sobre o novo livro do educador Doug Lemov vai encontrar referências à matéria publicada pela Folha de S. Paulo ontem, aliás, eis aqui o link.

Mas só quem pegou a edição impressa do jornal pode perceber a importância dada ao assunto e ao livro. As idéias de Doug ocuparam o espaço entrevista da 2a., um dos locais mais nobres e privilegiados do jornal. O título é: Só conhecimento teórico não forma bom professor - docentes também precisam de técnicas para transmitir conhecimento, inspirar crianças e manejar sala de aula.

O livro que será lançado em outubro por aqui, uma parceria da Da Boa Prosa com a Fundação Lemann, deve interessar aos professores, e principalmente aos profissionais que transitam no entorno deles, pessoas cientes da importância da sala de aula para a efetiva transformação da situação deste país. Nos Estados Unidos é um grande sucesso, estando entre os mais vendidos da Amazon e tendo sido inclusive capa da revista de domingo do The New York Times.

Das 49 técnicas, a matéria da Folha trouxe um resumo de 5, mas a dúvida apontada por Lemov na entrevista merece ser discutida: “Não estou certo de que as pessoas responsáveis pela formação de professores tenham em mente que o aprendizado das crianças tem que ser a prioridade em suas preocupações.” E infelizmente, apesar de muitos avanços, ainda necessitamos de uma evolução grande na educação.

O livro está sendo traduzido pela jornalista Leda Beck, há muito trabalhando próxima a educação e concluindo seu mestrado em Stanford e terá as adaptações necessárias a cargo da educadora Guiomar Namo de Mello. Aguardem novidades.

Papel x digital

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Um acredita piamente no papel, outro no digital? Em quem você apostaria só ver futuro no digital, o da direita ou o da esquerda? Sim, é o da esquerda, Ethevaldo Siqueira, especialista em comunicação, colunista de O Estado de S. Paulo, utilizou sua coluna de hoje para fazer previsões do futuro. Imaginou até uma bienal digital em 2025. Imagina o livro em papel como algo para colecionadores, um artigo de luxo.

O da direita é o editor Tyler Brulé, ex-Wallpaper e atual editor da Monocle, revista que aposta na sensação tátil e na permanência no papel. Sua revista em algumas edições parece um catálogo de diferentes tipos de papéis. É algo interessante de ser acompanhado, embora muitas vezes peque pela falta de profundidade. Ele vê sobrevida para o papel.

Como editor ficarei atento, como leitor, ainda gosto do papel e principalmente de olhar para minha biblioteca, mas acredito que apenas o tempo conseguirá de fato acertar essa…

Em tempos de Bienal é difícil ficar sem comprar

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Desde que foi anunciado o prêmio São Paulo deste ano estava um tanto curioso para checar se não houve uma confusão entre escritor e celebridade, afinal, o ganhador na estreante já passou pela tal, forma brega de dizer, vênus platinada. Mas foi só abrir as primeiras páginas de Se eu fechar os olhos agora para perceber que Edney Silvestre escreve sim como gente grande. Aumenta a fila.

Além dele, comprei Uma noite em cinco atos, peça publicada pela 34 (uma das editoras mais charmosas e consistentes da Bienal) do Alberto Martins, a Virgiliae vai publicar uma peça em breve, aguardem, e também Estação das chuvas, do José Eduardo Agualusa, um tanto de curiosidade no trabalho dele, outro no da Língua Geral.

Ah, mas não comprei na Bienal não, foi em cafés na Vila e na Cultura…

Arnaldo Antunes na abertura da Bienal

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A Bienal do Livro de São Paulo de 2010 foi aberta hoje pela manhã no Anhembi. Mas ontem à noite houve uma bela exposição da Imprensa Oficial  na Estação Pinacoteca: Um convite à leitura.

A Imprensa Oficial é uma editora que tem lançado ótimos livros, daqueles que cumprem uma função importante na cultura de um país, livros que dificilmente dariam lucro, mas são belos e irão reproduzir um tanto do seu tempo no futuro ou já estão resgatando o passado para o presente. Bem melhor do que ficar imprimindo Diário Oficial.

A platéia não estava lotada, Arnaldo Antunes não fez conexão com os livros, mas fez um show dos mais agradáveis. A última vez que o tinha visto num palco deve ter sido há 24 anos atrás, quando ele ainda cantava Sonífera ilha em danceterias bem menores e com uma acústica muito pior do que a Sala São Paulo.

Arnaldo é literatura, não é best-seller nem auto-ajuda, é uma literatura sofisticada mas não erudita. Mas Arnaldo é um artista inquieto, mantém sua expressão corporal das mais estranhas e totalmente harmoniosas com seu estilo, já acalmou, se não a cabeça, pelo menos o cabelo, e busca novas músicas, letras simples e muitas vezes diretas e irônicas, mas sem ficar presos a sucessos dos Titãs ou dos Tribalistas. Estava com preguiça de ir, valeu.

Quer aprender sobre livros, eis um curso sério

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De volta às suas instalações verdadeiras (ano passado o prédio passava por reformas), a Universidade do Livro promove o seu Curso de Extensão em Edição: o livro como negócio e produto.

Vai de de 1o. de setembro à 30 de novembro, todas as 3as e 4as perfazendo 100 horas/aula e abordando as diversas etapas e funções dentro da cadeia do livro. Dou a 2a. aula, Plano de Negócios. Os professores são profissionais com experiência e vivência em diversos sub-setores. A Universidade do Livro é ligada a Fundação Unesp. Se quiser maiores informações, clique aqui.

Começa a Bienal do Livro 2010

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Hoje é uma festa na Sala São Paulo, amanhã para profissionais, mas a partir de sexta-feira todos podem ir até o Centro de Convenções do Anhembi checar o que há de novo no mercado editorial brasileiro. O evento concentra lançamentos e é uma festa, algo motivador para crianças. Se está em busca de um bom livro, deve ir, como algo missionário, nada que uma visita a uma ótima livraria não substitua, mas vale sim ter um panorama mais completo.

Programe-se, de 12 a 22 de agosto.

Devorador de livros

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A Folha de ontem trouxe matéria com o adolescente Luis Antonio Gonçalves Netto, 14 anos, morador de São José do Rio Preto e que não está em nenhuma das duas ilustrações acima, encontradas livremente na internet e infelizmente sem crédito, mas pode ser julgado como um legítimo devorador de livros.

Como castigo por uma nota baixa foi obrigado a ler 10 livros, mas o tiro do pai, saiu pela culatra (o mercado editorial deveria contratar cientistas para entender como de uma atitude negativa, brotou um ato positivo, mas você que é pai ou mãe e quer que o seu filho leia bastante, talvez não seja essa a melhor solução, o garoto aqui parece ser a exceção, não a regra), e ele se apaixonou pela leitura e descobriu uma capacidade pouco humana, ler 300 páginas em uma hora, isso mesmo. De dezembro até aqui, enquanto eu me orgulho de ter lido 20 livros, bem acima da média brasileira, o fedelho já leu 340 livros, sim, isso mesmo. O repórter fez um teste e ele citou a história e personagens.

Seria ótimo se topasse fazer um teste lendo livros e livros, aí poderíamos ter uma medição se a tal literatura, teoricamente inspiradora do movimento slow read do Peter Burke, faz mesmo com que a taxa de leitura diminua. Mesmo assim ele ainda não conseguiu escrever seu livro, diz ser mais rápido para ler do que escrever, todos somos, e quanto mais o senso crítico, maior a diferença.

Literalmente um mundo de livros: 130 milhões

O Google anunciou ontem suas estatísticas sobre a quantidade de livros disponíveis para os homens: 130 milhões, excetuando-se é claro as diferentes versões de um mesmo volume. Como é sabido de todos os players deste mercado, nunca será por falta de oferta que ele sofrera, é um mercado muitas vezes carente de demanda.

Ontem a CBL e o SNEL divulgaram os dados de sua pesquisa anual. O quadro continua estático, em tempos teoricamente recessivos, no mundo e não no Brasil, não deixa de ser boa notícia. Os e-books não foram medidos e a pesquisa é conduzida pela FIPE, o que já garante ao mercado, essa instituição vem fazendo isso há alguns anos, uma certa condição de comparação.

Foram produzidos 386 milhões de exemplares, os dados de venda sempre ficam próximos o que mantém nosso índice de leitura por habitante em patamares bastante baixos, ou o potencial do mercado grande, copo meio vazio ou meio cheio? 44% das vendas de livros foram por meio das livrarias, que ainda existem em número aquém do desejável.

Pouco, rápido, porém profundo: A máquina de Joseph Walser

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Gonçalo M. Tavares continua a me irritar, não gosto do jeito que ele escreve, simplesmente porque tenho inveja…

Li seu último livro A máquina de Joseph Walser, coleção O Reino, a mesma do premiado Jerusalém. A cada livro dele que leio, sou um leitor mais maduro, exigente e continuo a gostar. Percebi nesse que em alguns pontos a história perde para a forma, nada que afaste o leitor, que diminua a sua experiência, uma experiência diferente, compensada pela densidade das palavras, sem nenhum apelo aos adjetivos fáceis.

Walser é um operário com hábitos esquisitos, tão esquisitos quanto qualquer ser humano, tem problemas com a mulher e o chefe, os dois no mesmo problema e acaba tendo um acidente mutilante de trabalho, próximo ao do nosso presidente, mas perde o indicador. A máquina causadora do acidente pode ser vista como metáfora para regras e outras questões, as relações homem-mulher são questionadas, eis algumas ”pérolas”, no melhor dos sentidos (a que mais gostei não vou botar porque posso incluir como epígrafe do meu livro):

mulheres obesas agarram-se aos homens e não mais os largam: porque sabem qeu provavelmente não terão outro, e odeiam essa possibilidade, a de não terem outro.

… de quem dizem coisas assustadoras mas também maravilhosas, como convém ao currículo dos poderosos.

… porém o aperto de mão entre dois homens faz o que a engenharia demora meses em casas destruídas: os sentimentos são, apesar de tudo, materiais mais leves e recuperáveis que a pedra, o tijolo ou o cimento.

Se busca algo rápido e forte, eis uma excelente indicação. 

Espelho LXXVII

Ser humano é buscar, sem encontrar, numa fonte externa o pedaço faltante dentro de si…

Livro está na moda, da até para ficar neles. Hotéis com livros

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Seja no papel, seja em qualquer formato de leitor digital, os livros poucas vezes foram tão falados quanto agora. Isso é bom, falar é fácil, ler é mais difícil, tudo que é mais difícil dá muito mais prazer. Reportagem do caderno de Turismo do Estadão de hoje mostra os hotéis onde o tema são livros:

Há o L’Hotel, Paris, onde morou Oscar Wilde, mas há também os que apelam para as letras para montar o seu diferencial competitivo, o Library Hotel de NY (www.libraryhotel.com), onde há uma biblioteca e destaque para livros nas suítes, dê uma olhada nas amenidades abaixo. Já no Hotel de Las Letras (www.hoteldelasletras.com), primeira foto à esquerda, as letras invadem as paredes, em frases e poesias, estilo Casa do Saber daqui, os livros também teoricamente se encontram numa biblioteca, mas no site não vi foto alguma dela. As outras duas fotos menores são do Library Hotel, são 6 mil livros, e ainda fica perto da Biblioteca Municipal se você sentir falta de algum… Eis as amenidades:

  • Reading Room
  • Poetry Garden with terrace
  • Writer’s Den with fireplace, flat panel television and enclosed garden terrace
  • Executive Inspiration Boardroom for 12 people
  • Madison & Vine Restaurant
  • 24 hour access to computer stations and printer
  • Quem está meio sem inspiração e tem a conta bancária recheada pode sim sentar-se próximo a lareira e escrever sobre os fatos cotidianos da vida em qualquer lugar do mundo, ou então, buscar mais inspiração ainda no Jardim da Poesia.

    Dia dos pais: fim da Flip, dia de ganhar livros

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    Dia dos pais. Voltei mais cedo da Flip para passar o dia com a prole. O que ganha um editor de presente de dia dos pais? Isso mesmo livros:

    Alguma poesia, belíssima edição do Instituto Moreira Salles para o primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade; Galiléia de Ronaldo Correia de Brito (não havia gostado tanto da presença dele na mesa, mas iniciei a leitura hoje na Vila, aqui em São Paulo e não resisti); A ilusão da alma, novo livro do Eduardo Giannetti; e O beijo de Lamourette, clássico de Robert Darnton sobre a história das mídias. Ganhei livros e meu filho pediu para eu assistir uma séria com ele, Supernatural, hoje deveria ser dia dos pais democráticos…

    Balanço da Flip: menos gente, menos mesas que me chamaram a atenção, mesma dificuldade de comer em Paraty. O pior dia foi uma espera de quase 2 horas e a chegada de um prato que não fora pedido, conselho da atendente, tá uma confusão na cozinha, eera o que dava para sair… Mas Paraty tem um clima único, e é sempre bom falar, ouvir e ver livros, mesmo que seja com pessoas que só façam isso, não os leiam…

    Mesa 13: Gullar salvou a minha Flip!

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    Esse senhor aí acima salvou a minha Flip, se mais nada tivesse acontecida, ouvir Ferreira Gullar já valeu. Falou de poesia, da sua poesia, falou de arte, falou de um pouco da cultura do Brasil.

    Para ele a arte existe porque a vida não basta. Qualquer um deveria prestar muita atenção nesta frase. É uma das definições mais brilhantes que ouvi. Gullar vai voltar a publicar poesia neste ano, merecia um projeto gráfico a altura, ainda mais sendo o esteta que é, mas sua editora não costuma caprichar tanto, espero que me surpreenda. Gullar também disse que só escreve incomodado, que estar em estado de poesia é um momento mágico, mas incontrolável, nada sobrenatural, porém que precisa ativar seus sentidos.

    Um pensador, alguém que participou ativamente e de dentro de movimentos artísticos e políticos da cena brasileira. Além do mais, alguém com carisma e história para encantar uma plateia que mais do que pedia um tanto de conteúdo e lirismo numa Flip mais vazia do que anos anteriores. Um pouco de Gullar (trecho de Poema sujo, marcado como esgotado na Cultura, é mole???):
      …
      Ah, minha cidade suja
    de muita dor em voz baixa
      de vergonhas que a família abafa
      em suas gavetas mais fundas
      de vestidos desbotados
      de camisas mal cerzidas
      de tanta gente humilhada
      comendo pouco
    mas ainda assim bordando de flores
      suas toalhas de mesa
      suas toalhas de centro…

    Mesa 12: McCann e William Kennedy um tanto monótonos

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    A foto do escritor Colum McCann é de Brendan Bourke, para representar William Kennedy escolhi o cartaz do filme do Babenco, Kennedy, pelo menos de acordo com a voz dos tradutores simultâneos da Flip, não é dos mais simpáticos, parece um tanto castigado pelos anos, foi uma presença um tanto monótona.

    A mesa não me agradou, fui com expectativa conhecer McCann, não saí de lá determinado a ler seus livros, as críticas são positivas e consistentes, mas no emocional não fui capturado. Aliás, ficar na tenda do Telão ou então para fora dela é sinônimo de depender dos tradutores simultâneos, sim, são importantes e fazem um trabalho complexo. Mas quando os autores lêem suas obras, eles não traduzem, também lêem dos livros em português, mas parece que traduzem, e é praticamente impossível gostar de uma obra com esses profissionais lendo, não tem vida nem pontuação nenhuma, fica aqui a sugestão para que façam também algumas aulas de interpretação de texto, de leitura, para que o público possa curtir melhor as obras, ter um mínimo do sabor do que o autor fez, também alguns autores são muito melhores para escrever do que ler…

    Discutiu-se lugar e o impacto na obra, o específico e o universal, uma certa reverência à importância de Kennedy parecia necessária e foi cumprida. Interessante ouvir de Kennedy o quão ferrado estava e a mudança de vida que um prêmio representou, bem como do decorrente trabalho com Coppola. McCann falou sobre suas viagens pelo mundo e experiência em universos extremos e diferentes do seu, possivelmente ingrediente necessário e tempero de sua ficção.

    Faltaram duas homenagens na sexta: Adoniran Barbosa e Tony Judt

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    Na sexta comemorou-se o centenário de nascimento de Adoniran Barbosa. Trem das onze, Saudosa maloca e Tiro ao Álvaro foram músicas que marcaram a minha juventude, é claro que existiam outras, mas essas apesar de não cantar há anos, continuam vivas no meu emocional.

    Na sexta Tony Judt morreu. Grande pensador abatido por uma doença cruel e avassaladora. Não quero com isso ser dramático, mas iniciou uma luta de frente contra a doença, produziu um livro e se comunicou com o mundo por sinais dos olhos.

    Grupo Contadores de Estórias - Teatro Espaço

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    O teatro de bonecos de Paraty, Teatro Espaço, tocado pelo Grupo de Contadores de Estórias tem um enorme defeito, pelo menos para quem tem filhos e os trás à cidade. Acabei vindo para a Flip em tempos de aula sem os filhos, antes mesmo que completassem os 14 mínimos anos para assistir ao espetáculo.

    Valeu a pena? Sim, é de uma delicadeza enorme. Pela primeira vez na vida me dei conta da beleza estética das miniaturas, como o tamanho pode passar mensagens. São 6 ou 7 historinhas, a peça em cartaz é um apanhado do que o grupo já fez de melhor, onde a principal característica é a delicadeza. A boneca da direita aparece em duas delas, é quem mais tem semelhanças com humanos, movimentos inacreditáveis. Mas a beleza maior não é isso, não é ir lá para se ver, mas sim pensar sobre os temas comuns da vida, e perceber que acontece até mesmo com os bonecos.

    Se passar por Paraty sem crianças, vá lá, 1 hora simples, sensível e direta.